Restaurante O Alberto: Quase quatro décadas a abrir o apetite na Martingança

A história dos lugares também se faz de sabores e paladares, tanto que o arroz de tamboril, a carne de porco à alentejana ou o bacalhau à casa do restaurante O Alberto deram fama à Martingança já há várias décadas.

Alberto Agostinho é o homem atrás do sucesso da casa que nasceu, faz este mês 39 anos, como petisqueira, um espaço pequeno mas muito concorrido graças à ameijoa, ao berbigão, à salada de orelha ou ao chispe que servia sem mãos a medir. Quando abriu o próprio negócio, em 1982, Alberto, então com 26 anos, já tinha um extenso currículo na restauração. Afinal, a vida difícil no concelho de Torres Vedras, na casa materna, onde se contavam 12 filhos, fez o pequeno Alberto abandonar os estudos com apenas 11 anos e a 4.ª classe.

Era preciso trabalhar desde cedo e quis a sorte (ou a falta dela) que Alberto fosse servir para um restaurante no Ribatejo, para onde foi descalço e onde contava trabalhar a troco de umas sandálias. Nunca as recebeu. Em vez disso, ganhou uma tareia do patrão e fugiu a pé, ainda descalço, até que foi resgatado por militares da GNR, que o levaram para o posto, lhe deram de jantar e acertaram contas com o patrão abusador.

Regressou ao restaurante, onde esteve algum tempo, não se lembra bem quanto. Acabou por sair dali direito à Marinha Grande onde tinha dormida porque na cidade já trabalhavam dois dos seus irmãos. Até aos 14 anos serviu em diferentes cafés e numa pensão. Seguiu-se a fábrica de vidro Manuel Pereira Roldão,  onde Alberto fez os primeiros descontos para a segurança social. Graças a alguns desacatos com um irmão, resolveu regressar a Torres Vedras, para casa da mãe, que depressa  o mandou para Lisboa arranjar enprego.

Foi na capital, no Restelo, que ganhou experiência e onde aprendeu muito de cozinha. Foi depois de começar a namorar com a mulher, natural da Martingança, que se mudou para o norte do concelho de Alcobaça, e onde abriu primeiro a petisqueira, que foi sofrendo obras de alargamento e hoje é o restaurante com várias salas e espaço de buffet.

“Até vir o euro correu muito bem”, analisa o empresário, para quem só a pandemia se revelou pior que o fim do escudo. Só vai conseguir reabrir no dia 19, mas nem assim está animado porque os dois fins de semana seguintes são de restrições de circulação e é aos sábados e domingos que a casa melhor trabalha. “Este segundo confinamento foi muito pior do que o primeiro, porque agora foram três meses de encerramento”, reflete Alberto Agostinho, que no verão anterior passou “de 120 clientes por dia para cinco ou seis”.

Agora está decidido em vender o espaço, onde tem feito melhorias ao longo dos anos. Ele sabe que nenhuma das três filhas quer agarrar o negócio. A falta de sucessão, o golpe da pandemia, os seus 65 anos e os 51 que já leva de descontos fazem-no repensar a vida.

Até conseguir encontrar um novo proprietário, deixa o convite para saborear os pratos que sempre levaram multidões de concelhos vizinhos à pequena aldeia da Martingança.