Raquel Varela: “O Oeste não tem sequer uma linha de comboio que funcione”

Historiadora, investigadora e professora universitária. Nasceu em Cascais em 1978 e viveu em Fanhais, de onde é a família materna, com a avó durante cerca de um ano. Um período que vê como determinante para a pessoa que é hoje, sobretudo pela liberdade de andar descalça e pelo afeto que recebeu em criança. Também o Alentejo, terra do pai, a ajudou nesse crescimento como ser humano. Hoje regressa a Fanhais sempre que pode, enquanto divide a sua vida entre Lisboa e alguns projetos que mantém noutros países da Europa. A comentadora residente do programa semanal de debate público O Último Apaga a Luz, na RTP, tem dois filhos gémeos

A criminalidade entre jovens junto a casas de diversão noturna é um dos temas que tem sido abordado pela conhecida investigadora. Para a historiadora, o Serviço Nacional de Saúde precisa de uma reviravolta. Em entrevista, a dependência dos mercados externos e o turismo são outros dos assuntos abordados, sem embaraços, pela professora universitária, que tem em Fanhais o seu refúgio e onde recebeu o REGIÃO DE CISTER.

REGIÃO DE CISTER (RC) > Crimes graves de jovens contra outros jovens em cenários de diversão noturna. Que realidade é esta?
RAQUEL VARELA (RV) > Creio que a realidade tem demonstrado que a segurança nas discotecas não tem funcionado. As rixas em bares são sistemáticas, deixam consequências e às vezes deixam consequências como mortes. Isto significa que a segurança privada não está a funcionar e a segurança pública não está a funcionar. Também fora dos grandes centros. Temos de colocar o dedo na ferida porque há muitos interesses económicos aqui envolvidos. Os bares, a venda de álcool e muitas outras substâncias legais e ilegais... Também há uma dimensão absolutamente lúdica e necessária, de diversão e encontro. As discotecas podem ser lugares muito interessantes para as pessoas conviverem, mas há um problema de segurança que não está assegurado e que tem de ser encarado pelo Estado. Ou seja, a solução que foi apresentada – as empresas de segurança privada assegurarem a segurança nestes bares e discotecas –, não se tem revelado suficiente. Assistimos a crimes tribais, bárbaros entre jovens, que envolvem às vezes a própria segurança. Há muitas situações que não são sequer reportadas porque os próprios seguranças conseguiram evitar. Há gente boa e má no meio disto tudo e não se deve confundir, mas, acima de tudo, vivemos num País que tem um Estado e que tem uma segurança pública e isto faz parte da segurança pública. O problema não é as pessoas irem dançar. O problema são estes conflitos bárbaros que têm de ser parados.

RC > Outra das suas preocupações tem sido a prestação de cuidados de saúde em Portugal. Como avalia os cuidados de saúde públicos?
RV > Não tenho dúvidas que o Serviço Nacional de Saúde em Portugal é muito superior ao serviço privado. No privado não existem, por exemplo, urgências de especialidade. Se se dirigir a qualquer serviço privado com um problema cardíaco ou com um problema que exija um cirurgião para uma pequena sutura, esses especialistas têm de ser chamados. Eles não estão lá no local. Não se trabalha em equipa no setor privado. Depois, temos a questão dos seguros. Há muito pouca seriedade à volta desta questão. Tudo aquilo que custa muito, por exemplo, politraumatizados de acidentes de carro, cancros, cirurgias complexas, etc, o plafond não cobre. E, portanto, acabam por ir para o público, ou seja, no setor privado só fica aquilo que é lucrativo. O setor público não tem de dar lucro ou prejuízo. Tem de ter dinheiro e prestar cuidados de saúde. Não é uma empresa. O que não se pode é continuar a ocultar os erros do privado, as queixas do privado... O Serviço Nacional de Saúde tem problemas de meios, dos seus profissionais serem bem cuidados, enfermeiros e médicos, tem problemas de financiamento. O SNS tem uma gestão empresarial e isto não pode continuar.

RC > Defende, por isso, que o SNS deva ser gerido por médicos?
RV > Considero que tem de ser gerido por médicos e enfermeiros, eleitos pelos seus pares.

“A maioria do Orçamento de Estado vai para pagar juros da dívida pública. Parasitismo! Até na Idade Média viver dos juros era considerado parasitismo”

RC > Há cerca de um ano disse que se aproximam grandes desafios para a região e para o País. Que desafios são esses?
RV > “Como é que vamos ter um país?”, esse é o grande desafio. É que estamos a deixar de o ter. Isto está a ser uma espécie de protetorado da exportação da indústria alemã. Ou seja, aqui ficam os salários baixos do turismo e das fábricas, onde cada vez mais só se monta, não se fabrica. Com menos operários especializados, com menos capacidade formativa, com menos ciência e tecnologia e cada vez mais dependência, também da banca, já que não há uma banca nacional e a que há está altamente endividada. É a questão da dependência face a tudo. Os próprios transportes, os aeroportos, que geram rendas fixas para empresas estrangeiras. A saúde, que está na mão de negócios estrangeiros, a EDP... Um País que não domina os seus recursos não pode pensar o que é melhor para a sua população. A segunda questão, que vem associada a esta, da estratégia da dependência, que é a estratégia do PS, PSD e do CDS, é de acentuar a dependência, que vem agarrada ao declínio e aos baixos salários: dos operários que ganham 700 euros, dos médicos que ganham 1.700 euros, dos enfermeiros que ganham 1.000, dos professores que ganham 1.100... Isto é insustentável porque as pessoas não conseguem viver com estes salários e não pode haver produtividade com estes salários.  

RC > Isso explica o porquê de o País “exportar” quadros especializados?
RV > Cada vez mais. Cada vez mais temos os custos da formação, mas depois não temos aquilo que nos devolve a formação, que é a produtividade altíssima destes quadros. É um País a esvair-se dos seus recursos. Temos de largar esta politiquice superficial e começar a discutir o que queremos para o nosso futuro. Faltam os trabalhadores organizados, empenhados no País. Não temos isso. O que temos são os sindicatos profundamente enfraquecidos, quando não burocratizados. Temos os trabalhadores desorganizados e temos, a todos os níveis, seja no trabalho qualificado ou não, o mundo do trabalho desorganizado. O mundo do trabalho não tem uma palavra a dizer sobre o País. O País está na mão da política e dos setores financeiros. Isto é destrutivo. Enquanto não tivermos as pessoas que trabalham a ter uma palavra a dizer sobre o País nós não vamos inverter esta fase de declínio.

RC > Numa perspetiva mais regional, quais as grandes diferenças que encontra entre o litoral e o interior do distrito de Leiria?
RV > Elas são gigantes e também têm a ver com o litoral e o interior de todo o País. Mas, tenho de dizer algo em relação ao Oeste. É perfeitamente incompreensível como é que esta faixa da Estremadura litoral do Oeste tem uma das maiores densidades populacionais da Europa, é uma fonte de mão-de-obra, serviços e indústria central para Lisboa; é também uma fonte de produtos agrícolas e não tem um comboio que funcione. Quer dizer, isto é parte do declínio. É parte desta noção de que não há País. António Costa foi inaugurar uma linha de comboio de Sines, paga pelos portugueses, que só serve para mercadorias e servir as grandes exportações da Ásia para a Alemanha e que quer dizer que Portugal só serve para atravessar... e uma zona como é a do Oeste não tem sequer uma linha de comboio que funcione.

RC > É essa a grande vulnerabilidade mais flagrante desta região?
RV > A questão dos centros estarem ligados às zonas envolventes é absolutamente central. Do ponto de vista dos transportes públicos e do investimento em trabalho qualificado, porque temos bolsas de excelência do ponto de vista industrial e continuamos a não ter uma aposta no trabalho altamente qualificado e que pudesse dar independência científica e técnica a alguns destes setores, que são muito dependentes do estrangeiro. É evidente que se subíssemos os salários também tínhamos mais mercado interno e não havia tanta dependência do estrangeiro.

“Um País que não domina os seus recursos não pode pensar o que é melhor para a sua população”

RC > E por que se praticam salários baixos?
RV > Porque a estratégia do País é uma estratégia de dependência. Para onde vai a maioria do Orçamento de Estado? Para formar técnicos e científicos que possam desenvolver uma indústria pujante autónoma? Não. Vai para pagar juros da dívida pública. Parasitismo! Até na Idade Média viver dos juros era considerado parasitismo... Não é viver do trabalho. É viver do trabalho alheio. Enquanto não pensarmos que os nossos recursos têm de ser aplicados a fazer trabalho de excelência, universidades de excelência, um Serviço Nacional de Saúde de excelência, educação de excelência - e a educação de excelência tem de começar no início, na 1.ª classe (temos de ter professores extraordinariamente bem pagos para ter educação de excelência) - não vamos inverter esta situação de dependência. E o Oeste é parte deste problema, onde é ainda mais gritante porque, de facto, não é uma zona deprimida ou abandonada. É uma zona de altíssima densidade populacional... Veja-se, as pessoas poderiam viver em Torres Vedras, Mafra, até na zona de Alcobaça e ter um comboio de meia em meia hora para ir trabalhar em Lisboa e viviam com muito melhor qualidade de vida, em vez de estarem empenhados à volta de Lisboa. Vivi na Holanda a 60 quilómetros do local onde trabalhava e tinha um comboio de meia em meia hora. Aqui temos cada vez mais a macrocefalia, tudo à volta de Lisboa com péssima qualidade de vida. Do ponto de vista ecológico isto também é um desastre porque a única forma que as pessoas têm de se deslocar é de carro.

RC > Falando de Fanhais, que integra a freguesia da Nazaré, é considerada uma espécie de “parente pobre” da freguesia e do concelho da Nazaré. É o que também sente?
RV > Não é mais envelhecida do que outras zonas, mas Fanhais tinha uma escola e já não tem. Estas coisas funcionam em efeito dominó porque depois as pessoas pensam: “por que vou viver para Fanhais se não tenho escola?” Quando, ainda por cima, isto é uma zona potencialmente muito agradável para se viver, porque é no meio do pinhal, perto de tudo. Para se perceber o grau de desinvestimento, basta ver que não há um passeio. Não há um sítio para as pessoas brincarem. Isto acontece em imensas aldeias do País, mas é simplesmente ridículo que não haja um único passeio. Não há uma rotunda... já morreram várias pessoas no cruzamento que liga Fanhais a Pataias e Casal da Areia, já se fizeram petições, falou-se com os autarcas, que se comprometeram em mudar tudo e não mudaram rigorosamente nada...

“Não tenho dúvidas que o Serviço Nacional de Saúde em Portugal é muito superior ao serviço privado”

RC > Quanto à Praia do Norte, foi preciso virem os de fora para dar valor e capitalizar as ondas gigantes?
RV > O que, ainda por cima, não é verdade. O meu irmão, que foi tri-campeão nacional de surf, e que foi o primeiro a fazer as ondas gigantes da Nazaré e, aliás, foi ele que as deu a conhecer ao McNamara. Mas nós temos esta coisa provinciana do que o que vem de fora é que é bom. Penso que se pode fazer aqui um turismo de natureza muito interessante, mas é preciso ter estruturas. Nós, por exemplo, fazemos muito turismo de aventura nos Pirinéus e temos muito turismo de aventura organizado para as famílias. Aqui há um imenso potencial de turismo de ciclismo, de praias, de desportos marítimos.... A Lagoa, por exemplo, poder-se-ia aproveitar, mas é preciso criar estruturas para isso porque as pessoas não vão onde não há estruturas. Acho que podemos ter muito mais do que simplesmente um turismo de hotel e praia. Não agarrámos a onda.... A onda fica mais tempo do que as políticas para a onda.