Segunda-feira, Novembro 2, 2026
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Solilóquio marcelista

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O que é que nos faz exorbitar das nossas competências, sobretudo quando somos considerados competentes naquilo que é a nossa competência? O que é que me fez despachar um pedido (ou não terá sido um pedido?) do Dr. Nuno Rebelo de Sousa, aliás, meu filho, sobre pessoas luso-brasileiras, de alto gabarito, mas que, mesmo assim, não tinham o dinheiro suficiente para gastar milhões com o tratamento mais caro do mundo? Eu, que passo o tempo a falar do irritante otimismo do Costa, eu, que passo o tempo a falar da ineficácia da gestão dos serviços públicos da educação e da saúde, porque é que me lembrei desta trapalhada? – se é que me lembrei porque, ainda há bem pouco tempo, não me lembrava de ter falado com o Dr. Nuno (aliás, meu filho) sobre este assunto… De resto, eu nunca tirei uma selfie com as gémeas e sua família e, verdade verdadinha, nunca nenhum português me tinha solicitado intermediação num caso destes. Se isso tivesse acontecido, eu teria feito o mesmo: despachava para a Casa Civil e solicitava, à consultora para os assuntos sociais, “esclarecimentos sobre o que se passava”. Era isto que eu faria, até porque as pessoas, quando necessitam, tornam-se como filhos: chingam e insistem.

Porém, mantém-te calma, ó minha alma. É assim que faço com milhares de pessoas: pedem e eu despacho. Por causa de tratamentos milionários que deveriam ser aplicados em cidadãos nacionais? Talvez não, mas trata-se, de qualquer modo, de duas gémeas luso-brasileira e o “luso”, aqui, é muito importante. Fico, de resto, contente por ver que o bom povo me percebeu: para além dos milhões gastos no tratamento, a sociedade portuguesa-hospitalar-assistencial ainda lhe forneceu uma quantidade de cadeiras top, acima das suas necessidades. Estou, pois, feliz com este sistema público de saúde – que deve ser supletivo do um sistema privado de saúde: este é para ganhar dinheiro com pessoas remediadas; quando se trata de operações extraordinárias, aí, entra o público. Só não percebo como é que o Costa não encontrou mais dinheiro para financiar este esquema virtuoso.

Bom Natal – que, como se sabe, aconteceu em Belém.

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