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Num lar ou num centro de dia, a solidão pode instalar-se. A falta do que se era, da mobilidade, do pensamento e da vida de antes, pode bater à porta. Não ter a família por perto, por vezes nem o companheiro de toda a vida, pode pesar. No caso dos utentes dos lares em particular, a distância de casa pode ser corrosiva. Visceral. Mas há, pelo meio, um papel fundamental: o do cuidador. São pessoas que procuram atenuar estes pequenos (grandes) sofrimentos e torná-los menos evidentes. À conversa com o REGIÃO DE CISTER, os “especialistas” que estão na linha da frente explicaram como é cuidar e a razão pela qual se escolhe uma profissão que “dói na alma”, mas que também cura.
Letícia Carvalho tem 30 anos e exerce há cerca de oito, mas a terapia ocupacional chegou à sua vida “de forma inesperada”. Sempre quis enveredar pela área da saúde, porque sentia uma necessidade intrínseca de dedicar a vida profissional a ajudar os outros. Foi, no entanto, o avô, que esteve acamado durante 11 anos, quem a motivou, indiretamente, a seguir por esse caminho. “Quando comecei a estudar e a adquirir alguns conhecimentos na área, fui trabalhando com ele e estimulando diversas competências e o seu quadro foi mudando e acabou por melhorar algumas capacidades na altura”, diz. Em 2017, teve a oportunidade de estagiar no Lar Residencial de Évora de Alcobaça, da Santa Casa da Misericórdia de Alcobaça, onde se encontra atualmente empregada. Naquele espaço, percebeu que “era o que queria fazer para o resto da vida”.
Numa instituição onde existem atualmente 60 colaboradores, sendo apenas um deles do sexo masculino, Letícia começa o dia às 9 horas, com o treino de Atividades da Vida Diária, em que acompanha e capacita os residentes no banho, ajuda a vestir e na higiene pessoal, promovendo sempre a máxima autonomia e independência possíveis. Seguem-se as atividades de grupo, com uma sessão diferente todas as semanas (de movimento, de estimulação cognitiva, de literacia digital, entre outras), e o almoço no final. A tarde é dedicada à intervenção individual com cada sénior, com mobilizações articulares e estimulação sensorial, junto dos residentes mais dependentes.
Os desafios apontados pela jovem são vários. Além de considerar que o esforço físico é um dos maiores para os cuidadores, afirma que a profissão ainda está longe de ser totalmente valorizada. “O setor social faz autênticos milagres diariamente com os recursos que tem, garantindo qualidade de vida a pessoas em fases muito vulneráveis. (…) E convém não esquecer o essencial: todos nós, mais tarde ou mais cedo, podemos vir a precisar destes cuidados”, lembra.
Entre os momentos mais marcantes, recorda o de uma utente que oferecia muita resistência em participar nas atividades e que não saía do lar há 17 anos. Aos poucos, foi conseguindo ganhar confiança, o que fez com que começasse a participar nas sessões. Mais do que isso, com amor, carinho, paciência e muita dedicação, conseguiu levá-la a uma saída ao exterior. O que se seguiu foi, no mínimo, bonito: “Quando fomos à rua, ela ficou tão emocionada que se espantou com coisas tão simples como ver a roupa estendida ou os caixotes do lixo, coisas a que no dia a dia não damos qualquer atenção. Ver o impacto que aquele momento teve na vida dela foi avassalador”, sublinhou.
Já Mariana Sousa, de 27 anos, é animadora sociocultural na Casa da Família, no Acipreste, um centro de dia que conta atualmente com 11 colaboradoras, todas mulheres. A formação vai do curso profissional de auxiliar de saúde à formação na área administrativa e de animação sociocultural. Foi precisamente o estágio com que terminou o curso nestas últimas áreas que a levou até à Casa da Família onde é agora funcionária. “Trabalhar com pessoas idosas já era algo de que gostava muito, até pela experiência que tinha adquirido anteriormente como auxiliar de saúde”, confidencia.
O dia começa com a preparação das atividades que vai desenvolver com os utentes. “Realizo diferentes atividades de animação sociocultural, adaptadas às capacidades, aos interesses e às necessidades de cada pessoa, procurando estimular a memória, a criatividade, a mobilidade e a socialização”, explica. Mas, mais do que nas atividades planeadas, a beleza do trabalho destes cuidadores reside no que não é planeado: numa conversa, num carinho ou simplesmente na companhia.
Afinal, tal como acontece com Letícia, o que mantém Mariana na área são os laços que se criam com os utentes. “Para mim, é muito importante que eles sintam que, além de estarmos aqui para cuidar e acompanhar, também somos uma família para eles”, declara, acrescentando que conseguir arrancar-lhes um sorriso é um “abraço no coração”. Ainda que na Casa da Família sinta que o trabalho dos cuidadores é valorizado, a jovem admite que, aos olhos de quem vê de fora, nem sempre se reconhece a importância destes postos. São “profissões que exigem muita dedicação, paciência, responsabilidade e disponibilidade física e emocional”, resume.
Uma das coisas que admite ganhar desta missão são as aprendizagens. Cuidar de quem já foi pai, mãe ou irmão é cuidar de quem já cuidou. É ver nos olhos brilhantes de um idoso toda uma vida de experiências, umas mais cheias de amor, outras beliscadas pela dor. Ao longo destes anos, assume ter aprendido muito com os idosos. “Ensinaram-me a dar mais valor à vida e a aproveitar melhor cada dia. Ao ouvir as suas histórias e conhecer os seus percursos, percebemos que a vida passa muito depressa”, sublinha. Quando questionada sobre a mensagem que deixaria a uma jovem que queira enveredar por este caminho, é perentória: “Nem sempre é fácil, mas aquilo que recebemos em carinho, gratidão e momentos partilhados, faz tudo valer a pena”, atira.
À semelhança de Letícia e Mariana, para Ana Catarina Sousa, de 32 anos, auxiliar de ação direta no Centro Social da Freguesia de Famalicão da Nazaré, o que a move, passados sete anos, é “a entrega e o carinho”. Apesar de licenciada em Comunicação Social e Media, descobriu junto dos idosos uma paixão que não sabia ter. Ao REGIÃO DE CISTER confessa ser “impossível ser imparcial a tanto amor”.
No CSFF há 47 colaboradores, 45 dos quais mulheres e dois homens. O dia começa cedo no centro de dia com a partida da carrinha rumo a casa dos utentes. Já na instituição, segue-se a higiene pessoal. Às 12 horas é tempo de almoçar e, entre as 13 e as 14 horas, enquanto os utentes descansam, preparam-se os lanches e o jantar dos que levarão depois a refeição para casa. Ao final do dia, é hora de regressar ao ninho.
A aposta das instituições na formação reforça as competências de quem já nasceu para cumprir este desígnio. Ana Catarina destaca a formação em “Cuidados em Humanitude”, que consiste em aprender a cuidar de forma mais presente e humana, com foco na dignidade e na vontade da pessoa cuidada. “A nossa maneira de cuidar foi elevada a algo muito especial e muito mais consciente da verdadeira necessidade da pessoa”, garante.
Sobre o que aprendeu, Ana Catarina assegura: “aprendi a intensidade de amar sem cobrança. Eles não querem nada em troca, apenas um sorriso, um abraço ou a nossa companhia, só estar ali ao lado, de mão dada”, conclui. Mas… a perda destes seres queridos é inevitável e, de acordo com as colaboradoras, é também um dos maiores desafios. O apego e as memórias criadas com os seniores tornam difícil aceitar a sua partida. Ana Catarina admite que lida mal com o seu desaparecimento. Ainda assim, as memórias que guarda são felizes. “Houve dois utentes que me marcaram muito com a sua despedida. (…) Ainda hoje sonho com uma senhora, a Celina Neto, mas sempre coisas muito felizes.” E, para Ana Catarina, talvez esse sonho seja mesmo a Celina a visitá-la.
Mariana Sousa carrega, ainda hoje e talvez para sempre, uma dor difícil de apagar. Durante a pandemia de Covid-19, uma idosa faleceu-lhe nos braços. “Essa experiência marcou-me profundamente e fez-me perceber ainda mais a importância da presença, do carinho e da atenção que damos aos utentes”, sublinha.
Mas, afinal, como se “descansa” um coração que viu partir nos braços alguém de quem muito gostava? O REGIÃO DE CISTER tentou perceber, mas, tal como os entrevistados, também não tem uma resposta. Até porque não há como descansá-lo. Talvez o caminho seja aceitar que a vida finda e importa continuar, dia após dia, a fazer o melhor possível. É o que fazem estas profissionais, na sua grande maioria mulheres, que são cuidadoras, mas acima de tudo, e, por certo, pessoas de bom coração. O que nos dias de hoje, caro leitor, não há, mesmo, dinheiro que pague.


