Covid-19: Professoras da região aceitam desafio de ensinar através da televisão

Situações únicas obrigam a medidas excecionais. Foi este o lema que levou várias professoras do concelho de Alcobaça a colocar de lado os seus receios e aceitar o desafio de participar no projeto “Estudo em Casa”, trocando a sala de aula pelos estúdios de televisão. À frente das câmaras ou a apoiar na produção dos conteúdos transmitidos pela RTP, este é um desafio para o qual ninguém estava preparado.

“Este é um projeto que resulta de uma necessidade urgente. Costumo dizer que estamos em missão porque o País chamou por nós e não houve tempo para preparações ou grandes reflecções no momento de abraçar este projeto”, conta a beneditense Vera Lopes, professora de espanhol. As gravações das aulas decorrem às segundas-feiras num período de 30 minutos, sem possibilidade de um segundo take. Toda a preparação a nível de vestuário ou maquilhagem é realizada de forma autónoma pelas professoras, em casa, pois o cronómetro marca apenas 30 impiedosos minutos. “Não há oportunidade de repetir, gravamos tudo sem cortes e perante dificuldades, temos de improvisar e dar continuidade à aula”, revela a docente, que leciona na escola Fernando Casimiro Pereira da Silva, em Rio Maior.

Uma vez que é a única professora de Espanhol naquela escola e consciente da impossibilidade de “abraçar sozinha um projeto de tamanha dimensão”, a beneditense convidou a sua colega  Rita Duarte, de Leiria, para formar “uma dupla eficaz e focada”. “A Rita foi minha colega de mestrado e como já conhecia um pouco do seu percurso profissional considerei desde logo que seria uma boa aliada”, recorda. Para Vera Lopes, o apoio da equipa é muito importante para diminuir ansiedade, resultante da inexperiência de estar diante das câmaras e da ausência do feedback dos estudantes. “Estamos habituados a estar em sala de aulas e a conhecer as capacidades e dificuldades do nosso público. Neste projeto isso não se verifica e resulta num aumento da insegurança”, confessa.

Além do inflexível calendário de gravações, a beneditense tem ainda de gerir funções enquanto diretora de turma e mãe de duas crianças pequenas, que também requerem acompanhamento e estão a sair prejudicadas com toda esta situação. “Infelizmente não tenho fins de semana ou feriados e todo o tempo acaba por ser dedicado a funções profissionais. Preciso de mais 24 horas num dia para acompanhar de forma eficaz os meus filhos nas tarefas”, desabafa.

Esta é uma realidade bem conhecida da alcobacense Susana Almeida, responsável pelas aulas de Matemática. “Este ano não tive direito a Domingo de Páscoa e os fins de semana são tão atarefados quanto os restantes dias. Mas é preciso focar no bem maior que é garantir o acesso à educação a todos os alunos”, sublinha. A docente, a lecionar na escola Fernando Casimiro Pereira da Silva, em Rio Maior, tem marcado presença no estúdio Luíz Andrade, nas instalações da RTP, todas as quintas-feiras para a gravação de duas aulas. Contudo, as gravações vão duplicar e, consequentemente, o “trabalho de casa” vai exigir muito mais tempo. “Cada aula exige muita preparação prévia e o acumular de funções torna-se cada vez mais desafiante”, declara. Susana Almeida confessa que apesar de já estar praticamente a meio do número de aulas calendarizadas, o desafio não é menor e “apenas se aprende a equilibrar as tarefas”. “Não tem sido um percurso fácil, mas o crescimento a nível profissional e até pessoal tem sido enorme. A Telescola trouxe uma lufada de ar fresco para os mais novos e demonstrou que somos capazes de nos adaptar a diferentes realidades”, afirma. 

Mas nem só diante das câmaras se leva a escola a casa dos alunos. As aulas exigem várias horas de preparação nos bastidores, nomeadamente em busca de conteúdo dinâmico, cativante para as diferentes faixas etárias e informativo. A alcobacense Susana Traquina não pensou duas vezes em aceitar participar do projeto nacional… mas longe dos holofotes. “O projeto caiu no nosso colo e a decisão teve de ser tomada com rapidez. Não hesitei em apoiar a comunidade educativa, mas não me sinto à vontade com a exposição e por isso optei por ficar ligada à parte da produção”, explica. Mas o trabalho não é menor. De acordo com a professora de Português, é necessário desconstruir métodos de ensino e procurar novas formas de conseguir cativar a atenção do aluno, que agora possui a capacidade de “fugir” à escola com o simples ato de desligar o televisor. “Preparar conteúdo exige horas de dedicação e faltam elementos fundamentais como a interação e a capacidade de olhar para o aluno e entender se precisa de uma nova explicação ou de uma abordagem diferente”, lamenta.  

Para Susana Traquina, a urgência de pôr o projeto em funcionamento eliminou a possibilidade de realizar um período de adaptação, que poderia ajudar a melhorar a sua eficácia. “Não é um projeto perfeito porque todos temos a noção que não houve um período de análise e experiência necessário. Mas acredito que é pertinente e que é uma mais valia para os estudantes dada a situação atual”, argumenta. Atualmente, além de integrar a equipa de Português da iniciativa “Estudo em Casa”, Susana Traquina cumpre funções enquanto diretora de turma e professora de 100 alunos com os quais realiza duas sessões síncronas por semana.

A dedicação destas professoras ao projeto tem como único objetivo garantir que “nenhum aluno é esquecido ou negligenciado”, mas não visa substituir o trabalho de proximidade que deve ser realizado pelos professores. “As transmissões televisivas têm o objetivo de complementar os ensinamentos dos professores. Não é possível substituir um acompanhamento detalhado, na medida do possível, que cada escola quer disponibilizar. Estamos a dar o nosso contributo, mas o sucesso só será alcançado com o trabalho de todos: pais, escolas, estudantes e a Telescola”, conclui.

Do concelho de Alcobaça, participam ainda no projeto os docentes Paula Lourenço, Vânia Mateus, João Jorge, Cláudia Santos, Micaela Penas, Liliana Soares e Clara Cruz.

Fotografia: Joaquim Dâmaso/Região de Leiria