Histórias de madeira salgada contadas em peças de arte

É ao sabor da maré que pedaços de madeira, que viajaram pelo mar, chegam a uma praia. Ao sal dessa madeira, Zaida Varela e André Pedro adicionam uma dose de imaginação e uma porção de originalidade para criar peças de arte únicas com histórias de madeira salgada para contar. Eis o projeto Marés, que tem como cenário deste enredo a preocupação ambiental e a preservação dos oceanos.

“Sempre tivemos esta preocupação com o ambiente e apanhar lixo e madeira já era comum nas nossas idas à praia“, conta a valadense, formada em Economia e Serviço Social. Neste verão, André Pedro, técnico de Serviço Social, apanhou um pedaço de madeira e pensou em  transformá-lo num peixe para oferecer à irmã de Zaida, que é bióloga. A reação foi tão positiva que o casal aceitou a proposta em dar vida aos pedaços de madeira e lixo marinho devolvidos pelo mar e vendê-los. 

“Em setembro começámos a fazer umas peças para ter em casa e oferecer aos amigos e à família e só em outubro avançámos com a página do Facebook e a loja online”, assinala André Pedro, que é o “artista” do negócio. O casal passou a dedicar os sábados ao projeto, passando algumas manhãs nas praias da região a recolher lixo e à tarde a por mãos à obra na oficina que instalaram em casa dos pais de Zaida, em Valado dos Frades. “A base é a madeira, mas também aproveitamos o plástico, as redes e cordas de pesca e até os pregos ferrugentos que encontramos nas praias”, conta o técnico de Serviço Social. “Evitamos ao máximo colocar materiais que não recolhemos”, acrescenta. Também é comum utilizarem materiais reciclados ou substituir as tintas pela borra das cápsulas do café, “que dá o mesmo efeito”. 

A ideia, além da “sensibilização ambiental”, é criar peças que sejam decorativas e funcionais, ou seja, “não basta ser giro, tem de servir para alguma coisa”. Molduras, porta-chaves, porta-fotos, placas e presépios são algumas das peças únicas que o projeto Marés já deu à costa. “Não há duas peças iguais, cada peça é única e original porque os materiais que recolhemos nunca são iguais e são limitados”, nota Zaida Varela. 

Cada peça identifica a data da recolha e a praia onde o material foi recolhido, estando associada uma frase à respetiva praia (do Norte, do Sul, do Vale Fundo, da Légua  e de São Gião). O lixo que vão encontrando também é recolhido, mas diretamente para o caixote. “Não faz sentido apanharmos a madeira e deixarmos lá o lixo”, nota André Pedro.

As peças estão, por enquanto, à venda online, com preços que variam entre os 5 e os 18 euros. “Se fosse turista adoraria levar uma lembrança que tivesse sido recolhida naquele local”, diz Zaida, mas mesmo que não seja, apanhe estas Marés. A praia agradece.