Sentada junto à lareira, direita, serena e com um olhar atento, ninguém diria que Celeste da Conceição, nos Montes, está prestes a completar 102 anos no próximo dia 1 de abril. A idade não se anuncia no corpo nem nos gestos, talvez na audição, mais fraca, e, por certo, no tempo que carrega consigo. Mais de um século de trabalho, perdas, resistências e de uma vida simples.
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Nasceu a 1 de abril de 1924, em Trovões, no concelho de São João da Pesqueira. Nunca foi à escola. Não sabe ler nem escrever, uma condição comum às raparigas do seu tempo, sobretudo no meio rural. Desde muito nova começou a servir em casas de patrões, como empregada interna. “Antigamente era assim”, recorda, sem amargura. Depois de casar, aos 21 anos, com o homem que escolheu para marido, natural de Penela da Beira, a sua vida passou a ser o campo. Trabalhou a terra, cuidou da casa e da família. Trabalhou sempre.
Teve sete filhos, mas duas meninas morreram ainda crianças. Mágoas com as quais aprendeu a viver. Hoje são cinco os filhos vivos. O marido, nascido em 1920, faleceu há 18 anos, depois de vários problemas de saúde. Morreu em casa, como a filha cuidadora sempre quis. “E ela também há de morrer em minha casa”, diz Maria de Fátima Carralas, com o olhar e a convicção de quem cuida por amor.
A centenária Celeste vive nos Montes desde 1994, numa zona rural da aldeia, para onde se mudou com o marido para junto da filha, que ali se fixara quatro anos antes. Às duas viúvas, mãe e filha, juntou-se, entretanto, a bisneta mais velha de Celeste, de 16 anos.
Apesar da idade avançada, Celeste é autónoma. Levanta-se sozinha, trata da sua higiene, faz a cama todos os dias, muda os lençóis quando é tempo disso e cuida do seu quarto. Gere o seu espaço com rigor. Ainda que com o (pouco) apoio de uma muleta, todos os dias faz uma caminhada até à estrada de alcatrão, a cerca de 250 metros de casa. Faz o percurso duas vezes por dia, o que se traduz num saudável quilómetro diário, sempre acompanhada pela cadela Estrela, fiel e inseparável guardiã.
A saúde de Celeste acompanha a sua longevidade. Não tem doenças diagnosticadas e apenas toma um comprimido por dia para a tensão arterial. “Está impecável”, garante a filha, que fala nos próprios seis comprimidos diários. Com a audição menos boa, a visão mantém-se invejável, sobretudo desde que foi operada com sucesso às cataratas.
A alimentação é simples e regular: sopa, carne ou peixe, batata cozida, arroz ou massa. Poucos fritos, nada de doces ou natas. “Só não como coisas difíceis de mastigar”, acrescenta apontando para a falta de dentes. Come o que sempre comeu, desde que se lembra ser gente. Talvez aí esteja parte do segredo.
No balanço da longa existência, Celeste não hesita em responder que foi “trabalhar. Trabalhar toda a vida”. Nunca esteve doente, nunca parou. Hoje descansa “porque as pernas já não deixam” e confessa o desgosto que tem de não saber ler. “Tenho pena, tenho”, repete Celeste.
Faz anos no Dia das Mentiras, muito longe da real, dura e inspiradora história dos seus 102 anos.

