Domingo, Junho 14, 2026
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As nossas “presidentas”

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Rendem 24 horas diárias para ser mãe, mulher, gerir uma profissão e liderar uma Junta de Freguesia? Maria de Lurdes Pedro, Isabel Fonseca e Filipa Gomes provam que sim.

Rendem 24 horas diárias para ser mãe, mulher, gerir uma profissão e liderar uma Junta de Freguesia? Maria de Lurdes Pedro, Isabel Fonseca e Filipa Gomes provam que sim.

Em 15 freguesias do concelho de Alcobaça e da Nazaré, há apenas três que são lideradas por mulheres. Isabel Fonseca (União das Freguesias de Alcobaça e Vestiaria), Maria de Lurdes Pedro (Benedita) e Filipa Gomes (Bárrio) são as únicas “presidentas” de Junta dos concelhos de Alcobaça e da Nazaré. Sinal de que a política continua a ter gravatas a mais na sua composição. E se recuarmos no tempo o cenário é ainda pior: ao longo de 45 anos de regime democrático, menos de uma dezena de mulheres foram eleitas para liderar uma Junta na região de Cister. O que impede, afinal, as mulheres de participar de forma mais ativa na política?

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“A política é machista ao assumir que a sobrecarga tira tempo às mulheres para as causas públicas”, afirma, peremptória, Isabel Fonseca. Ver a mãe assumir um papel ativo na política, numa altura em que ainda era das únicas que o fazia, inspirou a socialista a avançar com a candidatura para presidente de Junta. O que não quer dizer que tivesse uma noção exata do que era ser mulher num mundo de homens. “Há tendência para nos colocarem à prova e cabe-nos também desmistificar isso”, reitera. “Posso não saber a diferença entre um tuvenan e a brita, e então? Sou uma pior presidente por causa disso?”, questiona a autarca. Gerir os seus “heterónimos” profissionais é o mais complicado – Isabel é contabilista e não deixou de o ser enquanto presidente de Junta da UFAV –, mas o segredo diz estar no “ligar e desligar vários botões”.

O mesmo acontece com Maria de Lurdes Pedro. Igualmente contabilista, entrou na política “tarde”, numa altura em que “até dava jeito ter mulheres nas listas”. Para a presidente da Junta da Benedita eleita pelo PSD, “é exigido um papel à mulher em casa e no trabalho que não é exigido ao homem”, razão que explica o facto de a mulher entrar na política mais tarde, na maior parte das vezes com filhos crescidos”. Não foi o caso de Filipa Gomes. Quando foi eleita presidente da Junta já tinha um filho pequeno e acabou por engravidar do segundo rebento em funções. “Sorte que tenho um Centro Social e Paroquial do Bárrio para me apoiar diariamente”, brinca a advogada. Lamentando que “poucos são os que votam num candidato com 30 anos e muito menos no caso de ser mulher”, a presidente da Junta do Bárrio, eleita como independente, não esconde a “ginástica brutal” no seu dia a dia para cumprir todos os papéis, notando que a lei “afasta as mulheres da política”, tendo em conta as elevadas exigências e as poucas recompensas. Também Maria de Lurdes sente que “a lei prevê que as pessoas estejam desocupadas para ocupar este cargo”. Logo, para a mulher, “será sempre mais difícil avançar para a política, sabendo que não pode à partida largar o seu emprego, com toda a rotina familiar e pessoal subjacente”, acrescenta Isabel.

E se Maria de Lurdes Pedro, 53 anos, e Isabel Fonseca, 51 anos, não foram as primeiras “presidentas” das respetivas Juntas que lideram, Filipa Gomes, 38 anos, foi. “Inicialmente houve uma certa desconfiança mas o principal choque para a população foram as mudanças de comportamento, uma vez que não tinha a mesma disponibilidade que o anterior presidente de Junta”, conta. Também Isabel Fonseca teve necessidade de “reeducar” os fregueses no mesmo sentido, tendo em conta a sua vida profissional e pessoal. Maria de Lurdes Pedro é a única das três que exerce a função a tempo inteiro, mas organiza-se para ir ao seu escritório de contabilidade de manhã e à noite. 

Sem necessitarem de salto alto e de maquilhagem, é-lhes suficiente que seja garantido apenas o direito de eleger e de ser eleitas. Tal como aos homens.

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