Quinta-feira, Janeiro 15, 2026
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Instituição do Dia Nacional do Calceteiro tem marca da Póvoa

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A passada sexta-feira, 9 de janeiro de 2026, ficará gravada na memória de Manuel Reis, calceteiro da Póvoa, como um marco histórico na longa luta pela valorização de uma profissão que moldou ruas, praças e identidades ao longo de séculos. Foi nesse dia que a Assembleia da República aprovou por unanimidade a criação do Dia Nacional do Calceteiro e da Calçada Portuguesa, a celebrar anualmente a 22 de julho, num gesto de reconhecimento raro e simbólico para um ofício em risco de extinção.

Presente nas galerias do Parlamento, Manuel Reis acompanhou a votação que culminou num aplauso coletivo dos deputados e do presidente da Assembleia da República dirigido aos representantes da Associação da Calçada Portuguesa e do Núcleo de Calceteiros da Calçada Portuguesa. “Foi um momento muito histórico e gratificante para nós”, descreveu o calceteiro, visivelmente entusiasmado, sublinhando a importância do reconhecimento público.

A aprovação da data representa o primeiro passo institucional para a valorização de um saber-fazer que é património identitário do País – a calçada portuguesa. A proposta resultou de um trabalho persistente da Associação da Calçada Portuguesa, que tem vindo a alertar para o desaparecimento progressivo dos profissionais e para a necessidade urgente de preservar esta arte. O facto de ter sido aprovada por unanimidade dá-lhe um peso político e simbólico acrescido.

Manuel Reis não é um nome qualquer nesta luta. Calceteiro há quase quatro décadas, é um orgulhoso defensor da profissão, mas também um dos seus mais ativos mentores no processo de reconhecimento e valorização. Há seis meses, foi notícia no Região de Cister por se ter tornado o primeiro calceteiro do País a obter o Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências Profissionais, pelo Centro Qualifica da Câmara de Lisboa, em articulação com a Escola de Calceteiros, a única existente em Portugal. Essa certificação abriu-lhe portas para a formação de novos profissionais, mas, acima de tudo, deu-lhe uma nova voz pública.

Voz que tem sido usada para alertar para a realidade dura da profissão. O trabalho do calceteiro é fisicamente exigente, realizado muitas vezes sob sol intenso, chuva ou frio, com um desgaste rápido do corpo. “Quando chegamos aos 50 anos, todos temos problemas”, dizia Manuel Reis, enumerando lesões na coluna, pernas e pulsos. A par disso, a fraca remuneração continua a ser um dos maiores entraves à entrada de jovens na profissão. “É um trabalho muito duro e muito mal pago”, repete, consciente de que a paixão, só por si, não garante futuro.

Os números confirmam o alerta. Em Lisboa, onde em 1927 existiam cerca de 400 calceteiros, restavam em 2020 apenas 18, dos quais 11 no ativo. Uma quebra dramática que ameaça a continuidade de uma arte que levou Manuel Reis a trabalhar em países como a Suíça, Inglaterra, Escócia e Espanha, tendo recusado propostas mais lucrativas, como um convite para o Catar, para regressar à Póvoa, onde construiu vida e família.

Criativo e profundamente ligado à calçada portuguesa, Manuel Reis é também colecionador de milhares de fotografias de calçadas, criador de pequenos martelos em pedra que simbolizam a arte e autor de obras que considera verdadeiras ofertas à comunidade, como, entre muitos outras, o adro da Igreja da Póvoa, executado com colegas e assinado pelos quatro calceteiros envolvidos.

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