Sexta-feira, Agosto 12, 2022
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Entrevista a João Lisboa

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Um dos responsáveis pela realização de cursos de estudos superiores em Alcobaça analisa, em entrevista ao REGIÃO DE CISTER, o processo de instalação do ensino superior no concelho, que se encontra parado.

Um dos responsáveis pela realização de cursos de estudos superiores em Alcobaça, através da criação do Centro de Estudos Superiores da Universidade de Coimbra em Alcobaça, analisa o processo de instalação do ensino superior no concelho, que se encontra parado.

REGIÃO DE CISTER (RC) > Como surgiu a possibilidade de se instalarem cursos de ensino superior em Alcobaça?
JOÃO LISBOA (JL) > A ideia original era de Gonçalves Sapinho [ex-presidente da Câmara de Alcobaça], que me telefonou no Natal de 2000, dizendo que queria falar comigo sobre a hipótese de trazer o ensino superior para Alcobaça. Na época, a questão dos polos universitários teria pouca viabilidade, porque se tinham criado polos em muitos concelhos do País. Mas o Dr. Sapinho tinha esta ideia, não desistiu e tentou que, em vez de um polo por si só, se criasse uma complementaridade com a Universidade de Coimbra (UC). E aqui em Alcobaça a ideia era mesmo essa. Não se queria fazer o mesmo que se estava a fazer em Coimbra. Funcionaram na cidade, durante seis ou sete anos, os mestrados em Gestão Escolar e de Desporto, cursos que não eram lecionados em Coimbra e que formaram muitos profissionais. Com a saída de Fernando Rebelo da reitoria da UC, o novo reitor já não teve, por ventura, tanta motivação para continuar com esta estratégia dos polos. Mesmo assim, no Senado da UC decidiu-se não fechar o polo de Alcobaça. Atualmente, a Dr.ª Margarida Anastácio continua a dinamizar o espaço e a mantê-lo aberto, com atividades de diversa natureza: colóquios, exposições, visitas às escolas e feiras de formação. Mas os mestrados acabaram.

RC > A Universidade de Coimbra perdeu interesse, mas, ainda assim, a Câmara criou a Fundação Colégio Cisterciense Nossa Senhora da Conceição para trazer o ensino superior para Alcobaça…
JL > A criação da Fundação veio dar corpo, precisamente, à ideia de Gonçalves Sapinho para constituir um espaço gerido pela UC, mas que tivesse também a colaboração de outras instituições. Foi, de facto, algo de muito original. Não era um polo afeto apenas à UC, mas sim um espaço gerido pela Universidade e que podia fazer protocolos com outras universidades para fazer mestrados durante alguns anos, conforme a procura e as necessidades.

RC > Passado tanto tempo, ainda tem esperança que Alcobaça volte a ter ensino superior? 
JL > Com o falecimento de Gonçalves Sapinho dá-se uma grande ‘machadada’ no projeto, porque ele foi, na verdade, o seu grande impulsionador. As coisas estão agora num estado latente. Tenho esperança, porque o projeto tem ainda cabimento. É viável termos um espaço gerido pela Universidade de Coimbra e que tenha a oportunidade de instalar mestrados ou pós-graduações de acordo com as competências e as necessidades da região. Recordo que vinham pessoas de Lisboa e de Santarém e de outros concelhos para frequentar os mestrados em Alcobaça. Se fosse possível que o polo funcionasse com estas características, ainda seria um projeto viável e legítimo como foi anteriormente. Até do ponto de vista económico, porque o centro de estudos nunca deu prejuízo à UC. Mas, para isso, tem de haver pessoas interessadas em fazê-lo. Sem ovos não se fazem omeletes. Não sei como a Câmara de Alcobaça tem acompanhado este assunto, mas penso que se a Universidade de Coimbra estivesse interessada, a autarquia abraçaria, com toda a certeza, o projeto.

RC > Mas com a extinção da Fundação e a falta de interesse da UC não será este um processo irreversível?
JL > Tenho receio disso mesmo. Houve uma escritura para a criação da Fundação Colégio Cisterciense Nossa Senhora da Conceição que nunca chegou a ser reconhecida pelo Governo e tenho receio que o Centro de Estudos Superiores da Universidade de Coimbra em Alcobaça não volte a receber mestrados, doutoramentos ou pós-graduações e que deixe, inclusivamente, de realizar as atividades que, mesmo assim, tem vindo a realizar graças à persistência da sua responsável local.

RC > A vinda de ciclos de estudos superiores para Alcobaça era também vista como uma forma de dinamizar a cidade…
JL > Sim, evidentemente. Havia o objetivo de atrair pessoas à cidade e, como já referi, vinham pessoas de vários pontos do País para estudar em Alcobaça. Tínhamos, em cada turma, entre 20 a 30 alunos que vinham todas as semanas a Alcobaça. Caldas da Rainha e Peniche ganharam muito com os polos do Instituto Politécnico de Leiria e Alcobaça poderia ter também aproveitado o centro de estudos no mesmo sentido. A ideia aqui não era criar uma universidade, mas sim um espaço que trouxesse pessoas de outros concelhos para cá e que trouxessem ideias e projetos interessantes que, de outra forma, nunca chegariam a Alcobaça. Aqui poderiam ter funcionado mestrados em Urbanismo ou Turismo ligados ao património cultural, por exemplo. Outra coisa que nunca ninguém pensou e que se podia aproveitar é a agricultura. Temos os laboratórios da Estação Nacional de Fruticultura de Vieira Natividade parados e podia fazer-se, em parceria com o Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural, diversos mestrados nesta área. A ideia era esta, e a proposta era esta. Só que não teve corpo, foi apenas formal e nunca chegou a vingar nada além dos mestrados em Gestão Escolar e Desporto e penso que atualmente haveria novamente “clientela” para estes cursos. Muitas pessoas me dizem, ainda hoje, que se não fosse o centro de estudos em Alcobaça nunca teriam feito o mestrado por impossibilidades de se deslocarem a Coimbra ou a outro local. Chegámos a ter centena de pessoas que fizeram o mestrado e pós-graduações em Alcobaça ao longo de seis ou sete anos. 

 

“A ideia aqui não era criar uma universidade, mas sim um espaço que trouxesse pessoas de outros concelhos para cá e que trouxessem ideias e projetos interessantes que, de outra forma, nunca chegariam a Alcobaça”

“Recordo que vinham pessoas de Lisboa e de Santarém e de outros concelhos para frequentar os mestrados em Alcobaça”

“A maioria das empresas familiares acaba à 3.ª geração”

“Hoje em dia, as empresas têm de ser geridas com um grande sentido de poupança e evitar desperdícios”

 

RC > Tendo em conta a sua experiência em gestão industrial, como vê o atual panorama da indústria da região?
JL > As coisas modificam-se. E a indústria também. Se calhar hoje já não há espaço para uma Fiação e Tecidos que produzia algodão. E hoje, os chineses conseguem produzir algodão a um décimo do preço. As nossas empresas tiveram dificuldades em modernizar-se e a aplicar a tecnologia. No que toca às cerâmicas, que foi um dos setores mais afetados dos últimos anos, penso que não tenha sido por falta de modernização, mas por má gestão que fecharam empresas de ceâmica na regão. É verdade que os mercados estão mais competitivos, mas o mercado da louça decorativa e faiança ainda existe. Poderia ter havido algum emagrecimento, mas talvez não fosse necessário fecharem tantas fábricas, porque a verdade é que continua a haver mercado.

RC > De que forma se poderia ter evitado o encerramento dessas empresas?
JL > A maioria das empresas familiares acaba à 3.ª geração e uma grande parte das fábricas de cerâmica de Alcobaça eram familiares. Das duas uma: ou as empresas conseguem transformar-se em sociedades de capital com uma direção profissional ou, então, as tricas entre familiares acabam por ser fatais. Começa a ser muita gente, já não são só os filhos que vão trabalhar para estas empresas, são os filhos, os genros, os netos e os sobrinhos… E depois essas empresas sofrem de uma “doença” que é a macrocefalia administrativa. Quando a empresa está bem, a dar lucros, vai para lá o primo e o afilhado… Criam-se postos de trabalhos para estas pessoas que não acrescentam valor às empresas, só para justificar a sua presença. Os custos com o pessoal aumentam. E quando as coisas começam a ficar mais apertadas e a empresa já não dá tanto lucro, geralmente esses são os últimos a sair. E os que saem primeiro são aqueles que realmente fazem falta. O que é que acontece? A empresa acaba por ir abaixo. Hoje em dia, as empresas têm de ser geridas com um grande sentido de poupança e evitar desperdícios.

RC > A falha na modernização pode ter sido um dos principais “erros” dessas empresas?
JL > Os mercados tornaram-se mais competitivos e muitas das empresas não tiveram a capacidade de competir com outras de mercados muito fortes e, em vez de se reinventarem, optaram por continuar no mesmo caminho e acabaram por fechar. O caso da SPAL é notável neste aspeto, porque teve de dar um passo atrás para dar dois à frente: tem menos empregados, investiu na modernização e, agora, depois de um mau período está a dar outra vez sinais de melhoria, apostando na apresentação de outro género de produtos. 

RC > Que análise faz da atualidade económica nacional?
JL > Uma grande parte da economia portuguesa está virada para o turismo. Mas há certos setores que apresentam, também, muito crescimento, nomeadamente na construção, que é um setor fundamental. Parece que está a recuperar. Pela primeira vez em vinte anos, o desemprego baixou dos 10%. As coisas aparentemente parecem estar a melhorar. Juntando todas as estatísticas e opiniões de vários economistas, consegui fazer um modelo matemático que mostra a evolução da atividade económica em Portugal. O próximo passo é utilizar este modelo para fazer projeções sobre o futuro da economia nacional.

RC > Considera, então, que o País está a atravessar uma boa fase na economia?
JL > Segundo os indicadores, a economia de facto está a atingir os níveis anteriores à crise de 2008. A tendência de crescimento já se regista há dois anos. Há uma série de indicadores que contribuem para isso, não apenas o Produto Interno Bruto, as exportações ou a diminuição do desemprego, há muitos mais. Curiosamente, no primeiro trimestre deste ano a economia abrandou ligeiramente relativamente ao trimestre anterior, mas isto acontece quase todos os anos. Se compararmos com o período homólogo, a economia cresceu mais de 13%.

RC > A tendência de crescimento vai manter-se nos próximos anos?
JL > Penso que sim. Não se vê razão para que a economia não pare de crescer nos próximos tempos. Agora vamos ver se os portugueses sabem aproveitar este crescimento, por exemplo, através do aumento da aposta no turismo que vai, depois, influenciar outros setores. Por exemplo, o aumento no número de turistas vem também impulsionar o setor da construção, que é um setor muito importante. O aumento na construção civil vai, por sua vez, ter repercussões noutros setores e a economia nacional pode continuar a crescer.

 

 

 

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