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Há quem sorria todos os dias e carregue, por dentro, um peso que ninguém vê. As doenças do foro psicológico e psiquiátrico não escolhem os seus alvos: não escolhem classes sociais, aparência ou religião. São doenças que precisam de ser tratadas. Portugal é o segundo país europeu com maior prevalência para este tipo de patologias. Estima-se que mais de 22% da população sofre de alguma perturbação psiquiátrica; 16,5% dos portugueses terão ansiedade e 7,9% vivem com depressão. A mente é o motor do corpo humano e é imperativo cuidar dela. É por isso que a reportagem que vai ler exige estofo emocional, mas é também necessária.
O REGIÃO DE CISTER falou com quem vive esta realidade diariamente e, por motivos de confidencialidade, não iremos divulgar o nome destas pessoas. Caro leitor, bastar-lhe-ão os testemunhos. A primeira entrevistada tem 31 anos, duas filhas, três cães e um companheiro de vida. Lidera uma empresa na região. Aos olhos de quem a vê, “tem tudo para ser feliz”, mas convive, todos os dias, com ansiedade crónica. Nem sempre foi assim. Foi algo que, aos poucos, e com o decorrer da vida, começou a acompanhá-la. “A vida fez de mim uma pessoa ansiosa. Perdi os meus pais aos 18 anos”, conta. Hoje, a ajuda passa sobretudo pela terapia e pelo exercício físico. E a quem tem medo de pedir ajuda, deixa um conselho: “Não estás sozinho”.
O segundo testemunho trata-se de uma jovem de 26 anos. Descreve-se como introvertida, insegura e medrosa, mas também carinhosa, divertida e sensível “quando está bem”. Foi diagnosticada com depressão depois de os primeiros sintomas surgirem por volta de 2014. Procurou ajuda junto de psicólogos da junta local, da escola e do centro de saúde, mas os acompanhamentos eram curtos e acabava por desistir.
Corria o ano 2018 quando tudo piorou: “comecei a ter ataques de pânico muito intensos. Sentia que estava a morrer, era um desespero horrível, tinha sensação de que ia desmaiar e sentia que estava a perder o controlo”, revela, acrescentando ter recorrido por várias vezes às urgências. Foi então que passou a ser acompanhada e recebeu o diagnóstico de depressão e ansiedade, com encaminhamento para psiquiatria e medicação. “Pela primeira vez, senti que talvez conseguisse realmente tratar o meu problema e começar a ficar melhor”, recorda.
Ao longo de quase uma década, viveu períodos de grande limitação, refletidos na dificuldade em estar em locais com muita gente, barulho ou luzes, e longos períodos de isolamento no quarto. Um dos mais difíceis dos últimos tempos foi a morte da avó.
Hoje, e depois de uma jornada acompanhada, os ataques de pânico são raros e a ansiedade “já não faz parte de todos os dias”. A medicação regular passou de oito comprimidos diários para apenas um, com uma medicação de recurso para os momentos de maior ansiedade. “Hoje consigo reconhecer os sinais de que estou a começar a ficar pior”, diz. E deixa uma mensagem a quem esteja a passar pelo mesmo: “Não há vergonha nenhuma em pedir ajuda. Não deixem a situação arrastar”, apela.
Mas… os casos multiplicam-se. Em 2022, e aos 33 anos, (chamar-lhe-emos Maria) foi diagnosticada com depressão, mas identifica um episódio anterior, nunca diagnosticado, com mudanças de humor, tristeza profunda e uma ansiedade sistemática durante um longo período. Da primeira vez, não pediu ajuda. Da segunda, decidiu não enfrentar sozinha o problema e deu esse passo.
Sobre a terapia, não esconde a dureza do processo: “Começa-se a terapia a achar que não estamos bem, no entanto, quando iniciamos, ficamos ainda piores, porque nos faz realmente ir ao fundo das questões que nos deprimem, e, só depois, ficamos melhores. Mas tudo compensa, porque é uma libertação”, justifica.
Após dois anos de terapia e medicação, viveu um período de estabilidade e, no final do ano passado, uma nova crise depressiva levou-a a retomar as sessões. O que aprendeu resume-o assim: “Saúde mental é tão importante como qualquer outra doença e deve ser validada e tratada com o mesmo detalhe e atenção”. E deixa um recado: “Não é por fazer terapia que é ‘fraca’ ou ‘menos capaz’. Confia no processo”, sustenta.
Para perceber o que está por detrás destes transtornos e o que distingue a ansiedade da depressão, o REGIÃO DE CISTER esteve à conversa com Rita Morais, psicóloga na Nazaré. Na ansiedade, explica, o corpo e a mente entram num estado de alerta e ameaça: preocupação excessiva, pensamentos acelerados, irritabilidade, palpitações, tensão muscular e alterações do sono. Na depressão, é mais frequente uma diminuição de energia, falta de interesse pelas coisas e dificuldade em sentir prazer, com tristeza ou vazio persistente, fadiga, isolamento e sentimentos de culpa ou inutilidade. Apesar das diferenças, “não são espaços mentais antagónicos”, e podem coexistir ou até ser consequência uma da outra. E “um sintoma isolado não permite qualquer distinção clínica”, pelo que a avaliação de um profissional é sempre o mais aconselhável.
No dia a dia, defende a profissional, o primeiro passo é nomear e identificar o que se sente, e informar quem está por perto, pois pode ser um fator protetor determinante. Recomenda técnicas de respiração, grounding, mindfulness, exercício físico e escrita terapêutica, além da reestruturação cognitiva trabalhada em terapia. “O isolamento deve ser evitado porque há tendência para agravar a sintomatologia”, avisa.
Os comportamentos de alerta variam: quando a pessoa deixa de sentir o que sentia ou de ser quem era, quando há aumento do consumo de álcool ou outras substâncias, ou quando tarefas básicas de autocuidado começam a falhar. “Os comportamentos autolesivos ou a ideação suicida são sinal de emergência e intervenção imediata”, frisa, seja através do médico de família, de linhas de apoio ou das urgências.
A terapia, sublinha, não “deve ser transformada numa obrigação ou numa espécie de certificado de que estamos emocionalmente saudáveis”, mas pode ser um recurso valioso em momentos de mudança ou para nos conhecermos melhor.
O peso do trabalho é outro fator que importa abordar. A alcobacense Joana Pena Ferreira, psicóloga especializada em psicologia do trabalho, alerta para o impacto das exigências laborais. O trabalho, explica, “está ligado à identidade, autoestima, reconhecimento, segurança e sentido de realização”. Ritmos acelerados, precariedade, sobrecarga e dificuldade em desligar, agravada pela tecnologia, mantêm o organismo em estado de alerta permanente, o que pode evoluir para ansiedade, exaustão ou quadros mais graves. “Não podemos falar de saúde mental sem falar de trabalho, porque não deixamos o nosso sistema nervoso à porta da empresa”, resume.
Entre os sinais de alerta num colaborador em exaustão estão a irritabilidade, o cinismo, o isolamento da equipa e a quebra de produtividade. Às organizações, pede avaliação de riscos psicossociais, acesso a consultas de psicologia com confidencialidade garantida e uma cultura de segurança psicológica, porque “a saúde mental no trabalho não pode ser tratada exclusivamente como uma responsabilidade individual”.
E ainda que, com a vida adulta a tendência seja de um ritmo mais acelerado e onde o stress reina, estas patologias podem começar bem mais cedo. Muitos problemas psiquiátricos na vida adulta têm origem em traumas vividos na infância. Em crianças e jovens, explica Rita Morais, a ansiedade e a depressão manifestam-se com frequência através de queixas físicas persistentes sem causa aparente, irritabilidade, recusa escolar, dificuldade de concentração ou quebra no rendimento escolar. “A infância é o chão que pisamos a vida inteira”, diz, defendendo que desenvolver competências emocionais desde cedo funciona como fator de proteção. Aos pais cabe estarem emocionalmente disponíveis, permitir a expressão de emoções sem punição e, quando necessário, procurar ajuda especializada, o que é também “uma forma de cuidar”.
Entre os testemunhos de quem vive e as explicações de quem trata, fica uma ideia comum: pedir ajuda não é fraqueza. É, ao invés disso, o primeiro passo para recuperar. Estar perdido, como resume a psicóloga Rita, “não significa necessariamente estar a ir na direção errada”. Significa, muitas vezes, que é preciso encontrar um novo caminho. E que ninguém, mesmo ninguém, tem de o percorrer sozinho.
Conviver com a depressão ou a ansiedade exige estabelecer pequenos objetivos diários para manter a autonomia, focar-se no presente através de técnicas de respiração e auto compaixão para acalmar a mente, e reduzir o consumo de estimulantes como o café ou o álcool. É fundamental evitar o isolamento total, partilhando o que sente com pessoas de confiança, e manter o acompanhamento regular com profissionais de saúde mental, que fornecem as ferramentas essenciais para gerir os sintomas a longo prazo.


