Palmira Santos foi a “guardiã” dos meninos da escola primária de Pataias

Para muitos foi uma segunda mãe. Durante 25 anos, Palmira Santos acautelou o bem estar dos meninos da Escola Primária de Pataias, onde entrou já no final dos anos 70 do século passado e depois de um percurso de vida sofrido e marcado pelo trabalho árduo.

Era ela, hoje com 90 anos feitos em dezembro, que garantia que nenhuma criança se levantava do refeitório antes de ter o prato acabado. Muitas vezes ia buscar os mais ousados à rua, quando eles sorrateiramente fugiam para o recreio. E ditava o castigo, sempre com a bênção dos pais, que agradeciam o gesto da senhora.

São muitos os hoje adultos  recordam a infância junto de D. Palmira, que chegou muitas vezes a pedalar até casa para arranjar roupas secas quando alguma criança não conseguia evitar uma molha nos dias em que a chuva não dava tréguas.

Também era a ela que cabia ir às compras para a cozinha da escola, mas não hesitava quando era preciso ir à procura dos faltosos e os levava à escola, tantas vezes à boleia na sua bicicleta. São memórias que Palmira Santos tantas vezes repetiu nos relatos de outrora, mas hoje a história da sua vida é contada pelas filhas, Abília e Cristina. Há uns anos que a memória atraiçoa a nonagenária. O Alzheimer foi mais forte do que Palmira. Esta é a sua história e é um relato de vida que merece ser contado.

Tinha 8 anos quando abandonou a escola. Conseguiu acabar o 3.º ano da primária, mas escolheu parar de estudar, ou foi forçada a fazê-lo, pelas vicissitudes da vida. Eram tempos duros e de privações e Palmira era uma de sete irmãos. Cedo percebeu que para largar os trapos velhos que vestia, tinha de se fazer à vida.

Assim fez. Foi servir para casa de outros como ama de crianças quando ela própria era ainda uma menina. Desde cedo percebeu o carinho que tinha pelos mais novos. “Ela sempre gostou muito de crianças”, confidencia Abília Neves. Depois da primeira experiência como ama, Palmira Santos trabalhou na padaria da Maria Lúcia “do Pomba” e com apenas 10 anos levava o poceiro à cabeça carregado de pão a pé para a Martingança. Foi na aldeia que serviu depois noutra casa particular, que lhe deixou más memórias. Seguiu-se uma outra família, em Pataias-Gare, “onde foi sempre bem tratada”, conta Cristina Neves.

O trabalho no campo e a roupa, que lavava para outros junto à Boubã, em duros percursos sempre a pé, foram outras das ocupações da nonagenária, que ainda trabalhou, já adulta, como empalhadeira para dois empresários. Tudo antes de se habilitar ao concurso para a “escola nova”, onde desempenhou as funções de cozinheira, mas fazia de tudo um pouco. E “nunca saía de casa sem deixar o almoço feito para a família e ainda cozia fornadas de pão”, lembra Abília Neves.

Da escola saiu quando se reformou e foi lá que criou e deixou as melhores memórias. As suas e as de todos os meninos que ajudou durante os primeiros anos de vida escolar.

Hoje Palmira Santos é uma senhora que precisa de ajuda para quase tudo. Ela sabe e agradece sempre. “Obrigada”, diz, prontamente, quando o REGIÃO DE CISTER acaba a entrevista. Obrigado nós, D. Palmira!