Quinta-feira, Outubro 29, 2026
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Saber Viver

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Quando vim morar para Alcobaça, disse a toda a gente! Em particular, a pessoas daqui, ou daqui perto. Sim, porque quando me mudei, julgava mesmo que as outras localidades giravam à volta de Alcobaça. Que o Mosteiro era o mítico eixo do mundo. Não era.

Comecei a escrever no Jornal de Leiria. O seu diretor, numa das várias conversas que tivemos, perante o meu entusiasmo, disse-me: “Estás mesmo apaixonado por isto. Mas isso passa-te.” Na altura fiquei “naquela”: lá estão as pessoas a apoucar as nossas grandes decisões. A acender as luzes. A matar o romance, que se vive mais intensamente quando não se sabe tudo.

Na semana que passou, chegou a altura dessa revelação. Não que eu não tivesse já reparado que Alcobaça não é uma cidade perfeita. Come-se bem. Estaciona-se mal. Tem um Mosteiro lindo, mas a praça em frente parece um deserto que o separa do seu Rossio. Há muitos músicos, como eu. Mas, há poucos concertos. E assim, sucessivamente. Acima de tudo, é uma cidade sem força para reivindicar mudança. A inquietude é pouca: típica de uma cidade que é conhecida acima de tudo pelo seu passado e que vai desenhando o futuro muito devagar que é para não dar trambolhões.

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Não é uma terra de paixão. Isso é só um slogan que se pagou a alguém de fora para escrever. Não faz mal. Apaixonei-me por ela à mesma. Pretendo cá viver o resto dos meus dias, de preferência no campo que é já ali. Só toquei uma vez na cidade de Alcobaça. Foi uma noite de Setembro bem diferente da actualidade, com ou sem COVID-19. Por cada pessoa que desfrutava o momento, havia duas a chorar o passado, a temer a Segunda-Feira seguinte, porque não se ia passar nada.

Para mim as melhores coisas não se explicam, nem se lamentam. Certo: já passou o encanto original, mas ficaram outras coisas. Temos de saber viver com todas essas coisas e com o que mais virá. Enterrar o sobressalto de querer fazer alguma coisa. Deixar andar porque foi para isso se fez a estrada.

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