Quinta-feira, Julho 7, 2022
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Benvinda tem 109 anos e é uma mulher cheia de amor

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Fevereiro de 2014. Sentei-me ao lado de Benvinda. Ficámos sozinhas. Eram 108 anos de vida em frente aos meus olhos. O meu coração batia forte. Estava prestes a escutar a história de uma mulher especial. 

Fevereiro de 2014. Sentei-me ao lado de Benvinda. Ficámos sozinhas. Eram 108 anos de vida em frente aos meus olhos. O meu coração batia forte. Estava prestes a escutar a história de uma mulher especial. Quando crescemos a amar os mais velhos, e rodeada deles, sentimos uma dívida de gratidão. Pelas mãos que nos deram e pelos abraços que jamais esqueceremos e que nos confortam em dias mais “frios”, mesmo que estejamos em pleno verão. 

Durante mais de uma hora, dei-lhe a mão. Deu-me a sua. Ouvi a sua história. Benvinda ouviu a minha. Nem sempre temos boas recordações dos momentos pelos quais passámos, ainda assim podemos ter o coração cheio de amor e ter um sorriso e palavras amigas para oferecer. 

Houve momentos em que as lágrimas caíram. Sem medo. Houve outros em que as gargalhadas contagiaram todos aqueles que estavam perto de nós, na Santa Casa da Misericórdia de Alfeizerão. Benvinda Matias viveu até aos 100 anos com a nora em Lisboa. A lida da casa, tomar banho sozinha, passar a ferro nunca foram qualquer problema até àquela idade. 

Nasceu em 1906 em Monte Frio, no concelho de Arganil (Coimbra), ainda durante os reinados de D. Carlos I, seguido, após regicídio, por D. Manuel II. Viveu a implantação da República a 5 de outubro de 1910. É do tempo de Salazar que Benvinda recorda os piores momentos da sua vida. “Foi um tempo de escravatura”, reviveu, através dos seus pensamentos, os momentos pelos quais passou. 

A vida trouxe-lhe outros momentos de dor. A perda dos dois filhos. Um nasceu morto. O outro morreu com 70 anos. Quando ficou viúva foi viver com o único filho que cresceu consigo. Ajudou a criar os netos. Com eles partiu para Moçambique, regressando após a revolução de Abril. Por lá ficaram, durante longos oito anos. 

Quando se vive durante mais de dez décadas, o passado é o que se tem mais na memória presente. Talvez, por isso, Benvinda se lembre com nitidez dos lugares onde viveu e dos trabalhos pelos quais passou. No Mercado da Ribeira, em Lisboa, carregou caixas de fruta. “Foram tantas e tantas as que passaram por mim. Deformaram-me a parte superior da cabeça”, disse apontando e massajando a sua mazela. 
A 17 de fevereiro de 2014, quando me sentei a seu lado, Benvinda comemorava 108 anos. Foi um dia de festa. Sorriu e bateu palmas ao som da tradicional música portuguesa de parabéns, consciente da grande caminhada da sua vida. 
Prometi-lhe que voltava. Não o fiz nas semanas e meses que se seguiram. Em fevereiro deste ano lembrei-me de Benvinda e que, provavelmente, já não estaria pela Misericórdia de Alfeizerão. 

Outubro de 2015. Estava errada. Um outro trabalho levou-me à instituição há pouco mais de duas semanas. Tinha que perguntar por esta senhora com quem tinha dividido uma inesquecível tarde da minha vida. 

Levaram-me até ela. Estava sentada na sua cadeira, a lanchar. Os seus olhos estão mais caídos, mas continuam a brilhar com a mesma intensidade com que os conheci. As rugas mal se notam. E os cabelos continuam branquinhos e belos. 

Dei-lhe um abraço. Possivelmente, já não se lembrava de mim. Voltou-me a falar em Deus: “Temos de aceitar, com amor, tudo o que Ele nos dá. Deus a quem promete, nunca falha. Se cada um vivesse com o que quer, ninguém se entendia no mundo”. Palavras profundas e de reflexão… 

O segredo da longevidade desconhece, mas testemunha que sempre foi boa pessoa e que não guarda ofensas de ninguém. 

Em fevereiro do próximo ano, Benvinda comemora 110 anos. Espero reencontrá-la em breve. E, dessa vez, sentar-me novamente a seu lado e escutar o que tem para dizer. Dar-lhe a mão e ficar por ali entregue aos seus pensamentos e aos meus. A idade é uma pedra preciosa. Um diamante esculpido pelas aprendizagens, pelo saber acumulado. 

Benvinda é uma mulher que jamais esquecerei. É uma mulher de sorriso tranquilo e um olhar cheio de paz…

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