“É um sentimento difícil de colocar em palavras”. É assim que Maria da Luz Caneiro, atual diretora técnica da Santa Casa da Misericórdia de Alcobaça, sintetiza o peso e a leveza de 25 anos de dedicação exclusiva
a uma causa. No concelho, é hoje a diretora mais antiga em funções nas misericórdias, um título que carrega não como um troféu de longevidade, mas como uma responsabilidade acrescida de ser “justa,
discreta e constante”.
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A história começou no virar do milénio. Em 2000, Maria da Luz aceitou o desafio de transitar da área do apoio domiciliário para assumir as rédeas técnicas de um projeto que ainda procurava a sua identidade.
À época, o edifício estava em fase de conclusão; era uma estrutura de paredes frias que precisava de ser moldada. “Começámos do zero”, recorda ao REGIÃO DE CISTER.
O que poderia ter sido apenas uma etapa profissional, tornou-se a sua missão de vida: entre as alegrias e as dores partilhadas com quem ali vive e trabalha, a diretora criou raízes que hoje são inabaláveis.
A diretora confessa que, ao longo dos últimos anos, o rosto da assistência social tem vindo a mudar: hoje, quando as pessoas chegam ao nosso lar, já apresentam quadros de demência ou fragilidade física muito acentuados”, explica. Esta realidade obrigou a instituição a uma especialização constante, focada na humanização, mas sustentada pelo profissionalismo.
Sob a sua direção, e com o apoio estratégico das sucessivas mesas administrativas que descreve como o “alicerce” de todo o rigor e visão da casa –, as respostas sociais multiplicaram-se. O apoio domiciliário foi reforçado e, mais recentemente, o surgimento das residências assistidas veio preencher uma lacuna há muito sentida na comunidade, oferecendo situações de qualidade para quem ainda mantém alguma autonomia.
Quanto aos desafios que lhe ficam na memória, Maria da Luz menciona o Covid-19, tempos que descreve de “medo, incerteza e um enorme desgaste emocional”. Foram noites sem dormir, o peso da responsabilidade de proteger os idosos e o sacrifício pessoal de estar afastada da própria família para garantir a segurança dos que dependiam de si. Contudo, é também aqui que a diretora encontra o maior motivo de orgulho, já que foi na crise que a força coletiva da equipa se revelou extremamente forte.
Para Maria da Luz Caneiro, a equipa é o motor de tudo – desde quem assegura a limpeza e a cozinha, até ao corpo técnico. A filosofia de liderança é tratar cada cliente como gostaria que os seus pais fossem tratados. É no detalhe do lenço bem posto ou no toque de um abraço que se encontra a verdadeira dignidade.
O olhar está posto no futuro e nas lacunas que ainda persistem. Gostaria de ver o apoio domiciliário dotado de equipas de enfermagem permanentes e criar equipas ainda mais especializadas no combate às demências.
A mensagem que deixa à comunidade é de que a Misericórdia de Alcobaça não é uma ‘fortaleza’ fechada, mas sim uma casa de portas abertas, na qual a presença das famílias e da população, é um fator importante para a felicidade dos idosos. E no fim de contas, para Maria da Luz, a palavra que define este quarto de século não é gestão, nem carreira, nem currículo. É, simplesmente, entrega.


