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O sorriso espelhado no rosto dos idosos beneficiários do projeto “Velhos Amigos”, que andou pelas ruas do Vimeiro e do Gaio, no passado sábado, dia 19 de setembro, não deixa ninguém indiferente. A lágrima que, às vezes, parece querer espreitar. O arrepio do “finalmente”. Finalmente alguém que vai, alguém que sente preocupação, carinho. Alguém que lhes sorri e os abraça. Que os vê.
Mas em que consiste, afinal, este projeto? O “Velhos Amigos” é uma iniciativa de voluntariado profissional criada para apoiar idosos em situação de isolamento social e carência económica, fazendo chegar refeições quentes a idosos, ao fim de semana. Foi a partir da pandemia de covid-19, que adensou o isolamento social, que o projeto da Atlas – People Like Us, uma Organização Não Governamental, ganhou contornos em Alcobaça. Na época, com apenas dois beneficiários e oito voluntários, o projeto começou a dar os primeiros passos, ainda a conhecer as necessidades do território e a identificar casos. Atualmente, com seis beneficiários e 27 voluntários, o funcionamento é mais sólido e expressivo.
Além do “Velhos Amigos”, a iniciativa conta também com o projeto “Amigos em Casa”, que pretende “melhorar as condições de habitabilidade dos beneficiários apoiados, através de ações como limpeza habitacional, fornecimento de mobiliário, eletrodomésticos e pequenas obras de reconstrução”. E, apesar de, ao nível da saúde, ainda não haver um serviço estruturado de ajuda, sempre que um beneficiário necessita de auxílio na marcação de consultas ou no levantamento de medicação, os voluntários predispõem-se a ajudar.

No sábado, o REGIÃO DE CISTER foi viver, em primeira mão, um dia com dois dos voluntários da Atlas, Lucas Vicente e Clara Silva. O processo é sempre o mesmo: logo de manhã, um dos voluntários dirige-se até aos restaurantes parceiros, que doam refeições, confecionadas com amor. Depois de se encontrar com o outro voluntário, o destino e a missão são simples: rumar à casa dos idosos e dar-lhes a refeição e alguma companhia.
E quando os voluntários chegam, os idosos já estão à espera da visita. Talvez por ser das poucas que recebem. A televisão é, para todos, uma companhia. Um foi emigrante na Suíça, outra não vê a família há meses e outra perdeu o marido e os dois filhos. Todos eles têm algo em comum: passam a maior parte da vida sozinhos. E a vinda destes voluntários, que nas mãos trazem uma refeição para lhes dar, é, talvez, o momento alto da sua semana. Uns dizem que a visita da Atlas é “um alento”, outros definem-na como “abraço”. Mas o sentimento de gratidão é comum a todos eles.
Durante a viagem, Lucas Vicente, de Turquel, questionado sobre o porquê de ter decidido integrar este projeto, explica que tudo começou quando estagiou na Atlas. Admite que gostou muito da experiência, mas que o gosto soube a pouco. E, apesar de ter estado ausente durante algum tempo, quando voltou acabou por ficar, depois de ter sido convidado a coordenar as equipas em Alcobaça. “Nós já nos sentimos parte da família destes idosos”, admite.
Por sua vez, Clara Silva, da Benedita, conta que tinha a intenção de fazer voluntariado e acabou por ter conhecimento da Atlas e dos seus projetos. “Para mim, faz muito sentido, porque acho que, se todos dermos um pouco do nosso tempo a uma causa, faríamos a diferença na vida de alguém”, afirma, acrescentando que, se todos tivéssemos este pensamento, “o mundo seria melhor”. Ambos salientam que, para integrar o projeto, “são precisas apenas duas horas por mês”.
A identificação dos casos continua a ser um dos principais desafios. Em entrevista ao REGIÃO DE CISTER, Patrícia Ferreira, da Atlas, afirma que “ainda persiste algum estigma associado a pedir ajuda, o que torna a sinalização de situações de fragilidade um passo essencial para conseguirmos chegar a quem realmente precisa”. Aliás, sem essa sinalização, muitas destas pessoas permanecem invisíveis ao apoio, pelo que o número de casos poderá ser muito superior àquele que se consegue efetivamente identificar.
Nesse sentido, a Atlas apela à comunidade para que sinalize casos de vulnerabilidade e isolamento social. “Muitas vezes estas situações passam despercebidas, e a colaboração de vizinhos, familiares, comércio local ou outras entidades é fundamental para as identificar”, afirma, acrescentando que “após a sinalização, a nossa equipa técnica faz a devida avaliação e procede à integração da pessoa no projeto”.
Quanto ao futuro, a organização gostaria de ter um espaço físico em Alcobaça que lhe permitisse reunir voluntários. Deste modo, a partilha de experiências, ideias e dificuldades seria feita de forma mais ágil e breve. “Por outro lado, este espaço serviria também para armazenar material, como alimentos, bens de apoio ou materiais de atividades, e para desenvolver, no futuro, atividades e dinâmicas com os próprios beneficiários, promovendo momentos de convívio e participação ativa dos idosos na comunidade”, sublinha. A responsável apela ainda a toda a comunidade para que se associe à iniciativa, seja de que forma for: pode ser como voluntário, as empresas podem fazer donativos financeiros e os restaurantes podem entregar refeições.
“Velhos Amigos” é mais do que um projeto que faz chegar refeições quentes a casa de idosos esquecidos. É tornar o dia desses idosos um momento de luz, de conforto. É tornar um único dia no momento mais alto da semana. É ouvi-los, senti-los, deixá-los ser, sorrir, chorar. E um projeto de tamanha emoção só é possível graças ao trabalho persistente e humano dos voluntários. Voluntários que doam o seu tempo, para fazer a vida destes idosos um pouco [muito] melhor. E isso… não tem preço.



