Terça-feira, Julho 28, 2026
Terça-feira, Julho 28, 2026

Sei um ninho

Data:

Partilhar artigo:

Será que ainda sabemos ninhos? Será que esquecemos, colectivamente, o prazer de partilhar pequenas descobertas e de as respeitar e de esperar que se revelem sem nos precipitarmos na sua devassa? Será que as redes sociais já só sabem expor, maldizer, falsear e que, nelas, esquecemos os nossos valores? Será que não se sabem ninhos nesta floresta onde os ovos podem ser tudo, desde balas de borracha a pedras de vidro? Será que ainda sabemos preservar os frágeis ovinhos e a esperança que guardam lá dentro?

Confesso que, há não muito tempo, quando surgiram as primeiras redes sociais, aderi com entusiasmo a este mundo virtual de inimagináveis possibilidades. Sou uma profissional da comunicação e um novo e promissor canal, só podia significar mais oportunidades, mais media para mais vozes partilharem e refletirem no espaço público. A informação seria mais célere, mais imediata, ofereceria mais ângulos e visões múltiplas…

O entusiasmo foi-se esmorecendo à medida que fui, sucessivamente, constatando que uma grande parte dos que habitam as redes sociais apenas se querem ouvir a si próprios, ver a si próprios e, nos intervalos, desferir algum juízo fácil sobre os outros. A informação e a opinião confundem-se com mentira e com a sentença falseada, o real e o inventado, fundem-se com a perfídia e com a vaidade.

Região de Cister - Assine Já!

Com o tempo fui percebendo que, naqueles espaços, tão democráticos e tão acessíveis a toda a gente, tudo o que é importante corre o risco de ficar submerso num mar de irrelevâncias, como se as redes tivessem vindo para concretizar a profecia do “admirável mundo novo” do Aldous Huxley.

Durante anos procurei argumentar contra o autoritarismo, a tentação do pensamento dominante e único, do politicamente correcto e do conservadorismo confuciano que nos impede de ousar a diferença. O totalitarismo era, no meu entender, o maior inimigo da liberdade. Hoje, confronto-me todos os dias com um perigo maior, que, à falta de melhor termo, só posso chamar de facilitismo. 

Há, no espaço público, um campo que corre o risco de ser o da liberdade, para se transformar num matagal devassado onde não há respeito, nem palavras sagradas. E é pena, porque as redes são florestas e nas florestas temos de saber reconhecer e preservar os ninhos e a esperança. No entanto, como o Torga, eu

“Sei um ninho
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.”

AD Footer
Artigo anterior
Próximo artigo

Artigos Relacionados

Câmara reforça apoio ao CNAL com atribuição de 71 mil euros

O Clube de Natação de Alcobaça (CNAL), entidade responsável pela gestão das Piscinas Municipais de Alcobaça, recebeu um...

Hyrox testa limites da… superação

Imagine correr oito quilómetros, mas nunca de uma vez. A cada quilómetro, tem de parar e enfrentar uma...

Aceda ao conteúdo premium do Região de Cister!