O descanso do guerreiro

Foi um herói de guerra, recebeu louvores e condecorações, mas resistiu ao apelo de seguir a vida militar depois do Ultramar e optou, ao invés, pela tranquilidade do trabalho no comércio tradicional. Jorge Feliciano tem uma história de vida repleta, que o guiou de Caldas da Rainha, onde nasceu em 1943, para a Guiné, onde combateu como furriel miliciano entre 1966 e 1968, até Alcobaça, onde se estabeleceu e, aos 76 anos, vive um verdadeiro descanso do guerreiro.

Passa meio século desde que regressou da Guiné, mas a guerra “nunca se esquece”. O caldense tinha 23 anos quando integrou a 3.ª Companhia de Comandos, uma unidade de elite e “a primeira a ser formada na Metrópole”. Um curso tirado em Lamego, muito intenso, mas que permitiu fazer uma boa preparação para o cenário que viria a encontrar. “Felizmente, sabia ao que ia. Tive a sorte de tirar o curso de comandos e sabíamos perfeitamente o que íamos fazer. Foi uma preparação bastante importante, porque, infelizmente, a maior parte das tropas que iam para o Ultramar não tinham qualquer preparação. O curso de comandos foi exigente, mas fomos para lá conscientes do que iríamos enfrentar”, assume o furriel miliciano de infantaria, que esteve 20 meses ao serviço no Comando Territorial da Guiné e só recebeu o crachá de comando depois de participar em algumas operações de guerra.

De resto, a ação de Jorge da Conceição Feliciano no terreno tornou-se particularmente relevante em dois momentos. Na Operação Valquíria, conduziu a equipa numa emboscada nocturna. “Fomos emboscados, tivemos dois mortos, mas infligimos várias baixas ao inimigo e recuperámos armas. Saí ileso e ajudei os meus homens, mas sem planear o que viria a acontecer. Comecei a disparar a G3 e conseguimos afastar o inimigo. Foi o instinto de defesa que me fez atacar”, recorda o ex-militar, também decisivo na Operação Johnnie Walker, em que a equipa conseguiu libertar um aquartelamento da ameaça que se fazia sentir por aqueles dias.

Foram as “raras qualidades de chefia” evidenciadas pelo sargento no mato no norte da Guiné que levaram à atribuição da Medalha da Cruz de Guerra de 4.ª Classe. 

“Numa operação nocturna em que foi emboscado, numa zona de morte densamente batida pelo inimigo, nunca deixou de comandar a sua equipa contribuindo para o êxito final da reação à emboscada. Mostrou ainda o Furriel Feliciano um raro espírito de sacrifício quando do transporte dos mortos e feridos, tendo sido incansável na assistência aos feridos mesmo debaixo de fogo”, pode ler-se na nota explicativa da condecoração, que completa a descrição da bravura do militar: “A sua agressividade, indiferença pelo perigo e o seu espírito de missão acompanhado de uma consciência constante das medidas de segurança que impunha energicamente aos seus homens, tem contribuído para que a sua equipa de Comandos se coloque sempre no melhor terreno”.

Quando voltou do Ultramar, onde participou em mais de 40 operações militares e ainda recebeu uma condecoração coletiva, através da companhia que integrou na Guiné, Jorge Feliciano regressou ao local de trabalho numa loja em Caldas da Rainha. E resistiu a vários convites. “O meu comandante solicitou-me para fazer uma segunda comissão, mas rejeitei. Podia ter seguido a vida militar e cheguei a ser convidado para entrar na PSP, mas rejeitei, pois tinha emprego e uma família”, recorda o antigo sargento, que não esconde o orgulho pelo passado militar e, “sobretudo, por ter servido a pátria e cumprido um dever”.

Jorge Feliciano radicou-se em Alcobaça há quase meio século. Depois da Guerra do Ultramar, regressou ao posto de trabalho numa loja em Caldas da Rainha, cidade onde nasceu e cresceu. Até que, em 1969, surgiu a oportunidade de gerir uma loja de eletrodomésticos que se tornou muito conhecida na então vila de Alcobaça: a Tele-Rio. Foi funcionário e, mais tarde, sócio-gerente. E por cá ficou, tendo inclusivamente sido capitão do Ginásio, clube que representou durante três temporadas. Mais de 50 anos depois da guerra, confessa que ainda se comove a ouvir o hino nacional.

“É algo que sinto e que não consigo explicar. Emociono-me imenso quando ouço o hino. Tenho muito orgulho de ter ido para África defender a pátria e isso comove-me sempre”, assume o “alcobacense”, que lamenta as críticas que ouviu de alguns setores da sociedade portuguesa após a revolução do 25 de Abril. 

“Houve muitos indivíduos que fugiram à responsabilidade, porque desertaram e não foram à guerra. Foi complicado de ouvir da parte de alguns, depois da revolução, que afinal eles é que estavam certos e que nós estávamos errados. É daquelas coisas que não consigo aceitar”, relembra o antigo comando, que se tornou um comerciante de referência na cidade de Alcobaça.

Além de ex-presidente do Clube de Natação de Alcobaça, Jorge Feliciano integra o Rotary Club de Alcobaça e recorda os anos em que foi defesa no Ginásio. Diz quem o viu jogar que era um central forte, mas sem maldade. Um problema de saúde impediu-o de continuar a representar os azuis, mas ainda foi a tempo de celebrar uma conquista e erguer a Taça de Pataias, depois de uma final muito equilibrada com o Sp. Pombal (2-1), que só terminou após dois... prolongamentos. O treinador era Cavém, antigo bicampeão europeu pelo Benfica e que em 1969/70 deixou a Luz para representar o Nazarenos e na época seguinte se mudou para o Ginásio, onde esteve duas temporadas.