Os exames nacionais deste ano letivo ficaram marcados por uma das maiores polémicas dos últimos anos no sistema de avaliação em Portugal. A introdução de um novo modelo de correção digital revelou falhas técnicas e operacionais que provocaram atrasos na classificação das provas, obrigando o Ministério da Educação a alterar o calendário previsto para a divulgação dos resultados.
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Entre problemas na plataforma dos professores classificadores, dificuldades na leitura dos códigos das provas e atrasos na distribuição para correção, a incerteza instalou-se junto de milhares de alunos e famílias, numa espera com impacto no acesso ao ensino superior. O Ministério da Educação garantiu que a fiabilidade das classificações não esteve em causa, mas a sucessão de falhas gerou um intenso debate, tal como comprovam os testemunhos recolhidos pelo REGIÃO DE CISTER.
Verónica Rodrigues, de 18 anos, aluna do 12.º ano da Escola Secundária D. Inês de Castro, em Alcobaça, afirma não ter sido surpreendida com os problemas, já que “todos os anos existem problemas na correção”, e conta que já previa falhas ao saber que a correção passaria a ser digital, uma vez que “muitos dos professores em Portugal têm idade mais avançada e menos experiência com a tecnologia”. Para a estudante, a decisão de digitalizar toda a correção foi “desnecessária”.
Já Maria Cristina Amaro Gil, de 16 anos, do 11.º ano na Escola Secundária de Porto de Mós, reagiu com choque e sublinhou ter sentido “medo de ser prejudicada injustamente”. “A nível académico, gerou muita instabilidade porque não tinha a certeza se as classificações refletiam realmente o meu trabalho ao longo do ano”, conta, lamentando que a informação chegasse muitas vezes “através das notícias ou de conversas entre alunos, em vez de haver uma comunicação direta, clara e atempada por parte das entidades responsáveis”.
A mãe da jovem, Maria Inês Amaro, viveu a situação “com alguma ansiedade e bastante preocupação” e defendeu que a implementação do novo modelo “deveria ter sido feita de forma gradual, através de projetos-piloto e de uma avaliação prévia dos resultados antes da sua aplicação generalizada”.
Do lado dos docentes e diretores escolares, também há posições. Graça Casimiro, professora de Inglês na Escola D. Inês de Castro, considera a implementação “titubeante e fragilmente testada”, lembrando que no Reino Unido a digitalização da avaliação levou dez anos a consolidar-se, mas acredita que “os alunos não irão sair prejudicados”.
Luís Silva, diretor do Agrupamento de Escolas de São Martinho do Porto, apontou uma “comunicação dispersa e incompleta” inicial e sucessivas retificações que sobrecarregaram o secretariado de exames, admitindo que, no início, “a informação chegava primeiro aos órgãos de comunicação social” do que às escolas.
Manuela Lourenço, diretora do Agrupamento de Escolas de Cister (AE Cister), dá conta de um processo semelhante: a escola manteve-se disponível para apoiar os professores classificadores, “escutando as suas dificuldades” e mostrando “apoio e solidariedade” num processo novo e complexo. O maior desafio foi… “o silêncio”. “Tudo o que a escola foi sabendo foi através da comunicação social”, conta. A incerteza quanto à data e hora de publicação dos resultados gerou “bastante ansiedade” numa comunidade que, no AE Cister, envolvia cerca de mil provas.
A diretora esclarece ainda que o processo coincidiu com um período particularmente exigente na escola, entre a distribuição de serviço para 2026/2027 e a constituição de turmas. Quanto à comunicação do Ministério da Educação com as escolas, considera que “nem sempre” foi suficiente, mas reconhece maior cuidado numa segunda fase.
Sobre a confiança de alunos e famílias, a diretora sublinha ser “dever” da escola mitigar a perceção negativa alimentada por tudo o que foi dito sobre o processo, defendendo que “ninguém quer ver os alunos prejudicados”. Deixa uma mensagem aos alunos [e famílias] que viveram este processo com incerteza: “Confiem nas instituições, estamos todos a trabalhar no sentido de salvaguardar o superior interesse dos alunos. É a nossa missão e o nosso dever”.


