Sexta-feira, Dezembro 2, 2022
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Quando as sobras de uns fazem falta a outros

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Miguel (nome fictício) já ofereceu aos voluntários do Refood de Alcobaça rosas suficientes para plantar um jardim. Essa foi a forma que arranjou para dizer “obrigado” à equipa que diariamente lhe prepara e entrega comida, que sobrou de cafés, restaurantes e supermercados da região.

Miguel (nome fictício) já ofereceu aos voluntários do Refood de Alcobaça rosas suficientes para plantar um jardim. Essa foi a forma que arranjou para dizer “obrigado” à equipa que diariamente lhe prepara e entrega comida, que sobrou de cafés, restaurantes e supermercados da região. 

“Ele agradece, mas nós é que somos os principais agradecidos pelo facto de os beneficiários nos virem bater à porta e nos fazerem sentir bem“, relata João Santos, um dos 70 voluntários, que dedica seis horas por semana ao projeto. “Como o vagar era muito”, uma vez que está reformado, o voluntário, de 68 anos, residente em Alcobaça, não hesitou em contribuir para a causa logo que teve conhecimento do projeto, que arrancou a 9 de março do ano passado, depois de inaugurado o Centro de Operações, espaço cedido pela empresa Pneus do Alcôa. Aliás, tudo o que ali está foi oferecido: desde os frigoríficos à máquina de lavar loiça. 

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Responsável por registar os alimentos atribuídos a cada beneficiário, identificados com um número e nunca pelo nome, João Santos é interrompido com a chegada de mais uma família. O voluntário recolhe o saco e as caixas de plástico, já lavadas, que foram utilizadas na véspera para transportar a comida, e entrega a refeição para a noite.

Neste caso, e porque fez questão de se identificar, o nome é Alcina Ferreira. Com três filhos, de 21, 19 e 6 anos, a auxiliar de limpeza numa instituição da cidade levou para casa sopa, três refeições de carne, pão, iogurtes e fruta. “É uma ajuda muito grande. A comida é muito boa e por vezes até é muita. Com a crise habituámo-nos a comer pouco“, conta a mulher, de 40 anos, que está classificada com a cor vermelha nas fichas de registo do núcleo, o que significa que integra uma família com bastantes dificuldades económicas. “Não passávamos fome, mas parte do dinheiro que gastava em comida agora já dá para outras coisas“, assume a beneficiária, que conta apenas no final do mês com o ordenado mínimo nacional.

E não é caso único. “Sabia que havia dificuldades, mas não tinha noção de que na cidade de Alcobaça havia tanta dificuldade. Nem sei como sobreviviam antes“, confessa Ana Nazário, uma das voluntárias que integrou o projeto desde o primeiro minuto. “Há muitas famílias numerosas e, em alguns casos, existem membros do agregado desempregados“, conta a alcobacense, de 51 anos, que além de preparar os alimentos também recolhe os excedentes. “Isto é um vício. Das 10 às 12 horas vou buscar a comida aos nossos parceiros e, ao contrário do que alguns pensam, não se trata dos restos das travessas, é a comida que se faz a mais e não se vende. À noite, há dias em que sou responsável pelo turno das 18 às 21 horas e outros pelo turno das 21 às 23 horas”, resume a também gestora de serviço do núcleo.  

De segunda a sexta-feira, dentro do Centro de Operações do Refood de Alcobaça cerca de dez voluntários, entre os quais dois gestores, colocam o avental para separar e distribuir as refeições, que durante o dia e a noite são recolhidas por outros tantos voluntários. Cada saco tem a indicação do número de adultos e crianças. As entregas decorrem de segunda a sexta-feira, entre as 19 e as 21 horas.

Além dos cafés e restaurantes da região que aderiram ao projeto, que todos os dias dão aos voluntários o que lhes sobra, também supermercados, como os Intermarchés de Alcobaça e da Cumeira, oferecem produtos, que de outra forma tinham como destino apenas e exclusivamente o lixo. Desta vez, as sobras que chegaram às mãos de Helena Geraldo não são tantas como de costume, mas por enquanto são as suficientes para dar de comer às 41 famílias inscritas no projeto. “Até à data a comida que recolhemos vai chegando para os beneficiários inscritos. Só houve um dia em que faltou“, recorda a comerciante, de 59 anos, que também assume funções como gestora de serviço no projeto. 

Ocasionalmente os voluntários também são chamados para recolher a comida que sobrou de festas ou jantares especiais. “Tudo o que vier é bom. As famílias agradecem e nós também“, sublinha Helena Geraldo, uma das voluntárias que esteve envolvida na criação do núcleo do Refood em Alcobaça. A associação foi criada em 2011, pelo norte-americano Hunter Halder, com o objetivo de combater o desperdício alimentar, recolhendo a comida que não é utilizada em cafés, pastelarias e restaurantes, conseguindo assim apoiar famílias carenciadas. Porque as sobras de alguns fazem falta a outros. Além disso, quem não gosta de receber rosas?

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