No Campo da Rã a bola nunca mais voltou a correr

Volvidas duas décadas, o REGIÃO DE CISTER desafiou Francisco Salgueiro e Joaquim Bispo, ex-presidente e ex-treinador do Ataíjense, respetivamente, a voltarem a pisar o Campo da Rã, na Ataíja de Cima, onde entre 1988 e 2000 jogou o clube e onde, desde então, não mais rolou a bola.

“É um sentimento de enorme tristeza ver o estado em que está o campo no qual vivemos muitas alegrias”, desabafou Francisco Salgueiro ao REGIÃO DE CISTER com os olhos trémulos da emoção que foi voltar àquele lugar. “Aqui passei dias infindáveis da minha vida e que ainda hoje recordo com um certo aperto no coração ao ver que foi um projeto que acabou por cair”, lamenta o único presidente do clube durante as épocas de atividade desportiva. Durante aquelas 11 temporadas, o domingo era dia sagrado. Os adeptos paravam naquele salão da localidade da freguesia de Aljubarrota para tomar café e dirigiam-se em romaria ao campo da Rã para assistirem aos jogos da equipa. “Eram dias de grande festa e animação na Ataíja”, assevera o dirigente, que nunca faltou a um jogo.

Na época de estreia, sob o comando do alcobacense José Penalty, o clube militou na última divisão distrital, mas as temporadas áureas foram sob a liderança do técnico Joaquim Bispo, em 1997/1998 e 1999/2000 na 1.ª Divisão distrital. Joaquim Bispo foi uma opção de Francisco Salgueiro e o convite para assumir a equipa ainda hoje é relembrado por ambos. “Estava num dos meus terrenos quando o presidente chegou com o diretor Miguel Catarino para me convidar para liderar a equipa”, conta o técnico, revelando que não só aceitou o convite, como as épocas 1997/1998 e 1999/2000 o marcaram para sempre.

“Ainda hoje sou conhecido como ataíjense e na verdade sou de Aljubarrota”, graceja Joaquim Bispo, a quem não faltam palavras para elogiar o trabalho do presidente. “O Francisco foi um grande presidente e foi quem assumiu comigo a equipa. Fazia de massagista e roupeiro e estava sempre no banco ao meu lado”, nota o técnico aljubarrotense.

No Ataíjense passaram vários técnicos durante as 11 épocas, mas Francisco Salgueiro, de 73 anos, não esquece o contributo dos jogadores para a melhoria das instalações do campo. “Foi a Direção e os jogadores que construíram as instalações do balneários e éramos nós que pintávamos as linhas do campo antes de cada jogo”, relembra o ex-dirigente, revelando que chegou a “avariar um Renault Mégane novo para transportar a máquina que pintava as linhas do campo”.

Joaquim Bispo, de 55 anos, começou a treinar no clube e passados 20 anos também não escondeu a emoção de voltar ao “palco de domingo”. “Aqui conheci pessoas extraordinárias e gente que ainda hoje faz uma festa quando passa por mim”, afirma o técnico que liderou a equipa na última temporada de atividade.

Passados 20 anos, o campo da Rã, onde outrora se festejaram golos como os de Chico Daniel, Diamantino e do turquelense Paulo Duro, está agora “irreconhecível”. As balizas foram retiradas há três anos e as linhas foram substituídas por ervas daninhas que ali foram crescendo. Os balneários e o bar foram destruídos e aquele campo funciona agora como parque de estacionamento, onde se realiza um festival das sopas. “É muito triste ver este campo desta forma”, lamenta Francisco Salgueiro, contando que está a ser pensado um projeto para uma pista e remodelação do campo, mas que ainda “não se viu nada”.

Se o projeto para remodelação e melhoramento das infraestruturas seguir a “bom porto”, Francisco Salgueiro assumiu que voltava a “vestir a camisola”, e que de imediato equipava lado a lado com o técnico Joaquim Bispo. Até porque o prémio de assinatura é um almoço entre ambos.

Além do campo da Rã, há vários campos de futebol inativos na região. No concelho de Alcobaça, existem mais quatro: São Martinho do Porto, Bárrio, Aljubarrota e Burinhosa. Na Nazaré estão inativos os dois campos da Quinta do Pinheiro, em Valado dos Frades, e o pelado de Fanhais, que entretanto deverá ser o palco principal do Nazaré Sport Clube. Já no concelho de Porto de Mós apenas o Campo da Fiandeira, em Mira de Aire, está inativo e à espera de uma “nova vida”.