Jorge Rito: "Devo a minha carreira ao ABC de Braga"

Jorge Rito nasceu em Marrazes, mas ao dois anos de vida foi viver com os pais para Alcobaça. Na cidade deu primeiros passos como andebolista (GD Nutrigado) e até no futebol (Ginásio). Aos 18 anos rumou à antiga URSS para frequentar um curso de Educação Física com a especialização em andebol e muda-se para Braga para apostar na carreira desportiva. O técnico alcobacense falou com o REGIÃO DE CISTER e fez um balanço de quase três décadas em Braga, não esquecendo os primeiros passos...em Alcobaça.

REGIÃO DE CISTER (RC) > 29 anos no ABC de Braga. É uma vida de dedicação ao clube?
Jorge Rito (JR) > Quando fui para o ABC, em 1987, para ajudar a montar um projeto de Escola Desportiva de Andebol, era um treinador desconhecido. Fiz o meu caminho de treinador desde os infantis até à equipa sénior, sempre rodeado de pessoas que me ajudaram imenso. Hoje olho para trás e não mudaria as opções que tomei. Se hoje sou conhecido no andebol português, devo tudo ao ABC de Braga. 

RC > A conquista dos campeonatos em 2005/2006 e 2006/2007 foram especiais?
JR > Todos os títulos nacionais, desde os juvenis, juniores e seniores foram especiais. No entanto, o bi-campeonato que ganhei entre 2005 e 2007 teve um sabor diferente. Foi a primeira vez que fui campeão nacional de seniores como treinador principal.

RC > No currículo conta com duas finais europeias...
JR > A primeira final da Liga dos Campeões em 1994 foi conseguida com uma das melhores equipas de sempre do ABC, a base da Seleção Nacional. Esta presença veio confirmar o poderio desportivo da equipa do ABC na década de 90. A final da Taça Challenge, em 2004, foi também um momento importante, uma vez que o ABC estava a tentar reerguer-se na Europa e, através dessa equipa, começámos a lançar as sementes que acabariam por nos trazer os dois títulos nos anos seguintes.

"A primeira vez que, enquanto treinador do Benfica, pisei o Flávio Sá Leite, arrepiei-me com a receção que me fizeram. Senti que um dia ia voltar".

RC > Em 2011/2012 ruma ao Benfica, no qual está três temporadas. A experiência ficou longe da expetativa?
JR >  Foram três anos a trabalhar num clube “grande”, com condições que ainda não tinha visto. Tínhamos como principal objetivo o título nacional e o melhor que conseguimos foi um 2.º lugar na  segunda época e uma Supertaça. Convidaram-me para renovar uma terceira temporada e pensei que poderíamos finalmente ganhar o título. Infelizmente não conseguimos e ambas as partes concordaram que ali o meu ciclo tinha terminado.

RC > Regressa então a Braga...
JR > O convite para treinar as águias foi um grande desafio para mim, dado que até então só tinha saído uma época para o Fafe. O ABC compreendeu que a saída era inevitável mas sempre mostraram que esta não deixava de ser a minha casa. A primeira vez que, enquanto treinador do Benfica, pisei o Flávio Sá Leite, arrepiei-me com a receção que me fizeram. Senti que um dia ia voltar.

RC > Esta temporada o clube termina em 6.º lugar. Foi uma época dentro das expetativas?
JR > Digo isto com muita amargura mas a realidade do ABC não permitia no início da época ter grandes ambições desportivas e já perspetivava imensas dificuldades para entrar no Grupo A. O orçamento tinha baixado, saíram vários jogadores influentes e tínhamos muitos jogadores jovens a entrar na equipa principal. Acabámos por fazer uma época excecional, pois entrámos no grupo dos melhores e conseguimos realizar boas exibições apesar da juventude da equipa.

RC > O FC Porto deveria ter sido declarado campeão? 
JR > O FCP no final da 1.ª fase do campeonato estava à frente e ainda não tinha perdido qualquer jogo. Devia ter sido campeão porque na verdade foi a melhor equipa.

RC > Quais são as perspetivas para a nova temporada?
JR > Vamos ter a saída de dois atletas mais experientes da equipa e na próxima época teremos certamente a equipa mais jovem do campeonato. Iremos jogar para ficar no grupo A.

RC >  Como vê a aposta de clubes como Cister SA e Dom Fuas AC na formação?
JR > Fico muito feliz por ver que o andebol em Alcobaça e na Nazaré é uma forma de centenas de jovens ocuparem os seus tempos livres, tal como eu e os meus amigos fazíamos quando eramos miúdos. Há bons treinadores na formação  e Alcobaça e Nazaré são um bom exemplo disso. 

RC > Chegou com dois anos de idade a Alcobaça, de que forma foi importante a cidade na formação pessoal e desportiva? 
JR > O desporto sempre fez parte da minha vida. Quando me recordo dos tempos de miúdo lembro as horas infindáveis que passávamos no pavilhão a jogar andebol, basquetebol, o importante era ter uma bola, mas houve uma pessoa que me influenciou definitivamente e me marcou como exemplo de homem e treinador: o professor Fernando Rodrigues. Tal como eu, muitas dezenas de colegas dessa geração tiveram esse privilégio de ter um grande pedagogo e amigo.

RC > O que falta ao andebol para ter mais destaque nos noticiários, jornais e televisões? 
JR > Faltam resultados de expressão mundial mais regulares. Veja-se o que se falou de andebol nas televisões, jornais, rádios, com o desempenho da Seleção Nacional no Europeu. É preciso dar continuidade a esses magníficos resultados. Os resultados do Sporting e FC Porto na Liga dos Campeões contribuíram imenso na melhoria da imagem do andebol português.