Trabalhar do outro lado do mundo para ligar a Microsoft às startups

Muito antes de trabalhar na empresa mais valiosa do mundo já ambicionava criar impacto a uma escala global. Sabia que não o podia fazer sozinho e viu na tecnologia o seu aliado. Tornou-se num dos 144 mil funcionários da Microsoft e desde 2017 ocupa o cargo de “Startup Recruit & Onboarding Lead”, gerindo uma equipa dedicada ao apoio a startups, a partir de Redmond, Seattle. Eis o perfil do alcobacense Miguel Vicente.

Há três anos trocou o certo pelo incerto. Há três anos que se candidatou a um cargo, pela segunda vez, para saltar para o outro lado do mundo. Depois de liderar a estratégia mundial para o cargo que tinha em Portugal, integra agora a equipa “Microsoft for Startups”, dedicada às parcerias com startups de todo o mundo, ajudando-as a crescer com o suporte dos recursos da multinacional. “No dia em que estava a partir para Amesterdão em trabalho, recebi um telefonema a dizer que o lugar em Redmond era meu. Assim, sem mais, nem menos”, recorda Miguel Vicente, que acabou por não embarcar no voo desse dia para poder ir comemorar a notícia com a namorada. “A opção deve-me ter custado o voo mais caro da minha vida, mas não podia ter sido doutra forma. Sabia que uma nova aventura estava prestes a começar e ela também faria parte, tínhamos de jantar juntos e comemorar”, acrescenta o jovem, de 34 anos.

Para que ambos pudessem ir para Seattle era mais fácil se estivessem casados. Mais um desafio. “Já estava nos nossos planos mas ainda não tinha acontecido. Acabei por organizar o pedido à distância, enquanto estava em Amesterdão para uma reunião. Na sexta-feira pedi-a em casamento, na segunda-feira marcámos o casamento e no sábado estávamos casados”, conta. “É o momento em que tens noção de que não precisas de nada em grande para te casares. Foi genuinamente o dia mais feliz da minha vida”, enaltece. E assim, em maio de 2016, Miguel e Mariana foram de malas e bagagens para fazer check-in naquela que seria a maior experiência a dois no outro lado do mundo.

Por cá, o alcobacense já tinha ocupado o cargo de “Developer Audience Evangelism Manager” e gerido, em território nacional, o programa “Microsoft Student Partners”, através do qual se juntou a tempo inteiro à Microsoft Portugal. Na verdade, entrou para a Microsoft quando ainda estava a terminar o mestrado, tendo sido convidado para integrar um estágio profissional na empresa a gerir este programa a nível nacional, “desenhado para apoiar estudantes que queriam ter impacto nos seus meios académicos ajudando os seus colegas a fazer mais com tecnologia”. Responsável pela formação dos parceiros em Portugal, durante dois anos e meio, e depois como gestor de marketing, ao longo de cinco anos, desejava voltar às origens e escalar caminho. E por que não tentar a sorte para a sede da empresa fundada por Bill Gates? Não foi selecionado à primeira, foi à segunda.

Afiança que trabalhar em Redmond abre-lhe o mundo. E não é para menos: tão depressa fala com um francês, como a seguir está a falar com um grego, um indiano ou um japonês. “É uma riqueza de perspetivas”, nota. Além disso, “há a oportunidade de conhecer o mundo. Já estive no Japão, em Singapura, no Hawai – onde, por curiosidade, associam Portugal imediatamente às ondas da Praia do Norte na Nazaré. Sei que tenho a sorte de hoje ter um amigo em qualquer país onde vamos”, revela. Aliás, o alcobacense vê na tecnologia o grande “democratizador” do mundo, acreditando que “a inovação nesta área ainda só está a começar”. “Temos uma nova geração de startups que se perguntam diariamente como vão resolver os grandes desafios do mundo, na área da saúde, energia ou inteligência artificial”, adianta.

Mas nem toda a adaptação foi fácil: além das oito horas de diferença horária e dos 9 mil quilómetros de distância, com tudo o que isso acarreta, Miguel admite que teve de “refazer toda a rede profissional aos 31 anos”. “Pensava que dominava qualquer coisa e de repente tenho de refazer tudo, num país com excelentes comunicadores. E ao contrário do que se pensa, a língua é uma barreira, porque às tantas começas a pensar em português e o discurso em inglês não flui como gostarias”, admite o jovem. De destacar o facto de os “portugueses verem sempre a solução não óbvia”. “Temos uma capacidade de trabalho fora de série, com a desorganização que isso implica. Mas temos muito a aprender sobre produtividade”, nota.

Cedo soube que gostaria de trabalhar numa área ligada à tecnologia. Talvez isso explique o facto de ainda guardar o seu primeiro computador (um velhinho Spectrum) no sótão de casa onde vivia. Mas não sabia bem o caminho a seguir, sabia que “queria entrar numa sala e conseguir falar de igual para igual”. A escolha do curso acabou por ser Engenharia Informática e Computação, que completou na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. E sem grandes ambições em ser programador ou gestor de redes, apenas com a ideia de criar impacto no mundo, hoje gere a equipa responsável por desenvolver os mecanismos de recrutamento de novas startups para a mesma, num investimento da Microsoft de... 500 milhões de dólares (em apenas dois anos). Cada startup que entra no programa passa pela equipa gerida pelo alcobacense. E se isto não é criar impacto no mundo, não sabemos o que seja.

Saudades de casa e das “pequenas coisas”

Como se lida com a distância de casa? “Não fica mais fácil com o tempo”, diz o alcobacense que, há três anos, faz de Seattle a sua cidade e a sua casa. Embora já estivesse a viver em Lisboa desde que acabou a formação superior, agora as distâncias são outras.

“Não há voo direto, estamos a mais de 9 mil quilómetros de casa e oito horas de diferença horária. É muito difícil gerir estas emoções”, confessa Miguel, que vai mantendo contacto com a família e os amigos através da tecnologia. “Arranca-me o coração estar um dia sem ver os meus avós. Sinto falta dos amigos de uma vida, de beber café no Ala Sul, da ginja, dos almoços de família, das minhas afilhadas. E não podemos ter a ilusão de voltar exatamente ao que deixámos, porque quando voltarmos sabemos que as coisas mudaram, os anos passaram”, considera.

Apesar do “grupo de amigos fantástico” que fez nos Estados Unidos, o casal apercebe-se das “pequenas coisas” de que sente falta quando regressa a Alcobaça e a Coimbra (cidade da mulher). “Nas quatro semanas que temos de férias ao longo do ano, uma passamos no avião. Temos de ter a noção que não vamos conseguir estar com toda a gente, e mesmo assim temos sempre tudo agendado quase à hora: chego a ter planeados dois pequenos-almoços, um almoço, um lanche, um jantar, um café”, brinca.

Não passa sem ver os jogos do Benfica em Seattle e quando vem a Alcobaça não resiste a levar no avião “várias garrafas de ginjas de Alcobaça e latas de atum”. Ainda assim, confessa não ter vícios – “exceto café, livros e gomas”.

Entre aquilo que ganha e perde no emprego que tem, nos Estados Unidos, há um equilíbrio difícil de gerir. “Tenho de pensar que foi este o melhor uso que dei à oportunidade que tive”, enaltece. Sabe que não tem um emprego para a vida e recorda a educação que teve para poder levar a cabo a missão de criar impacto no mundo. Para isso, questiona-se diariamente se tem “mais recursos dentro ou fora da Microsoft” para o fazer. Enquanto a resposta for clara, é por ali que fica, mesmo com saudades de casa e das “pequenas coisas”.