Há projetos que deixam marca. Dancing Foutains é, sem dúvida, um deles. Que o digam a D. Alice Garcia, a D. Amélia Genoveva, o Sr. António Tavares, a D. Idalina Vicente, a D. Maria Mateus, a D. Rosário Nunes e a D. Selima Correia, utentes da Santa Casa da Misericórdia de Alcobaça, que ao longo dos últimos meses têm sido parte ativa de um processo artístico feito de memórias, escuta e encontro.
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Desenvolvido no âmbito do mestrado em Criação Coreográfica e Práticas Profissionais da Escola Superior de Dança, o Dancing Foutains é um projeto de mediação artística em dança criado por Inês Arrenegado, jovem de 22 anos, natural de Leiria, mas com fortes ligações a Alcobaça. A iniciativa nasce de uma vontade clara: aproximar gerações, dar voz à comunidade e explorar a relação entre corpo, espaço público e memória.
Na prática, o projeto constrói-se através de encontros regulares entre bailarinas da Academia de Dança de Alcobaça e utentes da instituição. Frente a frente, partilham histórias de vida [umas felizes, outras nem tanto], que servem de matéria-prima para a criação artística. “Na prática, o projeto desenvolve-se através de encontros regulares com os idosos, trabalhando memórias, histórias de vida e experiências corporais, que são depois traduzidas em material coregráfico”, explica Inês Arrenegado ao REGIÃO DE CISTER.
Apesar de todas as histórias serem diferentes, há algumas que são comuns: o tempo em que se lavava a roupa à mão, os bailes frequentados [mesmo que contra a vontade dos pais], ou as idas à fonte buscar água. Há também relatos de uma vida simples, onde “uma sardinha alimentava três pessoas”. São memórias que ganham agora uma nova forma: o movimento.
É a partir deste material que nasce o espetáculo final, que será apresentado na fonte dos Jardins do Palácio da Justiça, em Alcobaça. Mais do que um cenário, este espaço assume um papel central no conceito do projeto. “A escolha da fonte não é apenas estética, é conceptual. Trata-se de um espaço público com uma forte presença simbólica, que raramente é pensado como lugar de criação artística”, sublinha a criadora. A água, o fluxo e o movimento tornam-se, assim, elementos em diálogo direto com a dança.
Ao longo das sessões, realizadas aos sábados de manhã, criaram-se laços que vão além da componente artística. Entre conversas, gestos e silêncios, nasceram momentos de verdadeira ligação. “Pequenos gestos como um toque, um olhar ou uma partilha espontânea revelaram uma conexão genuína entre pessoas de idades e percusos muitos distintos”, recorda.
Tambem na instituição o impacto tem sido evidente. Vânia Ferreira, animadora da Santa Casa da Misericórdia de Alcobaça, considera o projeto uma mais-valia: “Permite-lhes ter acesso a iniciativas diferentes das habituais. É muito significativo que o espetáculo final seja construído a partir das partilhas feitas pelos participantes”, disse.
E, apesar de os idosos não integrarem o espetáculo final, devido ao horário da apresentação, o seu contributo é central. Toda a criação coreográfica nasce das suas vivências, sendo posteriormente interpretada pelas bailarinas da Academia de Dança de Alcobaça.
Para além do resultado final, há um processo que se revela transformador, tanto para quem participa como para quem cria. “Está a ensinar-me que a dança pode existir para além dos formatos convencionais e que a criação pode emergir do encontro com o outro”, reflete Inês.
As sessões conjuntas entre bailarinas e utentes já chegaram ao fim. Ainda assim, o projeto continua: Inês Arrenegado manterá encontros regulares com os idosos, dando continuidade à recolha de histórias e memórias. Paralelamente, as bailarinas irão trocar cartas, num diálogo que prolonga no tempo o encontro entre gerações, enquanto o espetáculo vai sendo, lentamente, desenvolvido. O resultado final será apresentado em julho, em data ainda a confirmar.





















