Rui Almeida: “A escola de Porto de Mós precisa de uma intervenção urgente”

O diretor do Agrupamento de Escolas de Porto de Mós considera que a exigência e a estabilidade do corpo docente têm permitido fazer um trabalho contínuo com os alunos e com os pais, embora falte o essencial: infraestruturas e condições de trabalho. 

REGIÃO DE CISTER (RC) > A escola da região com a média mais elevada nos exames do secundário é a que necessita de mais obras?
RUI ALMEIDA (RA)
> Sem dúvida, é uma grande necessidade. Estamos num edifício com mais de 40 anos, que desde o início não teve a construção adequada: é tudo pré-fabricado. Os isolamentos são deficitários, as caixilharias idem aspas aspas, as coberturas são todas em amianto, à exceção das galerias que o Ministério da Educação substituiu recentemente. O edifício está cuidado na medida em que vamos fazendo, com os orçamentos da escola, pinturas, reparações... Não está num estado lastimável, mas também não posso dizer que está uma maravilha. Está muito longe disso. Passamos aqui muito frio no inverno. Recorremos a alguns aquecedores, mas com as condições térmicas que a escola tem é quase como ligar o aquecedor na rua. O casaco que trago da rua não o tiro na escola. Os pavimentos estão muito degradados. A escola precisa de uma intervenção urgente. Há pouco tempo tivemos cá uns engenheiros da DGEstE [Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares] que viram o edifício e consideraram que estava muito bom, mas eles não dão cá aulas no inverno. Também dizem que as coberturas de amianto, como não estão nas galerias, não fazem diferença. O Município já se comprometeu a contribuir para a resolução deste problema, mas não compete ao Município resolver. O edifício é do Ministério da Educação e é por essa via que deve ser resolvido. Vamos aguardar que o Ministério aceite a proposta da Câmara para reformular tudo isto. Os edifícios que estão por conta do Município estão muito bons, têm sido feitas novas construções e várias remodelações. O Ministério da Educação é que não tem investido nem em Porto de Mós nem em Mira de Aire. Também tem sido uma luta, o que seria uma obrigação do Ministério da Educação, construir um pavilhão na escola em Mira de Aire para proporcionar aulas que estão no currículo. O pavilhão já esteve quase para arrancar, mas foi-lhe cortado o financiamento e hoje, graças à carolice do professor João José e ao empenho da população, as coisas estão bastante adiantadas. Faltam as paredes, cujo orçamento é um dos projetos concorrentes ao Orçamento Participativo do Município.

RC > A Escola Secundária de Porto de Mós também tem reclamado obras de ampliação... 
RA >
Sim. Outro problema que temos é o facto de os alunos de 2.º ciclo estarem num edifício diferente, distante e isolado da escola-sede, na Corredoura, o que, pedagogicamente, também não é bom. O edifício é ainda mais antigo que a escola-sede, com muitos problemas de infiltrações. Já se gastou ali muito dinheiro sem resolver os problemas de fundo. Em Mira de Aire também juntámos os alunos do 2.º ciclo aos do 3.º e do secundário. Quando os alunos começaram a faltar já não justificava estarem em dois edifícios. Se os alunos puderem estar numa escola única é muito melhor. Aqui não temos efetivamente espaço. Agora temos mais de 600, mas não conseguimos ir buscar os 200 e tal da Corredoura. Já tivemos aqui 1.300 alunos, mas de dia e de noite.  

RC > Mesmo com as más condições, os resultados são bons. Qual é a fórmula do sucesso?
RA >
O ponto forte é o empenho dos professores, dos alunos e das famílias. Esta trilogia faz com que, normalmente, tenhamos bons resultados e às vezes resultados com destaque a nível nacional. Vemos que os nossos alunos conseguem entrar facilmente no ensino superior logo na 1.ª fase (mais de 90%). Temos muitos alunos em cursos que exigem médias elevadas. Os nossos professores são exigentes e em contrapartida também preparam muito bem os alunos para acompanhar essa exigência. Daí que os resultados dos exames, normalmente, sejam melhores do que os resultados internos, o que não acontece em muitas escolas. Temos, de facto, um corpo docente muito empenhado e muito estável. Só 10% é que vai variando. São professores que já conhecem bem a escola, os alunos e que vestem a camisola. 

RC > Como descreve este Agrupamento?  
RA >
É um agrupamento grande e extenso em área. Entre as duas escolas mais distantes, a de Cumeira e a de São Bento, são mais de 20 quilómetros. Temos 20 escolas, 2.666 alunos e 222 professores. À exceção de Porto de Mós, as freguesias são muito rurais. Notamos diferenças dos alunos que vêm da zona da Serra e dos alunos que vêm da zona mais litoral. Mas todos os que querem conseguem bons resultados, independentemente da sua origem. Normalmente é pelo comportamento que os distinguimos. Os da Serra são geralmente mais bem comportados do que aos alunos da vila. 
  
RC > Há cada vez menos turmas no ensino secundário. Há falta de alunos ou o êxodo para outros concelhos é cada vez maior?
RA >
Já tivemos mais alunos, mas estamos a recuperar alguma coisa. Como o Instituto Educativo do Juncal deixou de ter o ensino secundário, excetuando os cursos profissionais, temos tido alguma recuperação nos cursos gerais e nos cursos profissionais também não temos perdido. Mesmo em turmas do 5.º e 7.º ano já tivemos de aumentar turmas. Em Mira de Aire também temos conseguido manter a abertura do 10.º ano. Houve anos em que abanou, mas nos últimos anos acabou por ser pacífico. Chegámos a ter os alunos de Humanidades em Porto de Mós, mas retomámos os dois cursos em Mira de Aire.

RC > Mas se todos os alunos do concelho estudassem no concelho os números seriam outros...
RA > Teríamos mais uma turma ou duas. Mas também compreendo. Não temos as condições que outras escolas da região oferecem. As condições também têm importância na escolha da escola. 

RC > Considera que os contratos de associação com escolas, como o Instituto Educativo do Juncal, fizeram “concorrência” às escolas públicas, como a de Porto de Mós? 
RA >
Não sou político, nem gosto de me meter na política, mas quando o então ministro da Educação, Nuno Crato, dizia que os pais tinham o direito de escolher a escola para os filhos, quer fosse o ensino público ou o ensino privado, não posso concordar com isso. Não concordo, porque há impostos que todos nós pagamos e os impostos são para as escolas públicas. Se pretender um hospital privado tenho de o pagar, se não tenho o Serviço Nacional de Saúde, para o qual pago impostos. Quando houve um grande ‘boom’ de alunos o Ministério de Educação não conseguiu, ou não quis, acompanhar a construção de escolas para cumprir a sua obrigação de dar educação aos jovens e, por isso, fez os contratos de associação para suprir uma lacuna e nunca para competir. Se não tivesse havido uma política errada de aplicação dos princípios que regem os contratos de associação, a diminuição do número de alunos não teria sido tão penalizante para os estabelecimentos de ensino, quer públicos quer privados. O Instituto Educativo do Juncal fez de tudo para conseguir manter o número de alunos e isso acabou por fazer mal à escola pública. Fomos penalizados duplamente: com a redução de alunos e a não vinda dessa proporção para as escolas públicas. O decréscimo de alunos foi tal que o Ministério de Educação teve de fazer alguma coisa. E a queda foi de repente, se fosse gradual não custava tanto. Quanto aos cursos profissionais, o Instituto Educativo do Juncal optou por cursos profissionais que considero serem muito importantes para o concelho e para o mercado. Lançaram-se para essa área e fizeram muito bem. Uma escola, pública ou mesmo privada, dificilmente poderá ter instalações especializadas para cursos de grande exigência técnica mas, contrariamente ao que se passa numa escola pública, uma escola privada tem a flexibilidade necessária para suprir essa falta levando os alunos para as empresas que possam proporcionar essas instalações aos alunos.

RC > E qual o modelo de ensino que defende para a escola pública? 
RA >
O que sei é que este modelo de ensino não tem acompanhado a evolução, nomeadamente a das tecnologias. Não sou a pessoa indicada para sugerir as soluções que devem conduzir a mudanças profundas. Ainda ensinamos e aprendemos numa escola do século passado. A escola hoje é quase como era quando fui aluno do liceu. Não se alterou muito, mas as coisas alteraram-se imenso. Por isso, falta dar esse passo. Não sei como pode ser dado, mas as coisas têm de mudar. Não é permitido que os alunos usem telemóvel dentro da sala de aula e compreendo perfeitamente que não seja, porque fazem tudo menos estar com atenção na aula. Mas vamos ter de dar esse passo. Os alunos vão ter de começar a usar tablet nas aulas, vão ter de deixar de andar carregados com 5 quilos de livros e vai ter de haver uma mudança de mentalidades para que um tablet funcione como um livro e não como um brinquedo para estarem distraídos.  

RC > De que forma a escola tem tentado também aproveitar algumas inovações para melhorar o desempenho dos alunos?
RA >
Há muitas coisas que tive oportunidade de implementar nas escolas e que consegui fazê-lo muito antes de outras escolas, mesmo em Lisboa. Um exemplo são os sumários eletrónicos, deixando de haver livro de ponto. Mal tivemos condições técnicas, ou seja, computadores em todas as salas de aula, no plano tecnológico das escolas, no tempo do Sócrates, implementámos os sumários eletrónicos. Sempre gostei muito de contribuir para a introdução das tecnologias nas escolas. Quando comecei nem cursos de Informática havia... Sempre gostei de estar na vanguarda das tecnologias. Fala-se muito no “Simplex”, mas ainda há muita coisa que está complicada ao nível do sistema. As reuniões de final de período começam a deixar de fazer sentido. Os espanhóis não fazem reuniões, lançam as classificações no sistema, imprime-se a pauta e está feito. Ainda estamos agarrados a procedimentos antiquados que não se justificam com os sistemas tecnológicos que temos hoje em dia.

RC > Mas o sucesso dos alunos continua a medir-se pelas médias e pelos exames...
RA >
A questão do programa rígido tem de ser alterada, sabendo que isso tem implicações nos exames e no acesso à universidade. Mas será que não há outra forma de dar a volta à questão? Acabar com os exames no secundário ou quem quiser ir para a universidade propor-se aos exames das universidades? Talvez o futuro seja esse, em vez de depender de uma nota para cumprir um sonho. Quantos alunos por uma ou duas décimas veem os seus sonhos cortados? Para certos cursos, com notas muito elevadas, nada nos diz que o aluno que tem a melhor nota é o melhor candidato para esse curso. Pode ser um excelente aluno, com muitos conhecimentos, mas depois não tem vocação nem competências. A nota de exame não devia ser o único requisito, defendo uma entrevista e outras formas de conhecer o aluno de forma a saber que é um bom candidato. Acredito que há muitos alunos que optam por seguir Medicina porque sabem que se trata de um curso em que se ganha muito bem. Não vão porque tem uma verdadeira vocação, vão porque são alunos inteligentes e que sabem que vão ganhar dinheiro. Falta o resto.