Viver antes e depois do 25 de Abril é ter o corpo dividido em dois tempos. Piedade Neto, 72 anos, sabe-o bem. Alexandra Norberto, de 27, já nasceu numa democracia. Cresceram em realidades opostas, mas partilham algo essencial: são mulheres donas de si. A história de uma não anula a da outra. Pelo contrário, complementam-se.
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Piedade, de Alcobaça, viveu a infância e juventude no Estado Novo. Confessa que a educação era muito controlada pelos códigos da ditadura, que havia pouca liberdade individual e que as atitudes não podiam exceder as normas da época. Mas, apesar do ambiente repressivo, nunca se conformou. “A avaliação interior que fazia da escuridão daqueles tempos já não era positiva. Daí ter sido sempre muito crítica e
até rebelde no que diz respeito à discordância daquele rigor tão despropositado”.
Estudou e tirou um curso – algo pouco comum para uma mulher na época. Em 1973 votou pela primeira vez, não por direito universal, mas porque já era professora. “Só esse estatuto me permitiu votar, porque às mulheres isso era vedado. Mas o voto era descaradamente induzido: um boletim já dobrado e a ordem
para o colocar na urna”.
Até o casamento exigiu autorização superior. “Tive que fornecer os dados do noivo porque uma professora não podia casar com qualquer um”. Para exercer funções no ensino, era ainda necessário assinar uma declaração a repudiar organizações comunistas ou subversivas. “Era assim o Estado Novo: controlador, vigilante, proibitivo e ditador”.
E, ainda assim, dentro desse sistema rígido, Piedade Neto nunca deixou de ser quem era. Conserva até hoje “os valores do respeito, da boa educação e da empatia”, porque para a alcobacense, “isso não tem épocas”.
Alexandra Norberto, de Aljubarrota, nasceu já em tempos de democracia, em que o direito ao voto, à educação e à autonomia financeira são conquistas consolidadas após a Revolução dos Cravos. Mas ser mulher hoje não significa ausência de desafios. Segundo a jovem, “ser mulher hoje significa ter a Possibilidade de escolher o tipo de liberdade que quero assumir e o caminho que desejo seguir”. Ainda assim, reconhece que essa liberdade vem muitas vezes acompanhada de uma pressão constante para dar conta de tudo.
Nunca falhou uma eleição. “Votar é uma forma concreta de honrar a história e proteger a liberdade que herdámos”. E assume-se empoderada: “É ter igualdade de oportunidades, respeito e condições justas para crescer. É sobre consciência do nosso valor e coragem para ocupar os espaços que sempre foram nossos
por direito”.
Acredita que uma mulher pode viver plenamente sem depender de um homem, mas valoriza a parceria. “Viver em casal, quando nenhum depende do outro e ambos remam para o mesmo lado, torna tudo mais leve”. Reconhece, contudo, que a igualdade ainda não é plena em todas as casas.
Sente também o peso das novas exigências, pois “se antes a mulher era oprimida legalmente, hoje existe outro tipo de pressão – estética, profissional e social”. A maternidade, sublinha, é exemplo disso: “É como se nos dissessem: conseguiram liberdade? Agora deem conta de tudo”.
E, num aparente paradoxo, Alexandra consegue imaginar-se noutra época – “se tivesse ao meu lado o companheiro que tenho hoje, com as mesmas ideologias”. Não a choca assumir a logística familiar: “considero-me boa nisso e gosto de cuidar de quem amo”. O que a assusta é a falta de liberdade política e de autonomia que pode advir dessa escolha.
Mulher moderna, mas ligada à terra. Valoriza a família, o cuidado, os projetos pessoais. Entre autonomia e tradição, seja na carreira de wedding planner ou na horta que tem em casa, constrói o seu próprio equilíbrio. O bonito destas duas histórias está precisamente no cruzamento.
Piedade Neto viveu na ditadura, mas sempre pensou para lá dela. Foi mulher num tempo em que não era suposto ser livre – e, mesmo assim, escolheu sê-lo. Foi, e é, crítica, instruída, consciente. Por sua vez, Alexandra Norberto vive na liberdade conquistada por gerações como a de Piedade. Tem direitos garantidos, conhece-os, exerce-os e respeita-os. Mas mantém viva a ligação aos costumes antigos,
à terra, à família, ao cuidado.
Duas épocas diferentes. Duas realidades distintas. A mesma essência. No fundo, o que une estas mulheres não é o tempo em que viveram, mas a convicção de que cada uma deve poder ser aquilo que quer — seja romper regras numa ditadura ou escolher tradições numa democracia.
Porque a verdadeira conquista é mesmo essa: poder escolher.



