Quarta-feira, Janeiro 14, 2026
Quarta-feira, Janeiro 14, 2026

Menos zés-povinhos e mais tertulianos

Data:

Partilhar artigo:

Não me parece que seja o perigo de exposição da intimidade que justifique esta superficialidade das relações sociais. Estou mais inclinada para o medo de expor as fragilidades do que as intimidades

Susana Santos

O Zé Povinho, personagem de Bordallo, representava um conjunto de pessoas que, embora pouco satisfeitas, se limitava à maledicência sem se atrever a aprofundar questões ou comprometer com soluções.

Embora hoje seja considerado simpático, o famoso Zé do manguito era, na verdade, um covarde que só sabia ofender. Nunca lhe deu para afrontar, nem para discutir, nem para lutar. Ninguém sabe o que realmente pensa, nem de onde lhe vem o ressentimento. É o resmungão de serviço. O que grita blasfémias de longe, mas tira o chapéu respeitosamente se interpelado pela figura importante. Finge-se forte, mas é o típico “agarrem-me se não vou-me a eles”.

Hoje o povo, isto é, nós, já não temos a desculpa da ignorância nem a dificuldade da miséria como teve a figura bordallesca. As nossas necessidades básicas estão satisfeitas e temos liberdade para pensar, para discutir e para reunir. Assim sendo, pergunto-me porque não somos mais tertulianos e menos zés-povinhos.

Região de Cister - Assine já!

Um dia destes apareceu-me uma daquelas frases de autor desconhecido que pontuam as redes sociais a dizer mais ou menos assim: sinto-me melhor nas festas com centenas de pessoas do que nas festas privadas, nestas perdemos a intimidade. Fiquei a matutar nisto e na aparente facilidade com que participamos nas celebrações públicas e na progressiva dificuldade em socializarmos nos pequenos círculos. Parecem rarear as tradicionais tertúlias, serões com amigos e encontros temáticos. 

Não me parece que seja o perigo de exposição da intimidade que justifique esta superficialidade das relações sociais. Estou mais inclinada para o medo de expor as fragilidades do que as intimidades. Estar num café público a comentar generalidades não compromete ninguém. Gritar um vitupério numa festa ou mandar uma boca numa feira também não traz consequências. Já aceitar um debate, olhar nos olhos o interlocutor que se deseja contradizer ou interpelar, implica coragem e comprometimento. O que dissermos passa a ter consequências. Expormo-nos assim, requer coragem e humildade. É preciso assumir que queremos aprender e ouvir o outro e que estamos dispostos a sair de uma discussão mais ricos do que quando entramos nela.  

AD Footer

Artigos Relacionados

Frederico Santos: “Objetivo é afirmar o Cister SA como referência nacional na formação”

Com um notável currículo no andebol, Frederico Santos assumiu a coordenação técnica do Cister SA no início...

Natércia Inácio publica novo conto que promove leitura, saúde e inclusão

Cerca de quatro anos depois de lançar “A Sereia Isobella”, Natércia Inácio está de regresso com mais...

Rafael Alves vence 13.ª edição do The Voice Portugal

Rafael Alves, da equipa de Sónia Tavares, foi o vencedor da 13.ª temporada do programa The Voice Portugal....

Empresas de Alcobaça batem recorde histórico de exportações

 O concelho de Alcobaça registou, em outubro de 2025, o valor mensal mais alto de exportações desde janeiro...

Aceda ao conteúdo premium do Região de Cister!