Terça-feira, Janeiro 31, 2023
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Missão Tejo 7829: porque a família nunca se deixa para trás

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O cumprimento de uma promessa define o carácter das pessoas e, por isso, Sílvio Maltez só respirou de alívio quando, no passado dia 25 de outubro, assistiu à união definitiva dos corpos dos avós maternos no cemitério da Pederneira. 

O cumprimento de uma promessa define o carácter das pessoas e, por isso, Sílvio Maltez só respirou de alívio quando, no passado dia 25 de outubro, assistiu à união definitiva dos corpos dos avós maternos no cemitério da Pederneira. 

Para trás ficaram anos de angústia, pesquisa, frustações e pequenas vitórias, que lhe permitiram identificar a campa do avô João Júnior, conhecido na Nazaré por João Picha, falecido em 1961 em Porto Alexandre. O desígnio da avó Judite Gandaio Vidinha ficara, por fim, cumprido: trazer os restos mortais do antigo pescador de Angola para a Nazaré e uni-los na mesma campa. Porque a família nunca se deixa para trás.

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Fazer o avô regressar a casa era um “desejo transmitido de geração em geração”. “Cresci com essa necessidade. Era um desejo da minha avó, que o transpôs para a minha mãe e filhos”, explica o professor, que foi capaz, por fim, de cumprir a vontade da avó. Os restos mortais de João Júnior foram sepultados na Pederneira precisamente 55 anos depois do funeral que lhe foi feito em Porto Alexandre, uma localidade piscatória no sul de Angola, parecida com a Nazaré, e que hoje em dia é conhecida por Tômbwa. Mas o que Sílvio andou para aqui chegar…

A investigação durou toda uma vida. “Recordo-me que o primeiro documento que encontrei foi a certidão de óbito do meu avô. Encontrei-a rasgada no caixote do lixo. Colei os papelinhos e ainda hoje a guardo. Foi esse o ponto de partida”, relembra o nazareno, de 41 anos, que pouco sabia do avô antes de começar a fazer pesquisa por todos os meios possíveis.

O professor só lamenta ter feito a vontade a Judite Gandaio Vidinha depois do falecimento dela: “O desejo da minha avó era trazer as ossadas dele para a Nazaré. Os anos foram passando e os familiares tinham o sentimento de que ficou algo por fazer. Nos meus tempos livres fui procurando informação, partindo apenas de que sabia que o meu avô estava sepultado em Porto Alexandre. Mais nada”. A pesquisa permitiu-lhe saber muitos pormenores sobre a estadia de João Júnior em Angola. Nomeadamente que já tinha decidido regressar a casa. “Do meu avô sabia apenas que tinha sido pescador do bacalhau e que fora para Porto Alexandre, porque os irmãos já lá estavam e talvez a vida em Angola não fosse tão dura. Ele foi experimentar e deixou cá a mulher e a filha. Esteve lá 21 meses. Já tinha bilhete comprado para voltar, mas a um mês do regresso teve um acidente na traineira. Foi encontrado onze dias depois do desaparecimento, a boiar na baía e com um ferimento na cabeça. Como o corpo já estava em decomposição foi sepultado lá”, relembra o neto, que recorreu às novas tecnologias para entrar em contacto com pessoas que tinham vivido em Angola ou que vivessem para, através de fotos antigas e atuais, ajudassem a localizar o local exato da sepultura. 

“O Cemitério Municipal de Tômbwa está no deserto, mas fui tirando dados através do Google Maps, encontrei fotografias em blogs, sempre na esperança de aparecer a campa em alguma fotografia. Um familiar tinha uma fotografia da campa e foi esse o meu ponto de partida. Hoje em dia, o cemitério está destruído, mas tive sorte com um contacto que fiz num blog”, revela Sílvio Maltez, explicando o sucedido.

“Deparei-me com uma pessoa num blog, chamado Pedro Carreno, que me disse que não lhe custava nada ir ao cemitério. Em agosto ele foi lá, desenterrou parte da lápide e confirmou que era o meu avô. Só lhe tinha pedido as fotografias, mas ele fez mais do que isso”, diz, agradecido, o neto que assim foi capaz de terminar a Missão Tejo 7829. E porquê o nome? “Tejo era o cão de um familiar do meu avô em Porto Alexandre e que lhe foi fiel até à morte… E os números porque eram os números do passagem de navio que o meu avô já tinha comprado para voltar a Portugal”. Nesse caso, missão cumprida!

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