Segunda-feira, Novembro 2, 2026
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Os donos do mundo e os seus joguetes

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Há cerca de um século, um autor, hoje, quase desconhecido (Oswald Spengler), publicou uma obra que se tornaria leitura obrigatória em cursos em que se abordasse Filosofia da História; chamava-se a obra O Declínio do Ocidente. Do pouco que me ficou de tal leitura, retenho a ideia de que a Europa (e, por extensão, o Ocidente) tinha terminado, em 1918, uma época de desenvolvimento cultural, não lhe restando outra coisa que não fosse um progresso em civilização.

Estas teses têm sempre algo de vaticínio profético, nunca ascendendo ao estatuto de verdades científicas. Desde 1918, já houve sinais que pareciam confirmar esta ideia de Spengler e outras tantas que pareceram desmentidos. Há, no entanto, sinais inquietantes que, cada vez com mais insistência, parecem indiciar alguma doença do Ocidente. Desde os descobrimentos, goste-se ou não do termo, e, sobretudo, desde a revolução industrial, a Europa, primeiro, e, depois, a América, tornou-se o centro do mundo, impondo uma ordem que parecia ter nos valores da democracia, do individualismo, da tolerância e do humanismo os seus vértices fundamentais.

O que se passa atualmente no Afeganistão é, do ponto de vista destes valores, muito preocupante. Por razões que tiveram a ver com a sua segurança, os Estados Unidos e os seus aliados desembarcaram, a ferro e fogo, no Afeganistão.

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Assim, ao longo de 20 anos, exerceram um domínio que contou no terreno com a colaboração de muitos afegãos que, agora, temem pelas suas vidas, acusados de traição por gente que não tem primado perlas boas maneiras. Igualmente as mulheres que não se resignam a um estatuto de menoridade estão em risco.

Para os donos do mundo, as pobres gentes não contam: entram e saem das suas vidas, de acordo com as suas conveniências. As cenas que nos chegam do aeroporto de Cabul são dramáticas e mostram, na sua crueza, o desespero que se apoderou de muitas pessoas, meros joguetes de uma civilização decadente. No entanto, infelizmente, esta é uma marca que vem de longe. Com efeito, já em 1518, já Gil Vicente dizia, através de uma das suas personagens “Nós somos vida das gentes / e morte de nossas vidas”. O homem já teve tempo para se tornar um pouquito melhor.

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