Quarta-feira, Julho 6, 2022
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Uma história de amor sem distância e preconceito

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Bastou ouvi-lo cantar e sorrir para perceber que estava a “conhecer” o homem da sua vida. Nesse momento, João Paulo Ferreira, embora o sentisse, não esperava que os milhares de quilómetros de distância que o separavam da sua felicidade estavam a escassos anos de ser possível abraçar, viver e de simplesmente amar e partilhar.

Bastou ouvi-lo cantar e sorrir para perceber que estava a “conhecer” o homem da sua vida. Nesse momento, João Paulo Ferreira, embora o sentisse, não esperava que os milhares de quilómetros de distância que o separavam da sua felicidade estavam a escassos anos de ser possível abraçar, viver e de simplesmente amar e partilhar.
Será pecado um homem amar um homem? Uma mulher amar outra mulher? Será proibido querer ser feliz?  Será uma doença ser homossexual? Ou uma opção? Onde estão as leis que impedem amar ou ser feliz? E onde estão os estudos que provam que é uma doença ou opção? As respostas são dadas nas próximas linhas desta história…
Em 2007, o brasileiro João Paulo Ferreira iniciou os estudos de canto. Um simples clique numa página de Internet trouxe-o até Portugal. No monitor do seu computador, Luís Peças “encantava a cantar”. Sorriu e disse: “É o homem da minha vida”.
Passaram 7 anos. Um dia, o homem da sua vida, de uma pequena cidade portuguesa chamada Alcobaça, pedia-lhe amizade. Era Luís Peças. O homem que haveria de pedir-lhe casamento e trazê-lo para Portugal. “A minha alma está traçada a viver este amor. É só uma questão de tempo. Senti, naquele momento, que íamos ficar juntos”, pensou e, talvez, tenha gritado ao mundo João Paulo Ferreira.
Durante meses conversaram. Partilharam sonhos. O amor cresceu e a distância, que era apenas geográfica, tornou-se a única barreira. E mesmo essa foi demolida pela música. Outra das razões que os unia. Em outubro do ano passado, um concerto de solidariedade na Confraria de Nossa Senhora da Nazaré juntou-os, fisicamente, pela primeira vez. Dúvidas, não haviam.
João Paulo Ferreira tinha de partir. Toda a sua vida estava do outro lado do Atlântico. O coração ficou em Alcobaça, entregue ao homem por quem se tinha apaixonado pela Internet.
Por cá, sentindo-se deprimido ficou Luís Peças, o contratenor alcobacense: “a separação foi dura. Muito dura”.
A Internet, o telefone não eram suficientes. João Paulo Ferreira não hesitou. “Deixei a minha vida inteira, família, amigos, trabalho, e vim para cá”.
Casaram-se no passado dia 7 de março. Uma cerimónia íntima no jardim da casa de Luís Peças unia este amor que não contabilizou quilómetros ou preconceitos.
Os olhares muitas vezes discretos na rua não os incomodam, nem os impedem de fazer uma “vida absolutamente normal”. Luís Peças confidencia que sempre aceitou a sua homossexualidade com naturalidade, embora, quando mais novo, as “chamadas de atenção do pai, perante imagens televisivas”, o bloqueassem. 
O contratenor, de 45 anos, ainda se sentiu atraído por raparigas, durante os tempos de estudante. Mas tudo não passavam de ideias que tinha padronizadas. “Se pensam que gostava de ser mulher estão muito enganados. Gosto de ser homem e gosto de homens. Com o João acontece exatamente a mesma coisa”, desabafa. 
“Difícil será ser transgénero, viver num corpo com o qual não nos identificamos”, opina João Paulo Ferreira, acrescentando que “ser homossexual é tão normal como ser heterossexual”. Também ele teve um namorico com uma “menininha”, mas foi aos 10 anos ao beijar um seu primeiro “namoradinho” que se apercebeu que gostava de pessoas do mesmo sexo. “Não senti necessidade de esconder nada e incentivei também os meus irmãos, que são homossexuais, a assumirem-se. A minha mãe, que é evangélica, aceitou e disse que me amava ainda mais”, partilha o brasileiro, com 28 anos. 
Será pecado um homem amar um homem? Ou uma mulher amar uma mulher? “Jesus alguma vez disse isso? Não será que o pecado existe na cabeça de cada um de nós? Queremos apenas ser felizes…”, salienta João Paulo Ferreira. 
O casal encontra-se na vida e na música. Juntos dão alma ao projeto ‘EnCanto’ que começa a percorrer o mundo. Para breve, está a apresentação de um álbum discográfico. Já há datas para atuações em Inglaterra e no Brasil, depois de terem estado por terras francesas. 
Além da carreira musical, Luís Peças e João Paulo Ferreira querem adotar uma criança. “Esse direito tem de ser assumido por lei, tal como foi o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Porque razão não podemos dar uma vida feliz a uma criança que muitas vezes foi abandonada por um casal “dito” normal?”, questiona-se o jovem contratenor. 
Nos tempos livres, João Paulo Ferreira gosta de pintar. No seu ateliê vai juntando quadros, que no final do ano espera expor em Alcobaça. A cidade que apelida de “tranquila”. 
Neste momento, vivem o amor que os une. Sempre que possível passeiam, conhecendo as belezas de Portugal e intensificando a paixão que nasceu na Internet. 
Amar não tem limites. O amor genuíno quebra barreiras e tabus. Foi esse amor, entre João Paulo Ferreira e Luís Peças, tão intenso que tornou tão fácil escrever as linhas desta história… 

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