Quarta-feira, Julho 6, 2022
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Miguel Silvestre (Iniciativa Liberal) em entrevista

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O diretor do Parque Tecnológico de Óbidos, Miguel Silvestre, é o candidato do Iniciativa Liberal (IL) à Câmara de Alcobaça nas próximas eleições autárquicas.

O diretor do Parque Tecnológico de Óbidos, Miguel Silvestre, é o candidato do Iniciativa Liberal (IL) à Câmara de Alcobaça nas próximas eleições autárquicas.

REGIÃO DE CISTER (RC) > Como técnico de um Parque Tecnológico de uma Câmara gerida pelo PSD, como é que surge como candidato da Iniciativa Liberal em Alcobaça? 
MIGUEL SILVESTRE (MS) > Nunca tive vínculo ao PSD. Aconteceu ir trabalhar para Óbidos, mas não teve nenhuma ligação do ponto de vista partidário. O que se passou a seguir foi, talvez, uma relação invulgar com um presidente da Câmara [Telmo Faria] que, à época, viu em mim algumas características que faziam parte do projeto. Participei na Assembleia Municipal de Óbidos como independente, por uma questão de convite e convicção com as pessoas. Quando apareceu a Iniciativa Liberal senti que, finalmente, tinha encontrado um partido com o qual me identificava. Pela primeira vez, houve uma convergência entre o que acreditava e o que um partido defendia. Estamos a fazer um processo novo com um novo partido e novas ideias, focados em tentar trazer pessoas que estavam afastadas da política para contribuir para um concelho melhor. Do ponto de vista das ideias, mas também da experiência, não será difícil.  

RC > A pouca experiência autárquica que tem pode ser um trunfo?
MS > Creio que sim. Não tive um envolvimento na política em Alcobaça, mas tenho estado sempre atento enquanto morador no concelho. Conheço muito bem os municípios do ponto de vista do funcionamento e dos constrangimentos. É o meu dia a dia. O facto de sermos um novo partido pode ser uma vantagem também.  

RC > O Parque Tecnológico de Óbidos que dirige poderia ser replicável em Alcobaça?
MS > Alcobaça pode, deve e tem obrigação de fazer coisas diferentes. Não faz sentido copiar ou transpor projetos doutros municípios. Não faltam ideias para o concelho de Alcobaça e, por isso, não há necessidade, nem faz sentido, copiarmos um projeto como esse. 

RC > Quais os projetos que fazem sentido?
MS > Há uma questão fundamental: sentirmos que o concelho de Alcobaça perdeu a capacidade de falar com todos e para todos. Temos a sensação de que o concelho é gerido numa bolha. Não há uma participação efetiva nas decisões, mesmo pessoas como eu, que procuram estar atentas, têm muita dificuldade em perceber qual é a estratégia que a Câmara tem para o concelho. Há também formas de gestão que não são aceitáveis, não podemos continuar a ter um regime e um modelo em que a figura do presidente se confunde com a lógica e forma da gestão do município. Temos de quebrar isso. As câmaras têm de ser geridas por processos, de acordo com as pessoas, os colaboradores e com os objetivos que estão a fazer. Temos ideias muito concretas do ponto de vista da atração do investimento para o concelho. Temos de ter uma nova visão na forma como olhamos o talento. Hoje em dia esse é o fator mais distintivo e importante para atrair pessoas e investimento para o nosso concelho. É, também, o fator diferenciador das empresas, porque quando procurarem o concelho vão ter de ter os melhores quadros para trabalhar. Estamos numa competição global, Alcobaça não compete só com os vizinhos do lado. Temos de ser muito competitivos e inovadores. Estamos numa fase de sobrevivência demográfica, somos um país ameaçado a longo prazo e Alcobaça sofre também da perda de população e capacidade de conquistar mais população. Temos de ser muito ousados nessa matéria. Uma das coisas que queremos trazer para a discussão o debate público são as melhores políticas de infância. É um espaço onde as câmaras podem trabalhar. Falta uma visão estratégica para o turismo no concelho, sabendo que é muito difícil inverter a realidade das estadas muito curtas. Temos de reinventar o turismo como uma experiência, num ano inteiro e no concelho todo. Há características que ainda não foram exploradas. Defendemos que o papel do município é um papel de libertação da iniciativa que existe nas pessoas e nas empresas e na comunidade. O processo não se encerra dentro das reuniões de câmara, das assembleias municipais, implica estar junto dos empresários e partilhar a visão que temos, numa lógica de validação e depois envolver as pessoas nessa estratégia. Também na área social, temos de apostar mais na prevenção e não tanto na reação. É uma realidade comum continuarmos a fazer muitos edifícios, a prometer centros de saúde e depois não há médicos, como acontece também no nosso concelho. Queremos trazer uma lógica disruptiva do que tem sido nos últimos anos, que é partilhar a nossa estratégia e construir com os outros.

RC > Alcobaça ainda está refém do Mosteiro?
MS > Cresci a ouvir dizer que o Mosteiro era uma entidade macrocéfala, parecia que Alcobaça não tinha capacidade para lidar com o próprio Mosteiro. Não nos interessa ser o Mosteiro de Alcobaça, faz mais sentido lutar pelo Mosteiro com Alcobaça. E isso não existe. Há uma relação para quem está de fora, institucional, mas não chega. O Mosteiro está de costas voltadas para a população e parte da população ainda acredita que o problema de Alcobaça é o Mosteiro. A Câmara deve ter um papel mais ativo na gestão do Mosteiro. Não vale a pena ter uma abordagem conservadora, é importante pensar em novos usos e novos serviços ali dentro. É preciso recuperar a capacidade de repensar o património.

RC > O hotel pode ajudar nessa linha?
MS > Pode ajudar, não é a panaceia. Não podemos colocar o ónus num único ator. O hotel é uma peça fundamental numa estratégia, mas não chega. Que oferta temos para os turistas que vamos receber por essa via? O que podemos oferecer às pessoas que vão passar um dia em Alcobaça? Isso exige uma articulação da oferta de outros equipamentos culturais, da restauração e uma necessidade de falar com todos os atores. Não vejo que essa experiência esteja a ser feita. 

RC > “A mudança começa em ti” é um dos motes da sua candidatura. Os números da abstenção sobem, há gerações que não vão às urnas… Que mudança é necessária?
MS > “Começa em ti” porque precisamos que as pessoas apresentem projetos e temos de criar espaço para o fazer. Em 2021, não é aceitável que haja receio de participar e falar. A abstenção é a nossa grande preocupação. Não só porque, à partida, poderá ser uma base eleitoral importante para a IL, mas também porque é preocupante esse afastamento. Há um trabalho de fundo que vamos fazer nesta campanha que é falar de temas sérios sem ser de forma demasiado séria. Os jovens não gostam da maioria dos temas que são falados politicamente. A atração de investimento é importante, gera emprego, mas é uma linguagem hermética para as pessoas. É preciso desmontar o discurso, de forma a corresponder à realidade das pessoas. Talvez “desdramatizar” o lado mais guerrilha das campanhas e focarmo-nos em assuntos interessantes, procurando temas que os jovens se interessem, como o digital. Certo é que a IL só conseguirá crescer se conseguir entrar no campo da abstenção, o maior partido de Portugal.

RC > Eleger um vereador será uma vitória?
MS > Neste momento, todos os resultados serão bons. Estamos a fazer um percurso interessante, a mobilizar pessoas que não tinham ligação à política, e isso já é uma pequena vitória. Não estamos numa lógica de pensar que está tudo mal, o concelho não tem nada extraordinariamente mau, mas também não tem nada extraordinariamente bom. E interessa-nos ter algo extraordinariamente bom. Estamos cá pela democracia. Se tivermos 1% é 1%, se tivermos menos de 1% teremos de tirar lições. Nesta fase os números não preocupam. Se conseguirmos entrar no executivo é ótimo para nós e para a realidade politica local. Sou conservador nestas matérias e acredito que não vamos ter um resultado espetacular mas que será surpreendente.

RC > Ser um novo rosto na corrida eleitoral em Alcobaça é uma vantagem?
MS > A Iniciativa Liberal defende e, eu também, que não nos devemos eternizar nos cargos políticos. Não faz sentido estar 24 anos como vereador e depois poder ser eleito como presidente mais três mandatos consecutivos. Há a imagem em Portugal de que as Câmaras não se ganham, perdem-se. Por melhor que seja a intenção das pessoas, há uma colagem entre o organismo e a pessoa. Sem prejuízos de valor a ninguém, não é um bom princípio.

RC > A dimensão do concelho de Alcobaça é apontado por uns uma mais-valia, por outros um problema… Qual a sua visão? 
MS > Quando digo que sou de Alcobaça noutros locais do País há um silêncio e isso é confrangedor. É verdade que é um concelho muito grande, com muitos núcleos. Mas essas características podem trazer vantagens, não podemos olhar para isso como um problema. Por outro lado, Alcobaça é um concelho com tendências divisionistas. E isso é a demonstração que as pessoas não estão satisfeitas. Se não estão satisfeitas, por que vão votar nos mesmos? Como se resolve? Com políticas inovadoras e novos projetos, temos de dar espaço para que estas realidades se possam construir. A sede do concelho não se afirma com as outras realidades a definhar. Se há uma Benedita forte, Pataias forte, Alcobaça também pode ser forte. Pode haver concorrência dentro do mesmo território, sem atropelos de maior. Ganhando a Câmara terei o compromisso de chamar as pessoas que mais sabem sobre determinados assuntos para falar sobre eles. Não terei problemas de falar sobre Proteção Civil com Carlos Guerra, a título de exemplo. Porquê desperdiçar esse conhecimento?

RC > As redes sociais têm vindo a transformar-se num palco de propaganda política. Antevê que esta campanha, por força dos constrangimentos da pandemia, seja difícil?  
MS > Não queremos ser os líderes do Facebook. Tenho uma desconfiada confiança nas redes sociais. Há um efeito bolha que pode ser problemático. Já vimos que os melhores do Facebook não têm os mesmo resultados do ponto de vista eleitoral. Neste contexto de pandemia, a campanha será um desafio e será difícil fazer campanhas na rua e falar com pessoas. Mas faremos uma campanha fora da lógica tradicional, com o contacto direto que for possível. Terá de ser uma campanha criativa, tentando multiplicar o curto orçamento que temos. 

RC > A desinformação nas redes sociais vem reforçar ainda mais o papel da imprensa regional. Como olha para a influência das elites políticas nas publicações regionais?  
MS > Abrir e fechar a torneira, conforme o que se escreve, é inqualificável. Algumas câmaras do País conseguiram ter esse papel e atrofiar o papel do jornalismo. Certo é que a forma como os políticos lidam com a crítica tem de mudar. Não podemos confundir a dor pessoal com a dor adjacente ao cargo profissional. Um jornal não pode ser perseguido porque há cronista que critica a câmara. Tem de haver uma separação clara e os apoios têm de ter critérios muito claros. Como queremos uma democracia local sem uma imprensa local? Corremos o risco de rapidamente ficarmos completamente assimilados por uma cultura dominante. Ao enfraquecer o jornalismo local, estamos a ficar reféns das redes sociais.

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