O oficial alcobacense que navega em alto mar em navios de cruzeiro

Qualquer erro ou distração que faça pode ter consequências nas 3 mil vidas que tem nas mãos todos os dias, sete dias por semana, ao longo de quatro meses. Manuel Gonçalves, mais conhecido em Alcobaça por “Manel das Laranjadas”, é 2.º oficial na companhia italiana Costa Cruzeiros e, quase sempre, o único português a bordo, numa tripulação que chega às 900 pessoas. 

Há nove anos a navegar em alto-mar e desde 2012 em navios de cruzeiro, o marinheiro alterna uma rotina de quatro meses em alto mar com dois meses em terra. A bordo, faz turnos de quatro horas. Tem comida farta na mesa, roupa lavada e cama feita. Já perdeu a conta às cidades que visitou. Mas nem tudo é um mar de rosas. 

Depois de se ter formado na Escola Náutica, em 2010, passou por embarcações de carga para completar os 12 meses obrigatórios como praticante. Chegou ainda a trabalhar nas embarcações de transporte de animais vivos das Ilhas, na Transinsular, e depois disso tentou “muito” ir para a pesca. Uma coisa era certa: navios de passageiros nem pensar. “Não queria lidar com pessoas porque a responsabilidade seria sempre muito maior”, conta o alcobacense, que acabou por ser chamado para uma entrevista para ocupar uma vaga na tripulação da companhia Ibero Cruzeiros. “Na época nem falava inglês e fiz a entrevista em espanhol”, confessa. Mas, foi o suficiente para entrar no mundo dos cruzeiros e agora o discurso é bem diferente: “Se tiver de abandonar este mundo dos cruzeiros, desisto do mar. Não há hipótese”, garante o jovem, de 32 anos. 

“Quando entrei nesta vida dos cruzeiros, na Ibero, só fazia Brasil, do Rio do Janeiro até Buenos Aires, durante três anos. Foi tudo muito intenso”, conta. Tanto que viveu a “história clássica” de um marinheiro: assim que embarcou num cruzeiro, apaixonou-se pela “primeira bailarina” e quando voltou a embarcar já estava casado com uma costa-riquenha. “As coisas, obviamente, não resultaram. A bordo vivemos outro mundo. Se queremos comer vamos ao buffet e todos os dias alguém vai à nossa cabine limpar e arrumar. Passar disso para uma vida a dois não tem nada a ver. Não funcionou e acabámos por nos divorciar”. 

Hoje em dia, a namorada do “Manel” fica em terra à espera que ele volte a “atracar” em casa. E para o jovem, as relações são, mesmo, o mais difícil de gerir para quem navega em alto mar. Espera daqui a dois anos ser promovido a 1.º oficial, mas depois disso não pensa em prosseguir na carreira. “Se quisermos constituir uma família é muito difícil ficar cá”, nota.

A bordo também há uma família que se cria, embora não possa comunicar em português. “Quando passei da Ibero para a Costa, depois do acidente do Concordia, foi muito diferente. Na Ibero a maioria dos tripulantes eram latinos, muitos brasileiros. Na Costa são mais filipinos e indonésios”, adianta o marinheiro, que é dos únicos portugueses oficiais na companhia. 

Entre o percurso, vai aproveitando para conhecer o mundo. “Desde que estou cá, estou sempre a mudar de navio, a frota desta companhia é maior. Tenho cinco ou seis contratos com barcos diferentes, o que me permite fazer vários percursos”, revela. Entre destinos como Dubai, China, Japão, Caribe e Mediterrâneo, rota mais comum, principalmente no verão, o alcobacense já teve a “sorte” de dar a volta ao mundo a bordo do Costa Luminosa. “Fiz a travessia do Atlântico e a América do Sul pelo Sul. E se tudo correr bem, vou repetir a primeira vez o mesmo navio, uma vez que o Costa Deliziosa vai fazer a volta ao mundo em dezembro, pela América Central, no Panamá, que ainda não fiz”.

Para o “Manel das Laranjadas”, o mais apaixonante é a incerteza do destino da próxima viagem. “Gosto de estar casa e receber um email a dizer que vou para China”, diz. Além disso, o alcobacense realça a estabilidade e a vida social do navio. “Já estive nos contentores a fazer o Atlântico, em dezembro, num navio de 100 metros. Aqui, para mim, isto nem mexe. Isto não é nada”, ironiza o 2.º oficial. Quanto ao resto, “só as pessoas que trabalham cá é que têm ideia da vida num cruzeiro”. E explica: “a diferença é estar com as mesmas 12 pessoas durante três meses, como já estive, e estar num navio que só de tripulação tem 900 pessoas e de passageiros entre 2.500 e 3 mil, que mudam todas as semanas. É uma intensidade tão grande que para viver o que vivo quatro meses a bordo, em terra preciso de um ano e meio”, afirma. Seja como for, a família, a namorada e os amigos cá o esperam, em terra, em setembro para matar saudades.