Quarta-feira, Julho 6, 2022
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Os últimos rostos do Asilo de Mendicidade de Lisboa em Alcobaça

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Foi o choro. O choro de uma funcionária que marcou a passagem de Fernando Gaspar pelo Asilo de Mendicidade de Lisboa em Alcobaça, que durante várias décadas ocupou o Claustro do Rachadouro do Mosteiro de Santa Maria. Quando encerrou, uns seguiram para a Misericórdia, outros para o Lar Residencial de Évora e outros espalharam-se pelo País. O REGIÃO DE CISTER foi conversar com os últimos de terras de Cister. 

Foi o choro. O choro de uma funcionária que marcou a passagem de Fernando Gaspar pelo Asilo de Mendicidade de Lisboa em Alcobaça, que durante várias décadas ocupou o Claustro do Rachadouro do Mosteiro de Santa Maria. Quando encerrou, uns seguiram para a Misericórdia, outros para o Lar Residencial de Évora e outros espalharam-se pelo País. O REGIÃO DE CISTER foi conversar com os últimos de terras de Cister. 

Fernando tinha apenas 26 anos quando entrou num dos “maiores corredores” da sua vida. Não entrou pelas suas próprias pernas. Um acidente de trabalho, na área da construção, deixou-o paraplégico, depois de regressar da Guiné de onde guarda as piores recordações. Foi por isto que a funcionária chorou. E talvez porque ao contrário de muitos que habitavam o Mosteiro, Fernando não apresentava qualquer demência. Era um jovem. “Vi-me rodeado de maluquinhos, mas não desisti de viver. Agarrei-me ao que sabia fazer com as mãos”, conta ao REGIÃO DE CISTER o homem que hoje tem 70 anos, natural de Castelo Branco, e continua a fazer tapetes e malas em corda. A região percorria-a de lés-a-lés na sua Zundapp de três rodas.

Passados poucos dias da entrada no Asilo, a mãe de Fernando Gaspar quis levar o filho para casa. Respondeu negativamente ao pedido da mãe, “não queria dar-lhe trabalho”. Fernando é um dos cinco antigos habitantes do Asilo a viver no Lar Residencial de Évora de Alcobaça.

A seu lado, ainda que os vícios sejam outros – o cigarrito e o copinho de vinho -, está José António Santos que sorri sempre que se fala no irmão que continua a visitá-lo: “Leva-me sempre a almoçar à Nazaré”. 

José António dos Santos, de Santarém, veio para o Asilo de Mendicidade de Lisboa em Alcobaça com 30 anos, depois de o pai falecer. As condições económicas em que vivia ditaram este fim. Completou o 4.º ano e fez tropa. Sobre os anos que viveu no Mosteiro não guarda boas recordações. “Não gostava de lá estar. Aqui é tudo muito melhor. Só gostava do lanchinho que me davam à noite antes de adormecer”, conta José, de 66 anos. 

Ainda durante a sua estadia em Alcobaça, fugiu. Esteve desaparecido durante vários dias. Apareceu em Cascais na casa de uma mulher. Consigo trazia sempre uma viola. Imagem de marca.

Na Santa Casa da Misericórdia de Alcobaça a história, ainda que com alguns paralelismos, é outra. Aqui encontram-se quatro. Outros já partiram.

O senhor Vasco como ainda é conhecido na cidade era o homem dos recados. Continuou a sê-lo na Misericórdia até ao dia em que foi atropelado e ganhou medo.

Vasco Raul Vieira tem 80 anos e é natural de Lisboa. Com apenas 20 anos, depois de passar pelo Júlio de Matos, chega ao Asilo de Mendicidade. Não estudou, não fez tropa. Foi dado como inapto.

Lembra-se de serem 1.600 no Claustro do Rachadouro e de dividir uma das camaratas com mais nove. A si, além dos recados, era-lhe confiado o trabalho de refeitório. “Enchia os tabuleiros e depois levava tudo num carrinho. Éramos muitos. Aquelas mesas nunca acabavam”, diz o senhor Vasco, como é conhecido, num sorriso maroto que lhe é tão característico.

Já Toninho (António Luís Monteiro), do Bombarral e em vésperas de comemorar o seu 64º aniversário, ficou sozinho depois da mãe morrer. Foi um vizinho que lhe deu a mão e guarita. Quis o destino que o Asilo de Mendicidade fosse a sua casa durante décadas. “Andavam bichos nos tetos e nas paredes. Gostava de trabalhar no jardim”, recorda Toninho, que passava parte do seu tempo no Jardim do Obelisco.

Através das palavras de Fernando, José António, Vasco e Toninho entrámos no Asilo de Mendicidade de Lisboa. Com eles imaginou-se o dia a dia de uma instituição que não albergava apenas pessoas com demência, mas principalmente homens que se apaixonaram por terras de Cister. E ficaram por cá, conhecendo no seio de instituições uma família que sempre lhe deu a mão.

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