Com um notável currículo no andebol, Frederico Santos assumiu a coordenação técnica do Cister SA no início desta época. Em entrevista ao REGIÃO DE CISTER, o alcobacense aborda o convite, os desafios encontrados e os objetivos definidos a curto e médio prazo.
REGIÃO DE CISTER (RC) > Tem duas Taças de Portugal e uma Supertaça conquistada ao serviço do Sporting, além de outros projetos de relevo no andebol nacional. O que o levou a aceitar ser coordenador técnico do Cister SA?
frederico santos (FS) > A decisão nasceu de dois fatores: por um lado, a vontade de colocar a experiência acumulada ao serviço de um projeto com raízes fortes na formação e, por outro, o potencial que vejo no Cister SA para crescer ainda mais a nível regional e nacional. Senti que podia acrescentar valor na organização do trabalho, na definição de uma estratégia clara e na criação de melhores condições para os atletas, treinadores e para o próprio clube. Espero conseguir transmitir uma grande ambição e ter a capacidade de inspirar atletas, treinadores e dirigentes.
RC > A que se propõe?
FS > Proponho-me a estruturar um plano estratégico para o andebol do clube, alinhado com a missão, visão e valores do Cister SA. Pretendo garantir coerência entre todos os escalões, desde a formação às equipas seniores, ao nível do modelo de treino e de jogo, e da forma como o clube olha para o desenvolvimento dos atletas e treinadores. Na prática, significa coordenar e apoiar os treinadores, acompanhar o dia a dia dos treinos e jogos, definir objetivos claros por escalão e avaliar regularmente o trabalho que está a ser feito. Pretendo também impulsionar ações de formação interna para treinadores e estimular projetos que aproximem ainda mais o clube das escolas e da comunidade.
RC > A equipa sénior masculina está a protagonizar um arranque de temporada histórico na última década. O objetivo do clube é a subida de divisão?
FS > O objetivo competitivo natural, quando se tem um arranque de época forte, é olhar para cima e perceber se é possível dar o salto de divisão, mas isso tem de ser feito com os pés bem assentes no chão. Mais do que falar apenas em subida, interessa garantir que a equipa sénior masculina é uma referência para a formação e que existe uma base sólida de trabalho, organização e compromisso que permita competir sempre para ganhar. Se a conjuntura desportiva e estrutural do clube o permitir, a subida de divisão será encarada como uma consequência de um processo bem feito, e não como uma obsessão. O foco está em consolidar uma equipa competitiva, consistente e alinhada com o projeto global do Cister SA. Reforço que a eventual subida de divisão da equipa sénior será tão mais importante quanto este facto permita uma afirmação do clube junto da comunidade, de forma a poder angariar mais e maiores apoios, criando melhores condições e visando uma maior sustentabilidade desportiva e financeira.
RC > E está o clube hoje capaz de dar esse passo e ascender a uma 2.ª Divisão?
FS > Dar o passo para a 2.ª Divisão exige muito mais do que qualidade dentro de campo; implica condições de treino, organização interna, recursos humanos e financeiros preparados para as exigências desse patamar. O Cister SA tem uma base importante ao nível da formação e uma forte identidade, mas é fundamental avaliar, com rigor, se todas as áreas do clube estão prontas para sustentar esse salto de forma responsável. O plano passa por fazer um diagnóstico claro, definir o que falta melhorar e, em conjunto com a Direção, perceber se é possível criar as condições necessárias a curto prazo ou se esse objetivo deve ser apontado para um horizonte de médio prazo. O pior que um clube pode fazer é subir sem estrutura para se manter. É com base neste princípio que a preparação desportiva a longo prazo deve orientar o trabalho de base, garantindo que os escalões de formação do Cister SA constituam a principal base de recrutamento para a equipa sénior.
RC > Em sub-18, o Cister SA é a única equipa da região na 1.ª Divisão Nacional. O foco é alcançar a permanência o mais rapidamente possível?
FS > No escalão de sub-18, o primeiro objetivo é sempre garantir a permanência, porque isso permite que os jovens continuem a competir ao mais alto nível, facilita o seu desenvolvimento e constitui um escalão de referência para os escalões inferiores. Ao mesmo tempo, é importante que estes atletas cresçam num ambiente equilibrado, em que a exigência competitiva não apague o prazer de jogar e evoluir. As principais dificuldades passam pela diferença de recursos entre clubes, desde o número de atletas, à qualidade das condições de treino, passando pela experiência acumulada em competições nacionais. Para reduzir essa diferença, o Cister SA tem de ser muito rigoroso no treino, apostar numa boa organização tática, na preparação física e também na formação humana, para que os atletas sejam competitivos, resilientes e conscientes do caminho que estão a percorrer.
RC > Esta época, o clube deixou de ter equipa sénior feminina. O que motivou a decisão?
FS > A ausência da equipa sénior feminina não resulta de falta de vontade do clube, mas sim de limitações concretas, desde o número de jogadoras disponíveis até à capacidade para garantir um quadro competitivo estável e sustentável. Mais do que manter uma equipa apenas por obrigação, entendeu-se que seria mais responsável recuar um passo, reorganizar e criar condições para que, quando o regresso acontecer, seja com bases sólidas.
RC > A intenção passa por apostar nos escalões de formação femininos para, mais tarde, voltarem a ter uma equipa sénior?
FS > Sim, a aposta na formação feminina é essencial e está no centro da estratégia para voltar a ter uma equipa sénior. Só com uma base alargada de atletas jovens, bem acompanhadas e com um percurso contínuo dentro do clube, será possível construir uma equipa sénior competitiva e com identidade própria. O objetivo é criar um percurso claro para as jovens atletas, desde os escalões iniciais até à idade sénior, garantindo boas condições de treino, treinadores preparados e um ambiente que valorize o andebol feminino. Quando esta base estiver consolidada, o regresso da equipa sénior feminina deixará de ser um desejo e passará a ser uma consequência natural.
RC > Quais têm sido os principais desafios com que se tem deparado na realidade diária do Cister SA?
FS > Passam pela gestão de recursos: número de atletas, disponibilidade de treinadores, horários de pavilhão e capacidade administrativa para responder a todas as exigências diárias. Num clube com muita formação, é preciso organizar bem a utilização dos espaços, os calendários e a comunicação com atletas e famílias para que tudo funcione de forma fluida. Como em muitos clubes, existe a necessidade de aumentar o número de praticantes para reforçar a competitividade em vários escalões e consolidar a presença em provas nacionais. Isso implica investir em captação, parcerias com escolas, projetos de andebol na comunidade e em manter um ambiente atrativo, onde os jovens se sintam bem e queiram ficar. Na atual realidade do Cister SA, considero fundamental o aumento de atletas em todos os escalões, não só por motivos competitivos, mas também porque permite aumentar a qualidade dos treinos, facilita a organização das equipas, aumenta a competitividade interna, eleva a ambição para competir com os melhores e permite que os melhores atletas de cada escalão integrem de forma articulada o escalão acima.
RC > O Cister Sport de Alcobaça, que renovou recentemente a certificação enquanto clube de formação de três estrelas, é um dos bons exemplos de que como deve ser idealizada a vida de um clube?
FS > A certificação de três estrelas é um reconhecimento importante da qualidade do trabalho que o Cister SA já desenvolve na formação, e mostra que o clube segue muitos dos princípios que se podem considerar um bom exemplo. Fala-se de organização, estrutura, preocupação com a formação integral dos jovens e coerência entre o que se diz e o que se faz. Claro que nenhum clube é perfeito, e há sempre espaço para melhorar processos, comunicação, recursos e resultados. Mas o Cister SA reúne muitas características que se desejam ver num clube formador: compromisso com os atletas, preocupação com a ética, envolvimento da comunidade e ambição desportiva responsável.
RC > Faltam mais clubes como o Cister SA?
FS > Faltam, sobretudo, mais clubes com uma visão clara, um plano estratégico definido e a coragem de apostar na formação e na organização a médio e longo prazo. O Cister SA é um bom exemplo desse tipo de clube, e se existissem mais projetos semelhantes espalhados pelo país, o andebol português seria certamente mais forte. Clubes com identidade, que valorizam treinadores e atletas, que investem em estruturas e em projetos comunitários, são fundamentais para a evolução sustentada da modalidade. O crescimento não depende apenas dos grandes centros, mas muito também da vitalidade dos clubes de implantação local.
RC > Que objetivos define a curto e médio prazo?
FS > A curto prazo, o foco passa por organizar e implementar o plano estratégico, reforçar a articulação entre todos os escalões, consolidar a presença em competições nacionais e melhorar alguns processos internos, desde a comunicação entre treinadores, à recolha e análise de informação. Também é uma prioridade apoiar os treinadores no seu trabalho diário e criar momentos de formação que os ajudem a crescer. A médio prazo, o objetivo é afirmar o Cister SA como referência nacional na formação, estabilizar as equipas em patamares competitivos exigentes, recuperar e fortalecer o andebol feminino e, em conjunto com a Direção, preparar as condições para que as equipas seniores possam ambicionar outros voos, tendo como princípio orientador o da sustentabilidade. Tudo isto assente em valores claros: ética, espírito de equipa, ambição e desenvolvimento integral dos atletas.


