Quinta-feira, Dezembro 1, 2022
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Maria dos Anjos foi a primeira mulher PSP do distrito de Leiria

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No início dos anos 1970, Portugal era um País muito diferente daquele que conhecemos hoje. Sobretudo para as mulheres. Antes do 25 de Abril, enquanto “lá fora” as mulheres usavam calças à boca-de-sino, mini saias e vestidos justos, por cá quem usava calças era praticamente só os homens e as mini saias e decotes eram censurados. Os “looks” das portuguesas antes da Revolução eram os vestidos cintados e abaixo do joelho, os saltos muito baixos, a gola alta, tudo trajes muito discretos. Neste contexto, haver mulheres na Polícia de Segurança Pública (PSP) era quase uma miragem e as poucas que estavam ligadas à força de segurança estavam lá para funções de limpeza.

Foi neste cenário que, em 1972, a pataiense Maria dos Anjos concorreu ao primeiro concurso público para mulheres polícia, uma candidatura para a qual avançou impulsionada pelo marido, António Duarte Castanheiro (na fotografia), hoje com 85 anos, que era agente e se desdobrava em deslocações pelo País, “desunindo” a família, que já contava com a filha de ambos.

Maria dos Anjos tinha 34 anos e o limite para concorrer à PSP eram os 35 anos. “Candidatei-me para termos a família reunida e para mais tarde ter uma reforma”, confessa a polícia aposentada, de 82 anos, que se tornou, assim, numa das primeiras mulheres PSP do País e a primeira do distrito de Leiria. 

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A ideia era juntar-se ao marido em Lisboa, o que viria a acontecer depois de oito semanas de preparação em Coimbra, numa época em que, no continente, só havia PSP naquela cidade do centro do País, na capital e no Porto. “Quanto à minha aceitação em Lisboa, ao início sei que muitos não gostaram apesar de não se manifestarem e naquele tempo sentia-me muito sozinha, não conhecia ninguém”, recorda.
Inicialmente colocaram-na como tarefeira, tendo passado a chefiar, meses depois, a equipa de limpeza. “Andei dois anos por ali a ‘nadar’”, lembra também a antiga regente escolar na Burinhosa, cargo que ocupou até se alistar na PSP.

Em 1974 chegou a Revolução. “O 25 de Abril foi bom para as mulheres da polícia, reformaram-se os serviços”, lembra Maria dos Anjos, que tinha frequentado um curso de datilografia e foi para essa área, tendo passado depois pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. “Fui muito respeitada”, garante a octogenária, que sempre gostou mais de trabalhar com homens do que com mulheres.

A história de Maria dos Anjos na PSP durou 23 anos. Depois de se reformar, graças ao tempo que acumulou também na escola antes da força policial, quis regressar à terra e, apesar de ter terreno em Pataias-Gare, preferiu construir casa em Pataias, que tinha sido elevada à categoria de vila no ano anterior, já a filha frequentava a Universidade Católica em Lisboa.

Hoje, a antiga PSP gosta de passear a pé com o marido e das viagens que vai fazendo, de vez em quando, dentro do País. O que não lhe agrada é o facto de atualmente haver “menos respeito pelas autoridades” e “menos apoios” para os agentes da PSP e militares da GNR. “A minha reforma é mais elevada do que o ordenado de um  agente no ativo”, resume Maria dos Anjos. 

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