A passagem da depressão Kristin deixou no território mais do que árvores caídas e caminhos bloqueados. Em vários pontos da região, a tempestade expôs fragilidades antigas, entre solos empobrecidos, erosão acentuada e habitat’s cada vez mais vulneráveis. Foi desse cenário, feito de destruição mas também de urgência em cuidar, que nasceu o “Ser Floresta – Cuidar do território, cuidar de quem o habita”, projeto lançado pela DaTerra – Associação para o Desenvolvimento Sustentável, sediada na Mélvoa, União de Freguesias de Pataias e Martingança.
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A iniciativa quer responder aos estragos deixados pelo temporal, mas vai além da reparação imediata. A associação vê na intervenção uma oportunidade para enfrentar problemas antigos e pensar a regeneração do território a longo prazo. “O Ser Floresta é, antes de mais, um projeto de regeneração do território, o que vai muito além da reflorestação. A depressão Kristin foi o gatilho, mas estamos a responder a problemas que já existiam, como solos empobrecidos, ecossistemas fragilizados e uma relação com a floresta que se foi perdendo ao longo de gerações”, explica Joana Pinto, cofundadora da associação, ao REGIÃO DE CISTER.
Mais do que plantar árvores, o projeto propõe recuperar solos, reforçar a biodiversidade e envolver a comunidade. Uma das frentes previstas é a regeneração de um terreno florestal que funcionará como “laboratório vivo”, com soluções adaptadas ao território e passíveis de replicação.
Entre as prioridades estão o aproveitamento das árvores derrubadas pela tempestade, incluindo a criação de um biotriturador comunitário, a interplantação em áreas florestais e de matos nativos, ações de controlo da erosão e iniciativas de sensibilização para a prevenção de incêndios. A lógica, defende a associação, é simples. O que nasceu naquela terra deve ficar naquela terra, regressando ao solo em forma de matéria orgânica. “As prioridades são claras: recuperar o solo, aproveitar a biomassa gerada pela tempestade e reflorestar com diversidade e continuidade. Não queremos uma ação pontual, mas um compromisso duradouro com uma floresta mais resiliente”, sublinha a diretora e voluntária.
Ao mesmo tempo, a DaTerra quer reunir associações, empresas, entidades públicas e cidadãos numa resposta coletiva, defendendo uma gestão mais favorável à regeneração natural e à biodiversidade.
Numa primeira fase, a associação está a recolher manifestações de interesse e a consolidar uma rede de parceiros. “Há lugar para todos neste projeto. As entidades podem apoiar com terrenos, meios ou financiamento, as pessoas podem contribuir com donativos, trabalho voluntário ou presença no terreno. E, quando chegarem as ações no outono, vamos precisar mesmo de muitas mãos”, apela Joana Pinto.
O calendário aponta para a criação da rede de parcerias e o arranque da campanha entre março e abril, seguindo-se a angariação de fundos até agosto, a fase logística até setembro e as intervenções no terreno entre outubro e dezembro.

