Quarta-feira, Agosto 10, 2022
Quarta-feira, Agosto 10, 2022

As escolas não se medem aos pontos (?)

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Este foi o título do último programa “Linha da Frente” da RTP. A interrogação é minha, pelo que convido os leitores a uma reflexão sobre este asunto controverso.

Não há dúvida que a publicação dos primeiros rankings, nos primeiros anos do milénio, se revelou ser uma publicidade injusta, oficial e gratuita, às escolas privadas, bem como às escolas públicas mais elitistas e menos inclusivas. Não é necessário pôr em competição um Dacia com um Porsche para saber qual deles atinge mais velocidade. Isso, porém, não autoriza ninguém a dizer que o Dacia é pior – como se todos pudessem escolher comprar Porsches. Pelo contrário, há pessoas que, com um Dacia, conseguem ser eficientes, e felizes, ao passo que outras, mesmo com Porsches, não saem da cepa torta. Esse foi a linha de argumentação do programa, evidenciando alunos de escolas mal colocadas nos rankings com carreiras brilhantes: designers de jóias, de automóveis.

Daqui podemos inferir que as escolas não se medem aos pontos? 

Penso que não devemos ir por aí: exceções são exceções e não põem em causa regras gerais. Os génios não se explicam,  não se podem prever. Mas existem. Em Alcobaça, em Aljustrel ou em qualquer outra terra menos ilustre.

Daqui podemos inferir que as escolas não se medem aos pontos? 

Então medem-se a quê? Defendia Peter Drucker que não podemos gerir aquilo que não podemos medir. Admito que seja um exagero. Porém, se não nos compararmos (Dacias com Dacias, Porsches com Porsches), como nos poderemos analisar, saber em que estado estamos?

O mesmo Peter Drucker dizia que o  planeamento não diz respeito às decisões futuras, mas às implicações futuras das decisões presentes. Se assim for, como podemos tomar decisões sem dados?

Em vez de citar Drucker, autor que provoca alguma justificada urticária, poderia citar mil e tantas citações de Khalil Gribran, um autor que nos seduz pela sua poesia / filosofia intimista, esteticizante… No entanto, o mundo é muito cru: algures, na Ásia, mas também nas “europeias” Polónia, Bielorrússia e Hungria, está a desenvolver-se um modelo de civilização, que nos deve arrepiar, com partidos únicos, com dirigentes que, tendo “pena das crianças”, mantêm opositores presos, com tenistas que desaparecem, com jatos de água gelada sobre pessoas com frio, mas que foram postas ali por gente sem escrúpulos … Porém, esses crápulas estão gordos e fortes. Sabem fazer contas, ensinam o sacrifício (até ao estertor, até aos confins da decência), como modo de chegar ao sucesso. Não os devemos copiar, mas, se não os tivermos em conta, vamos ser engolidos por eles – o que seria uma tragédia civilizacional.

Embora repudiando o modelo de sociedade acima aludido, não consigo esquecer a imagem da vitela contente, que não faz contas, a caminho do matadouro.

 

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