Foi da necessidade de ajudar a própria cadela que nasceu uma paixão que hoje se transformou também em profissão. Daniel Tenda, aljubarrotense de 27 anos, atualmente a residir na Nazaré, descobriu no treino canino um caminho que começou de forma inesperada, mas rapidamente ganhou propósito.
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Tudo começou com Freya, a pastora alemã que chegou à sua vida num momento em que ainda estava no exército. Com o tempo, começaram a surgir dificuldades, sobretudo ao nível da ansiedade de separação, o que o levou a estudar comportamento canino e a investir em formações online. Durante este processo, Freya foi mordida por outro cão, episódio que agravou o seu comportamento, tornando-a mais reativa e defensiva.
Apesar de ela já ter uma boa base de obediência, percebi que precisava de ir muito mais fundo no comportamento. Quando consegui equilibrá-la, percebi que isto era algo que queria fazer a longo prazo”, explicou ao REGIÃO DE CISTER.
Aos poucos, o aljubarrotense começou a ajudar cães de pessoas próximas e vizinhos, percebendo que tinha jeito e gosto pelo processo. Fez formação em treino canino, um curso avançado de etologia canina numa academia na Malveira e formação específica em técnicas como E-shaping, método de adestramento positivo baseado no reforço gradual de comportamentos, continuando a investir em conhecimento.
Na região, considera existir ainda uma lacuna na área, sobretudo numa abordagem mais individualizada e centrada no comportamento animal. “As pessoas estão cada vez mais conscientes de que não basta ‘ter um cão’, é preciso saber lidar com ele. Mas continua a haver muito trabalho a fazer ao nível da educação dos tutores”, refere.
O primeiro cão que treinou foi precisamente a Freya, em 2023. Agora, com uma carteira de clientes já com alguma dimensão, e até já experiência de internamento de um cão, Daniel tem os olhos postos no futuro. Daqui a cinco anos, imagina o negócio mais estruturado e consolidado, com ambição de crescer também no digital. “Conseguir ajudar mais pessoas e continuar a evoluir enquanto profissional, mantendo sempre a qualidade do trabalho” é o principal objetivo.
As histórias que o marcaram começam a multiplicar-se. O caso mais caricato foi Rex, também pastor alemão, cuja obsessão por bolas se tornou uma característica marcante.
Como mais desafiante, destaca o caso de Rocky, um híbrido de setter inglês e braco alemão, muito inseguro e reativo. “Com o trabalho conjunto entre mim e os donos, conseguimos melhorar bastante esses comportamentos e aumentar a confiança do cão”, reiterou.
Alexandre Godinho, dono de Rocky, descreve-o como um animal enérgico que tornara os passeios difíceis. “Era reativo e puxava muito a trela – pensava que era ele que nos passeava”, conta. O treino durou cerca de mês e meio e trouxe mudanças significativas: “Nos primeiros treinos foi difícil ganhar a confiança do Rocky, mas quando isso aconteceu a evolução foi muito rápida”. Destaca ainda “a disponibilidade, dedicação e o facto de o Daniel ensinar também os donos a educar o cão”.
Entre os casos que mais o marcaram, o treinador aponta o caso de Sovas, um doberman com um problema físico no fémur. “Tinha uma enorme vontade de aprender e uma ligação muito forte com o dono – das mais fortes que já vi. Foi um caso que me marcou pela atitude do próprio cão e pela forma como ultrapassava as dificuldades”.
Pedro Marques, dono de Sovas, explica que o cão surgiu numa fase difícil da sua vida, marcada por doença, o que tornou a ligação ainda mais especial. “O comportamento dele era terrível, caminhava com ele e não o conseguia controlar”. A ajuda de Daniel foi, por isso, transformadora, melhorando ainda mais uma ligação que já era, por si só, inexplicável. “É muito fascinante como ele consegue dominar o animal, mesmo sem o conhecer”. Emocionado, Pedro Marques, garante, por fim, “não ter palavras para descrever”. E a certeza é de que, na verdade, há coisas que, simplesmente, não se explicam. Talvez o dom de Daniel, seja uma delas.






