Quarta-feira, Julho 6, 2022
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Mulher taxista põe mãos ao volante há 23 anos

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Veste-se de preto, com pequenos apontamentos claros. Uma cor que domina o seu guarda-roupa há 23 anos. Contagem que marca a morte do marido. Mas não é apenas a dor e a cor que assinalam a ausência do homem com quem passou 27 anos da sua vida. Herdou, por opção, uma profissão para muitos considerada masculina: taxista. 

Veste-se de preto, com pequenos apontamentos claros. Uma cor que domina o seu guarda-roupa há 23 anos. Contagem que marca a morte do marido. Mas não é apenas a dor e a cor que assinalam a ausência do homem com quem passou 27 anos da sua vida. Herdou, por opção, uma profissão para muitos considerada masculina: taxista. 
Mãos ao volante, Maria Cristina de Sousa Barrela de Jesus, de 70 anos, conduz uma viatura de marca Mercedes, número 10, na Praça de Táxis em Alcobaça. É das poucas mulheres no País a prestar este serviço. Um caso, praticamente, único na região. Confessa que já perdeu a conta ao número de quilómetros que fez, mas tudo aponta para sejam mais de um milhão. Sim, leu bem, um milhão! A taxista refere que nem são muitos quando comparados com os anos que já dedica, sem interrupção, à profissão que adotou à força e em memória do marido, Manuel Almeida de Jesus. “Para não ficar tudo desmoronado, decidi pegar no carro”, desabafa. 
Vamos por partes. Tudo começou no dia 3 de agosto de 1990 quando Manuel Almeida de Jesus adoeceu. “Deitou-se bem e acordou mal. A partir desse dia nunca mais foi o mesmo e foi obrigado a abandonar o que com tanto gosto fazia”, relembra Maria Cristina de Jesus, que tem uma filha e dois netos. Depois de estar internado, regressou a casa. De dia para dia, foi perdendo o equilíbrio. A taxista acredita que o marido tinha um tumor maligno na cabeça. 
Morreu em março de 1992. Só no fim desse ano é que a mulher se encheu de coragem e decidiu pôr as mãos ao volante, uma vez que meter um empregado não era solução. “Naquela ocasião, havia filas de pessoas junto à Praça de Táxis. Se fosse agora, não valia a pena ter assumido este trabalho”, relembra. 
Ainda assim, e apesar das dificuldades vividas na profissão, Maria Cristina de Jesus não desiste. O trabalho começa ao fim da manhã – a não ser que tenha serviços agendados – e, por vezes, prolonga-se até perto das 23 horas, horário dos últimos autocarros a chegar à Rodoviária de Alcobaça. O valor mínimo de cobrança são 3,25 euros. Conhece a região como a palma da sua mão. Distâncias longas, já não as quer, nem as faz. “Já não tenho idade para grandes aventuras”, afirma. 
Aventura viveu há cerca de dois anos. Levou um susto de morte quando lhe roubaram o carro, durante um serviço que tinha como destino Leiria. Desconfiada, na zona da Lameira, Maria Cristina de Jesus refere que tinha uma senhora à sua espera num hipermercado da cidade. A mudança de planos não agradou ao cliente que de imediato a agarrou e disse: “É um assalto”. Apesar da resistência, o homem conseguiu puxar a taxista para fora do carro e seguiu viagem. O resultado foram 12 pontos numa perna e várias nódoas negras, além de uma noite que se prolongou até às primeiras horas da manhã. 
Foi na Serra dos Mangues, em São Martinho do Porto, que o homem foi intercetado pela polícia e a viatura recuperada. “Os elementos da GNR de Alcobaça estiveram sempre perto de mim e nunca me abandonaram”, elogia a septuagenária o comportamento dos militares. 
Um grande susto, entre outros de menor importância pelos quais passou nas últimas duas décadas de volante na mão. 
Na Praça de Taxes, entre colegas, também já houve melhores dias. A falta de clientes é uma das razões para alguns dos desentendimentos. “Prefiro estar no meu canto e não me meter em confusões”, garante. O facto de ser a única mulher, nunca lhe trouxe qualquer problema. “Desde que me respeitem, também os respeito”, assegura a condutora da viatura número 10. 

“Não gosto do que faço. Quando iniciei a profissão de taxista foi por obrigação e por um motivo muito triste, a morte do meu marido. Se fosse por vocação, andava feliz e encantada com o meu trabalho. Faço-o porque não quis abandonar o sustento da família e porque não era solução meter um empregado”, diz Maria Cristina de Sousa Barrela de Jesus

Antes de meter as mãos ao volante, Maria Cristina de Jesus trabalhava em casa. “Foram os melhores anos da minha vida, apesar da pouca abundância”, recorda, emocionada. Depois de ser doméstica, passou a taxista, mas assume que não gosta da profissão: “Foi por obrigação e por um motivo muito triste. Se fosse por vocação, andava feliz”. 
Nas Praças de Táxis, seja na Rua Alexandre Herculano ou em frente à Câmara de Alcobaça, passam-se horas em que nada se faz à espera pelo próximo cliente. “Antes a venda do lugar na Praça ainda valia alguma coisa, agora ninguém quer isto. Está uma desgraça”, explica a viúva, revelando que as revisões à viatura são “sempre caríssimas”. 
Quanto ao futuro, prefere não fazer previsões, mas tem consciência, face à sua idade, que mais tarde ou mais cedo vai ter que encostar a viatura e dedicar-se novamente às lides da casa. Enquanto tiver coragem vai entrar no carro e levar os clientes aos seus destinos.
Maria Cristina de Sousa Barrela de Jesus tem tantas histórias para contar, talvez tantas como os quilómetros que já percorreu com os seus táxis. Uma vida que se faz, diariamente, ao volante.

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