Quinta-feira, Julho 7, 2022
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25 de Abril pelo olhar da região

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O REGIÃO DE CISTER assinala o 25 de Abril com uma viagem pelas freguesias dos concelhos de Alcobaça e Nazaré. Fomos falar com as gentes da nossa região, procurando saber que memórias guardam da revolução dos cravos e perceber o que mudou nas suas vidas desde o golpe que fez cair a ditadura de Oliveira Salazar.

O REGIÃO DE CISTER assinala o 25 de Abril com uma viagem pelas freguesias dos concelhos de Alcobaça e Nazaré. Fomos falar com as gentes da nossa região, procurando saber que memórias guardam da revolução dos cravos e perceber o que mudou nas suas vidas desde o golpe que fez cair a ditadura de Oliveira Salazar.

19 de abril de 2016. O REGIÃO DE CISTER parte em busca de um cravo vermelho para dar voz às memórias do 25 de Abril de 1974 das gentes dos concelhos de Alcobaça e da Nazaré. Pelo caminho encontrou quem tivesse a trabalhar, a estudar ou em casa quando se soube da revolução através da rádio. Mas a principal dificuldade foi encontrar um cravo vermelho, já que só à quarta tentativa encontrou um florista com a flor que simboliza a revolução. A volta de abril do semanário iniciou-se assim com o testemunho de António Branco.

O florista tinha 14 anos quando se deu o 25 de Abril. “À hora que aconteceu estava em casa dos meus avós, onde vivia à data. Quando acordei para ir para a escola eles comunicaram-me que tinha havido qualquer coisa em Lisboa. Fui para a escola à mesma mas disseram-se que se houvesse confusão para voltar para casa. Ninguém tinha bem a noção do que se estava a passar”, recorda o alcobacense. Os efeitos da revolução foram sentidos logo dias depois: “Começaram a sair normas interessantes. Os alunos que já tivessem média de 10 nos períodos anteriores estavam dispensados de frequentar o 3.º período. Mas por imposição de casa continuei na escola, mas também lá só havia reuniões gerais de alunos e greves“.

Maria do Carmo Ricardo, natural de Casal do Pereiro, tinha 42 anos. “Sabe o que é aconteceu nesse dia? Não havia luz em Casal do Pereiro, estávamos à espera para fazer uma grande inauguração, mas no dia da revolução inauguraram logo a luz sem ser preciso nada“. O marido, Joaquim Pedro Júnior, de 89 anos, confirmou que “houve uma noite inteira de luz grátis“. “Ouvi na rádio que a revolução estava na rua. Foi um espetáculo”, recorda.

Próxima paragem: Turquel. Fernando Tomás estava a trabalhar.

“Era pedreiro, tinha 17 anos, soube pela rádio de manhã mas nesse dia a minha vida continuou normalmente. Não tinha conhecimento nenhum sobre a política, na província chegava pouco ou nada. Não havia nenhuma razão para comemorar”. A revolução para o comerciante chegou anos mais tarde: “Se não fosse o 25 de Abril hoje não estava vivo. Isto porque, a seguir à revolução houve uma evolução muito grande em termos dos serviços de saúde e eu, com 22 anos, fiquei dependente de uma máquina de hemodiálise para sobreviver. Antes do 25 de Abril isto não existia e nem era possível uma vez que os tratamentos são muito caros“, adianta Fernando Tomás, confessando que hoje em dia quando assiste às comemorações se comove. Horácio Raimundo estava emigrado em França quando se deu o golpe militar de 1974. “Apercebi-me que tinha havido qualquer coisa mas o dia foi completamente normal“, confessa o beneditense de 74 anos. Mesmo sem ter comemorado a revolução que transformou Portugal numa democracia, admite que “foi a melhor coisa que aconteceu”.

A viagem prossegue, não ao som de “Grândola Vila Morena”, mas de “Dia de folga“ de Ana Moura. Nem de propósito. O carro do REGIÃO DE CISTER para mesmo ao lado de Maria de Jesus, no Vimeiro. ”Lembro-me que o meu marido estava a fazer a barba e veio a correr dizer-me que estava a ser o 25 de Abril. Antes, a 16 de março, já se tinha dado em Caldas da Rainha uma tentativa do golpe. E como ele trabalhava lá comentou comigo quando ouviu na rádio as notícias: ‘Se não foi naquele dia foi hoje’”,

recorda a vimeirense de 79 anos.

No caso de Manuel Bernardo, natural do Bárrio, o 25 de Abril aconteceu três meses depois de ter regressado de Angola, onde tinha estado a cumprir serviço militar nos últimos 26 meses. “Quando se deu a revolução trabalhava na Crisal, soube pela rádio. Passaram os avisões T6, por cima de Alcobaça, a malta ouviu e tudo perguntava o que se passava, ficámos nervosos.

Quem veio das ex-colónias, como era o meu caso, sabia que entretanto estava para rebentar, quando é que não se sabia”, recorda. “Dias antes do 25 de Abril, na festa de São Gregório, um grupo de amigos começou a cantar Grândola Vila Morena, mas eu não sabia o que era. Houve logo dois ou três informadores da PIDE que começaram a ameaçar e quatro foram logo chamados”, conta Manuel Bernardo de 65 anos.

Na freguesia vizinha da Cela a história que se segue é de Vítor Santos, que estava precisamente na guerra colonial, em Angola, curiosamente numa localidade chamada Salazar. “Fomos tomar um café quando soubemos da notícia do golpe de Estado em Portugal. O quartel já não era do capitão, era nosso. Foi uma alegria para todos os tropas. Andámos com os carros do exército para baixo e para cima, os civis ficaram logo contra porque já sabiam o que ia acontecer. É um dia que nunca se esquece. O 25 de Abril trouxe-me a liberdade”, relembra o homem, a quem a revolução lhe deu também a liberdade para amar e consequentemente a mudar-se para a Cela, até aos dias de hoje, isto porque a mulher é natural daquela freguesia.

A volta segue para a terra conhecida por defender a liberdade de Portugal. Falamos, claro, de Aljubarrota, de onde Torcado Carreira é natural. “Estava a trabalhar numa fábrica em Porto de Mós quando rebentou a bomba. Sei que a telefonista estava sempre a ouvir a rádio e quando ouviu aquilo comunicou a todos os trabalhadores”, conta.

Em Alpedriz é Arnaldina Fernandes, de 69 anos, que dá o testemunho ao REGIÃO DE CISTER. “Quando liguei a rádio pensei ‘ai Meu Deus, é uma revolução que se está a formar’ e assim foi. A minha filha perguntou-me o que se passava e eu disse que não sabia explicar e pedi para esperar pelo pai, que era motorista e estava em Lisboa”, adianta.

Segue-se Pataias. Basílio Gil estava na Alemanha a trabalhar, quando soube do acontecimento pela televisão. “Andámos pelas ruas da cidade de Dortmund a festejar depois do trabalho. Era um mar de gente, foi uma alegria. Andei na tropa e sei o que sofri no regime da ditadura”, confessa.

Já na Maiorga, Maria do Rosário Sousa conta que estava em casa por estar grávida de 7 meses. “Ouvi a notícia na rádio de manhã, fiquei toda contente porque era trabalhadora na Elias & Paiva, eu e outras colegas andávamos de noite em casa de amigos onde havia certas reuniões. Não tive medo porque estava em casa, mas se tivesse na rua devia ter tido medo“, conta a mulher de 62 anos.

Etelvina Amado estava a apanhar erva para o gado com o marido. “Levámos uma telefonia pequenina, mas depois já não apanhamos erva nenhuma”, brinca a valadense, que confessa não ter percebido, à data, a dimensão da revolução dos cravos.

Junto ao Porto de Abrigo da Nazaré ouve-se o testemunho de Mário Meco. “Estava a trabalhar no Urbisol. Estava um dia bonito de sol e disse para o meu colega que estava tudo muito parado e calmo e comentei que não sabia se se passava alguma coisa. O meu colega quando veio do almoço disse-me que tinha rebentado o 25 de Abril. Como nunca tinha ouvido falar em fascistas, perguntei o que era. Ele respondeu que tinha acabado a guerra em Angola e que os soldados iam voltar“.

Já em Famalicão, José Manuel Cristino narra que tinha 14 anos e estava na escola em Caldas da Rainha.”Nem me apercebi da notícia. Soube do golpe dos militares em Caldas da Rainha, em março, porque estava lá e ouvi tiros. Mas o 25 de Abril só soubemos quando os professores nos mandaram para casa à tarde, alertando para que tivéssemos cuidado na rua”, recorda.

A poucos quilómetros dali o carro do semanário parou em São Martinho do Porto e encontrou José Bento, que estava nos Estados Unidos durante o 25 de Abril. “Vivi a data com um grande entusiasmo porque tinha partido de Portugal no dia 3 de novembro de 1973. Se não fosse casado tinha vindo logo embora. Foi uma transformação tão grande que queria vivê-la porque vivi os tempos antes”, confessa o homem, admitindo ter sido um dos lutadores da ditadura e participado em comícios impensáveis no tempo de Salazar.

A última paragem é em Alfeizerão. Maria Amélia Fialho, que trabalhava no campo e criava animais, confessa que ficou “muito assustada a pensar que vinha aí a guerra”. Só mais tarde percebeu que se tratava de uma revolução pacífica. Tal como o tema de Ana Moura indica que “faz-nos falta renovar“, haja “baterias” neste dia de folga, que na segunda-feira se assinala. E você, onde estava no 25 de Abril?

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