Quinta-feira, Outubro 6, 2022
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Sónia Tavares em entrevista

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O REGIÃO DE CISTER entrevistou a “voz” dos The Gift para falar sobre o sétimo álbum da banda alcobacense. Sónia Tavares fala on the record sobre o que considera ser uma “reinvenção” da banda pela mão do produtor britânico Brian Eno.

Antes da apresentação de “Altar” ao mundo, o REGIÃO DE CISTER entrevistou a “voz” dos The Gift para falar sobre o sétimo álbum da banda alcobacense. Sónia Tavares fala on the record sobre o que considera ser uma “reinvenção” da banda pela mão do produtor britânico Brian Eno.

REGIÃO DE CISTER (RC) > “Altar” é o topo da carreira dos The Gift ou é mais uma fase?
SÓNIA TAVARES (ST) > Normalmente qualquer disco que lançamos é o topo da nossa carreira, a ideia é nunca fazer pior que o anterior. Claro que agora temos a fasquia mais elevada com o Brian Eno, que nos acompanhou nesta odisseia que foi fazer este disco. Para nós fica a experiência única. Se há 20 anos dissessem que íamos trabalhar com o Brian Eno nunca acreditaríamos. Claro que este é o expoente máximo da nossa carreira, não sei se esta experiência se vai voltar a repetir. Foi muito intenso, dois anos de gravação e sessões feitas entre Espanha, Portugal e Inglaterra. 

RC > Porquê tanto tempo?
ST >  Nós nunca sabemos quanto tempo é que as coisas vão durar. Às vezes uma canção pode demorar um mês ou um dia a escrever e depois pode demorar um ano a gravar. Ou porque ainda não é o caminho que queremos, ou porque não estamos totalmente contentes e vamos reescrevendo. E uma vez que o Brian também tinha uma agenda muita apertada, não podia estar connosco durante longos períodos de tempo, decidimos fazer isto em vários períodos de quinze dias, e por isso durou o tempo que foi preciso até estar concluído.

RC > Quais são as expectativas para o álbum?
ST >  O álbum está pensado para uma escala global e era uma pena que assim não fosse. Consideramos que é um disco tão bom, tão bem feito e produzido e com tanto carinho que era uma pequena que não fosse conhecido pelas pessoas de todo o mundo. Não há músicas em português, nem fazia sentido. Num álbum tão perfecionista não penso que coubesse uma música portuguesa à moda dos The Gift e já que tínhamos o Brian Eno aproveitámos para fazer coisas diferentes porque um “Clássico” sabemos nós fazer sozinhos…

RC > Que sonoridade é que podemos esperar do novo álbum?
ST >  Os The Gift têm aquela marca e agora ainda ficou mais apurada com o Brian Eno. Chegámos a ouvir canções que dão a sensação de que as podíamos ter feito no início da nossa carreira. Encontramos semelhanças na simplicidade. O Brian percebeu muito bem a nossa essência, limou as arestas e tirou o melhor que são os The Gift. Foi assim que as coisas foram fluindo.

RC > Qual a razão do nome “Altar”?
ST >  Altar é como um… Nem sei bem por que é que escolhemos altar. Queríamos que fosse uma forma de imaginar a palavra celebração, mas consoante os critérios da imaginação de cada um. Num altar celebram-se imensas coisas, não têm de ser estritamente ligadas à religião. No fundo, é onde se celebram coisas. E, neste caso em particular, queremos celebrar a música.

RC > Que feedback é que têm tido do pouco que ainda foi desvendado do disco?
ST >  Temos estado a ser muito bem recebidos pelo público com estas três canções [“Love Without Violins”, “Clinic Hope” e “Big Fish”] que já lançámos. Tivemos uma excelente crítica na revista Uncut, com uma nota de 8 em 10, o que, podemos dizê-lo, é um feito, sobretudo para uma banda portuguesa. Já o jornal Público disse bastante mal de nós. Mas, lá está, esses não nos interessam nada. Sempre construímos carreira à parte da imprensa portuguesa. Enquanto ainda houver público e vontade que os The Gift continuem numa carreira nós vamos continuar, porque também temos vontade. E não vendemos mais ou menos discos por causa do que a imprensa portuguesa diz. Vendemos muito mais discos com aquilo que a imprensa estrangeira diz.

“Faz todo o sentido começar a digressão do álbum em Alcobaça”

RC > Os alcobacenses estão com os The Gift, e prova disso é o concerto duplo que já está esgotado. Começar a digressão de apresentação do álbum em “casa” é uma forma de retribuição?
ST > É uma forma simbólica. Também a nível de logística nos dá jeito começar aqui a digressão. Mas claro, faz todo o sentido começar aqui em casa, é daqui que tudo parte. Alcobaça faz parte dos nossos planos. Normalmente é simbólico, ou seria o encerro da digressão ou, como neste caso, o início.

RC > Como é que conheceram o Brian Eno?
ST >  Curiosamente foi o Nuno [Gonçalves] que o conheceu no Brasil. Estavam os dois a propósito de um convite para trabalhar num projeto que se chamava Afro Lata, que criou instituições nas favelas para mostrar outros caminhos aos mais novos que não o da criminalidade. E estavam lá os dois integrados e conheceram-se, ficaram amigos e foi uma feliz coincidência.

RC > Como foi trabalhar com o Brian Eno?
ST >  Foi reaprender coisas, foi perceber que podemos sempre fazer as coisas de forma diferente, uma nova visão, uma nova forma de olhar para as letras e para as canções. Conhecemos muita música que estava completamente fora do nosso percurso que o Brian nos mostrou. Portanto, é trabalhar com uma das pessoas mais interessantes do mundo.

RC > Por causa disso sentiram alguma responsabilidade adicional?
ST >  Responsabilidade é mais dele, do que nossa, nós não tínhamos nada a perder, fosse bom ou fosse maus. Nós é que se fossemos realmente muito maus, quem tinha a perder era o Brian Eno. Mas isso não aconteceu. Mais que uma responsabilidade, foi um prazer, uma experiência única.

RC > Brian Eno esteve em Alcobaça durante alguns dias. O que é que lhe mostraram da cidade?
ST >  O Mosteiro e ele ficou fascinado, chegava a dizer que conseguia perceber o porquê de as nossas canções terem tanta pompa e eram uma odisseia forte. Claro, que uma pessoa olhando para o Mosteiro todos os dias tem logo uma perspetiva de pensar em grande. Impossível pensar pequeno. 

RC > Deram-lhe a provar os nossos doces?
ST >  Sim, ainda por cima ele não diz não a nada e comeu bem, experimentou de tudo e gostou. O Brian [Eno] ficou fã da cidade.

RC > Sentem-se os embaixadores de Alcobaça?
ST >  Não, não me sinto embaixadora de coisa nenhuma. Claro que levamos o nome de Alcobaça a todo o lado onde vamos e se é isso que significa ser embaixador, então posso dizer que somos uma espécie de embaixadores da cidade. É um grande orgulho poder dizer que somos de uma cidade tão simbólica, onde passamos uma adolescência felicíssima, e provavelmente isso reflete-se no que somos hoje. Obviamente que Alcobaça faz sempre parte dos nossos planos. Foi aqui que tudo começou, primeiro num sótão e depois num bar, mas foi daqui que saímos.

RC > Quando atuam no estrangeiro fazem questão de fazer referência que são de Alcobaça?
ST >  Não, nem por isso. Nós dizemos que somos de Portugal. Dizer que somos de Alcobaça já seria informação a mais. Saber onde é Portugal já é bom. O verdadeiro embaixador de Portugal é graças a Deus o Cristiano Ronaldo.

RC > Vocês passam tanto tempo juntos, tanto em Portugal como lá foram. Chegam a fartar-se uns dos outros?
ST >  Nós estamos sempre a trabalhar, já estamos juntos há tanto tempo que já não há surpresas, também temos sempre de dar a volta por cima dos obstáculos… Pareço um jogador de futebol a falar. Como temos sempre um objetivo comum e a nossa vontade é que as coisas corram bem, havemos sempre de contornar caminho para lá chegar, de uma forma ou de outra. Já somos uma família, não é uma questão de nos aturarmos ou não, não é propriamente uma namorada, já é uma coisa mais comprometida.

RC > O que é que aí vem para os The Gift?
ST >  Então, agora vem aí a tour de auditórios até ao final de maio, em junho temos imensos concertos já por espaços abertos e vamos estar no Brasil e na América. Estamos com o verão já muito completo e só depois é que paramos um bocado, já depois de ir a Londres fazer a promoção internacional do álbum.

 

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