Há heranças que não passam por bens materiais, nem ficam escritas em documentos. Passam nos gestos repetidos ao longo dos anos, nas conversas do dia a dia, no exemplo silencioso de quem trabalha com dedicação e deixa marca sem precisar de palavras. No Dia do Pai, que se assinala hoje, o REGIÃO DE CISTER acompanhou, de perto, três histórias inspiradoras de filhos que seguiram as pegadas dos pais.
Este conteúdo é apenas para assinantes
Na Cela, Francisco Eusébio, de 34 anos, trabalha na agência funerária que o avô fundou [Paulo & Eusébio], e que o pai, Paulo Eusébio, de 62 anos, continuou, com os mesmos valores. Uma história que já atravessa três gerações e que Francisco carrega com orgulho.
As memórias dessa época são de um pai sempre disponível, a qualquer hora do dia ou da noite. “Foi através do seu exemplo que fui percebendo que este não é apenas um trabalho, mas uma missão de apoio à comunidade, ajudando as famílias a prestar uma última homenagem aos seus entes queridos com o cuidado e a dignidade que merecem”, conta Francisco, garantindo que, continuar o legado significa honrá-lo.
O ensinamento mais marcante foi a forma humana de estar com as pessoas num momento tão delicado. “O mais importante que aprendi foi tratar cada pessoa com respeito e dignidade, mesmo nos momentos mais difíceis. Em momentos de sofrimento, cada gesto conta para que as famílias se sintam respeitadas”, reitera.
No Dia do Pai, a mensagem é de admiração genuína. O alcobacense considera que “mais do que um profissional exemplar, é um pai presente e inspirador”. Deixa-lhe, por isso, um agradecimento: “obrigado por me ensinar, todos os dias a importância de fazer o nosso trabalho com humanidade”.
O pai, Paulo Eusébio, não esconde o orgulho: “Sinto-me muito orgulhoso por ver o meu filho seguir os meus passos na agência funerária. É uma profissão que exige respeito, dedicação e sensibilidade para lidar com as famílias num momento difícil. Saber que ele quis continuar este trabalho deixa-me muito satisfeito”.
Em Alcobaça, Mariana Figueiredo, de 29 anos, cresceu a ver o pai, Salomão Figueiredo, de 69 anos, sempre cheio de ideias e projetos. Fundador e alma da Lemos Figueiredo, Salomão sempre foi, para a filha, uma referência de espírito empreendedor e paixão pela tradição. Em 2013, Mariana e os irmãos transformaram esse espírito num projeto concreto: a Lemos Figueiredo, “uma marca nascida pela paixão pela Ginja e pela ligação à terra de Alcobaça”.
As memórias de infância têm o cheiro da garagem onde tudo começou. A alcobacense recorda os momentos em que realizaram as primeiras experiências com a ginja. “Lembro-me de observar todo o processo. Para mim, aquilo era quase uma extensão da nossa casa, um espaço onde se aprendia e experimentava e onde as ideias ganhavam forma”, conta Mariana.
Foi durante a pandemia que a ligação entre pai, filha e o amor que carregavam pelo projeto, se adensou. “Acabei por dedicar-me ainda mais ao lançamento da Lemos Figueiredo e por trabalhar mais de perto com o meu pai. Esse período acabou por nos unir ainda mais e fez-me perceber que era realmente isto que queria fazer. A partir daí já não quis mais sair de Alcobaça”.
O pai ensinou-lhe, acima de tudo, o valor do rigor e da dedicação. “Na destilação do Gin Casanova não há atalhos: é preciso respeitar o tempo, o produto e todo o processo. Foi algo que sempre vi nele e que hoje tento aplicar em tudo o que fazemos”, complementa.
Para além da profissão, foi também o pai quem lhe incutiu a curiosidade pelo mundo, pelo gosto em viajar e por descobrir outras culturas e gastronomias. Para a jovem, a dimensão emocional do percurso vai além do profissional, considerando que não é um negócio que herdou, mas sim um negócio que criaram juntos. “Mais do que seguir o caminho do meu pai, tive a sorte de poder construí-lo ao lado dele e isso é provavelmente a maior prova de confiança e de orgulho que um pai pode transmitir a uma filha”.
Para o pai, Salomão Figueiredo, o orgulho que sente é difícil de expressar por palavras. “Ser apontado como inspiração pelos meus filhos é, talvez, a maior recompensa de uma vida inteira de trabalho. Ver hoje a minha filha caminhar ao meu lado, com ideias próprias, sensibilidade e sentido de responsabilidade pelo território, enche-me de orgulho. Saber que aquilo que começou numa garagem, com experiências simples e muita paixão, se transformou num projeto de família com identidade e alma é algo difícil de explicar por palavras”.
Na Nazaré, Milton Estrelinha, de 29 anos, é Técnico Superior de Contabilidade, mas há uma segunda identidade que carrega com igual orgulho: a de bombeiro da Nazaré, tal como o seu pai, João Paulo Estrelinha, motorista, de 56 anos.
A ligação ao quartel começou ainda em criança, fruto da vivência do pai. “Desde muito novo que comecei a frequentar o quartel dos Bombeiros da Nazaré. Todo aquele ambiente fascinava-me, a prontidão com que saíam para cada ocorrência, a adrenalina de cada operação e, sobretudo, o espírito de missão de ajudar pessoas em momentos difíceis são coisas que sempre me marcaram”, relembra.
O “bichinho”, como o próprio lhe chama, nunca mais o largou. Em 2011 tornou-se Bombeiro Voluntário e, em 2015, no aniversário dos Bombeiros da Nazaré, após concluir as formações exigidas pela Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, tornou-se Bombeiro de 3.º Classe. Hoje, pai e filho integram juntos o Quadro Ativo – uma cumplicidade que vai muito além da farda.
Os ensinamentos que guarda são muitos, mas dois destacam-se. O primeiro é a consciência de que a dedicação nem sempre é fácil para quem está à volta: “São muitas horas longe da família e dos amigos, seja em serviço operacional, seja em formações”. O segundo, talvez o mais importante: “Dar sempre o melhor de mim em cada ocorrência, porque do outro lado estão pessoas que contam connosco num dos momentos mais difíceis das suas vidas”.
No Dia do Pai, as palavras são simples e sentidas: “Obrigado por seres o meu porto de abrigo em todos os momentos da minha vida. És alguém a quem espero sempre conseguir orgulhar”.
Bombeiro desde 1986, João Paulo, pai de Milton, afirma: “Ver o meu filho vestir a mesma farda é algo muito especial. Sinto uma enorme responsabilidade porque sei bem o que esta missão exige, mas ao mesmo tempo é um orgulho imenso perceber que o exemplo que dei ao longo da vida teve significado”, disse.
As três histórias são diferentes diferentes, mas unidas por um mesmo sentimento — o reconhecimento de que certas referências familiares acabam por moldar vocações. Em muitos casos, crescer a observar o compromisso diário do pai desperta uma ligação natural a algo, transformando memórias de infância em decisões de futuro.
Os casos de Francisco Eusébio, de Mariana Figueiredo e de Milton Estrelinha são apenas pequenos retratos de uma realidade muito mais vasta. Em todo o mundo, multiplicam-se histórias de filhos que encontram no percurso dos pais uma direção, não por obrigação, mas por amor, respeito e vontade de continuar a escrever capítulos dentro da mesma herança, seja ela profissional, social ou humana. No Dia do Pai, as histórias ganham um significado ainda mais especial porque mostram que, por vezes, o maior ensinamento não está no que se diz, mas na forma como se vive – e no impacto duradouro que isso deixa em quem cresce, observa, venera e ama.


