Na região, há uma nova geração a procurar o seu caminho. Divididos entre a vontade de conhecer o mundo e o desejo de valorizar a terra onde cresceram, os jovens de hoje em dia enfrentam um dilema já clássico, mas com novos contornos: partir já não significa esquecer e ficar deixou de ser sinónimo de falta de ambição, tal como com provas as histórias de Maria Helena Monteiro, Francisco Fernandes e Pedro Melo, que cruzam percursos de vida muito diferentes, mas que se unem na busca por um propósito e no carinho que nutrem pelas suas origens.
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Aos 27 anos, Maria Helena Monteiro simboliza a determinação e a capacidade de reinvenção. Filha de um empresário agrícola e de uma professora de artes, a nazarena cresceu num ambiente onde a criatividade e a iniciativa sempre andaram de mãos dadas. Considera-se uma pessoa direta, desenrascada, acessível e dedicada, características que considera essenciais para o desenvolvimento pessoal e profissional.
Crescer na Nazaré, contudo, trouxe-lhe sentimentos ambivalentes. Durante a adolescência, a terra marcou-a por caminhos mais difíceis, levando-a a ponderar se ali seria o seu lugar. Hoje, com a maturidade que atingiu aos 26 anos, olha para trás com uma perspetiva reconciliada: “Na verdade, a Nazaré não foi uma terra onde quisesse ficar para sempre porque me marcou pelo lado negativo na fase da adolescência. No entanto, aprendi com o tempo que não resolvemos problemas ou traumas ao fugir deles, mas devemos sim aceitar o passado e resolvermo-nos interiormente. Por outro lado, considero que a Nazaré é uma terra de muita história, tradição e de força”, afirmou ao REGIÃO DE CISTER.
Quando chegou o momento de escolher o ensino superior, a pintura era a sua primeira paixão. Contudo, a necessidade de garantir empregabilidade fê-la optar pelo Design de Moda, curso que abraçou de espírito aberto – até porque a moda sempre esteve presente na sua infância, através da sua avó materna, que era costureira enquanto emigrante na Venezuela.
Sair da faculdade trouxe-lhe o choque de realidade comum a tantos outros jovens: a indústria da moda está fortemente concentrada nas grandes áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, e mudar de cidade sem suporte financeiro é uma barreira quase intransponível. Mas em vez de se deixar paralisar, Maria Helena expandiu os horizontes: fez uma pós-graduação onde descobriu a paixão pela fotografia e pela comunicação, e estudou finanças pessoais, gestão, redes sociais e investimentos. Hoje, além de dar aulas de Design de Moda, trabalha de forma independente como gestora de redes sociais, é fotógrafa de eventos e dá os primeiros passos num projeto próprio de empreendedorismo focado na evolução, na confiança e na valorização das mulheres.
“Não é necessário sair de uma cidade para sermos ‘alguém’. Devemos, sim, sair da cidade para nos desenvolvermos ainda mais a nível pessoal e profissional de forma drástica, caso seja esse o propósito. Não devemos ficar reféns do mundo da empregabilidade para termos um trabalho. Com a evolução tecnológica, podemos criar as nossas oportunidades. Pode demorar mais tempo, mas as coisas não se conquistam da noite para o dia”, concluiu.
E, se uns encontram o seu espaço nas raízes, outros precisam de ganhar asas fora de portas. É o caso de Francisco Fernandes, nascido e criado em Alcobaça, onde cresceu com a simplicidade típica da região e acompanhado por duas grandes paixões: o futebol e a facilidade nata em comunicar com as pessoas. Dono de uma personalidade bem-humorada e descontraída, sempre foi o elemento do grupo que fazia rir amigos e familiares com as suas constantes imitações e “palhaçadas”.
Concluiu o 12.º ano e chegou a frequentar a Faculdade de Letras, mas percebeu que o caminho seria feito através da experiência prática e do contacto direto com o público. Trabalhou na restauração, passou um ano na área da segurança privada e viveu uma das suas experiências profissionais mais gratificantes ao realizar visitas guiadas no Estádio da Luz, a casa do seu Benfica.
Contudo, em 2018, Francisco decidiu dar uma volta de 180 graus na sua vida. Deixou a tranquilidade de vida de Alcobaça para trás e emigrou para o Dubai, integrando a tripulação de cabine da Emirates. A mudança foi impulsionada pelo desejo de crescimento pessoal, pela oportunidade de viajar e conhecer culturas distintas, mas também pela vertente financeira – a possibilidade de auferir um salário substancialmente superior ao praticado em Portugal.
Hoje, após ter visitado dezenas de países e acumulado uma bagagem cultural transformadora, o alcobacense mantém a bússola apontada ao ponto de partida. Emigrar nunca foi um adeus definitivo, mas sim um meio para atingir um fim.
“Apesar de estar no Dubai, o objetivo nunca foi abandonar definitivamente Portugal. Pelo contrário. Desde o primeiro dia em que tomei a decisão de emigrar, sempre tive claro que queria regressar ao meu país”, assume.
A permanência no Dubai serve agora para acumular a estabilidade financeira necessária para o regresso. Planeia poupar mais, regressar numa situação confortável e, eventualmente, investir numa carreira ligada ao setor da aviação em solo português. Para o jovem, a distância só reforça as certezas: “Portugal é o lugar onde pertenço verdadeiramente. É precisamente esse sentimento que continua a alimentar o sonho de voltar para casa e construir o futuro no país onde acredito que poderei constituir família e ser verdadeiramente feliz”, sublinha.
A cerca de dez mil quilómetros do Dubai, na sempre gélida Noruega, está Pedro Melo, de 29 anos. Natural do Cadoiço, trata-se de um jovem simples, mas profundamente sentimental, que sabe e “valoriza o essencial da vida”. Completou o 12.º ano com o apoio de um programa do Estado português, um projeto que recorda com apreço, embora aponte uma crítica contundente à realidade laboral do país. “No entanto, isso não serve de nada porque uma pessoa com estudos e uma sem estudos acaba por receber o mesmo. Na Noruega, se tiveres estudos, acabas por receber mais do que se não tiveres, há uma valorização diferente”, compara de imediato.
Esta é a segunda passagem de Pedro pela Noruega. Trabalha na cozinha de um restaurante local, um emprego que encara como um viabilizador dos verdadeiros sonhos. Afinal, define-se mais como um criador do que como um cozinheiro: a verdadeira paixão reside nos desenhos e nas tatuagens.
A proposta salarial atrativa fê-lo regressar ao norte da Europa, onde o dinheiro se acumula com maior rapidez, permitindo-lhe financiar a sua arte e os projetos futuros. No entanto, o dia a dia na Noruega não é isento de desafios, a começar pelo mercado de arrendamento inflacionado, obstáculo que Pedro contornou ao arrendar um quarto a um colega de trabalho conhecido.
Ao comparar as duas realidades, destaca a organização quase milimétrica do sistema público norueguês. “Aqui as coisas são estudadas e feitas de forma inteligente. Está tudo muito bem estipulado e, pelo menos da minha experiência, o Estado funciona como deve de ser. É muito difícil estar ilegal aqui, ou ter estabelecimentos ilegais, e isso faz com que o país seja mais seguro e regulado. Os serviços funcionam de forma muito rápida”, adverte.
Mas nem o rigor do Estado norueguês, nem a neve constante, conseguem apagar a ligação que Pedro Melo tem ao Cadoiço. O sonho é simples, focado na autossuficiência e na ligação à terra: quer ter a casa própria, não dever nada a ninguém e cultivar a sua própria horta. Para lá chegar, sabe que necessita de passar por este período de sacrifício… longe de casa.
“Portugal é a minha casa, é vida, tem sol, tem praias, tem serra, tem uma infinidade de coisas que aqui não há. Se eu não pensasse com o coração, e se não fosse quem sou, ficaria aqui, porque a nível financeiro é mais inteligente. Mas sou quem sou e não quero mudar isso. Estou a aproveitar esta oportunidade, mas vou voltar para Portugal. Mesmo sabendo que jamais vou conseguir fazer dinheiro como aqui”, atira.
Quer optem por rasgar os céus do Médio Oriente, por construir novos caminhos criativos na costa portuguesa ou por enfrentar o frio do Norte da Europa para semear um sonho de autossuficiência, os testemunhos destes três jovens provam que a região não é um ponto de partida para o esquecimento, mas um porto de abrigo constante ou um ponto de chegada já definido. Ficar ou voltar são decisões que exigem coragem, mas o verdadeiro sucesso reside na capacidade de manter os olhos postos no futuro sem nunca perder a ligação à terra que os moldou, mostrando que a região continua viva e à espera de todos. Até porque o melhor caminho é o que se escolhe com o coração.


