Entrevista a Edmilson Pimenta

Depois de ser apresentado como coordenador técnico do Grupo Desportivo “Os Nazarenos”, Edmilson Pimenta fala, em entrevista ao REGIÃO DE CISTER, sobre a parceria entre o clube e uma empresa brasileira de agenciamento de jogadores que aponta a subida aos campeonatos nacionais como objetivo para os próximos anos.

REGIÃO DE CISTER (RC) > O que o levou a vir do Brasil para aceitar este desafio na Nazaré?
Edmilson Pimenta (EP) > É um desafio interessante. Trabalho há mais de 25 anos com o meu parceiro [Lárcio Silva] que me pôs em contacto com a PBF [empresa brasileira de agenciamento de jogadores]. Conheci as condições fantástica do clube e da Nazaré e decidi aceitar. O Grupo Desportivo “Os nazarenos” é um clube com tradição, mas está a atravessar uma má fase. É um projeto interessante e muito desafiante. Mas eu gosto de desafios. Na minha carreira enquanto jogador de futebol comecei por baixo. Gosto de começar por baixo e depois mostrar trabalho. Foi por isto que aceitei ser coordenador técnico do clube. Além disso, tenho raízes muito fortes aqui em Portugal, passei aqui grande parte da carreira e tenho duas filhas lindíssimas que estudam no Porto. Foi também a proximidade com elas e o apoio que lhes posso dar que me fizeram regressar a Portugal.

RC > Quais é que são as suas expectativas para o Nazarenos?
EP > Como eu disse, o clube tem muita tradição em Portugal e queremos levar novamente o Nazarenos para onde merece estar. Com as condições do clube é possível fazer um bom trabalho e, passo a passo, chegar até à 2.ª Liga. 

RC > Esse é o objetivo da parceria entre o Nazarenos e a PBF?
EP > Com certeza. A parceria é de um ano, mas pode muito bem ser prolongada. Aliás, o objetivo da Direção é subir. Nesta época que agora terminou não foi possível, o clube esteve perto, mas este ano pretende subir. Além da subida de divisão, um dos objetivos passa por revelar jogadores, à semelhança do que o clube foi fazendo nos últimos tempos, em que vários jogadores das camadas jovens se afirmaram como profissionais de qualidade. E são jogadores aqui da região. E por que não ter mais jogadores assim? Penso que com um bom trabalho isso é possível. Queremos montar uma equipa competitiva, subir de divisão, revelar jogadores e ganhar com tudo isso.

“Poderemos ter aqui jogadores que têm condições para jogar na 1.ª Divisão mas que vão estar connosco no Nazarenos por causa do projeto”

 

RC > Como é que isso vai ser feito na prática?
EP > Começa tudo pelos treinos. O Aércio Silva e o Mauriti Cardoso [presidente da PBF] vão trabalhar de perto para definir tudo muito bem. A vinda de alguns jogadores para suprir lacunas no plantel vai ajudar a formar um grupo forte. Vou ficar responsável por fazer a ligação entre a PBF, a Direção do Nazarenos e os jogadores. Para nós é importante fazer muito bem essa ligação para garantir que os jogadores têm todas as condições para evoluir. O Nazarenos está numa divisão baixa mas o nosso objetivo é alto. E até podemos ter aqui jogadores de 1.ª Divisão, mas que vão estar connosco por causa do projeto. Jogadores que têm condições de jogar na 1.ª Liga facilmente e estarão cá por mim e pela parceria com a PBF. Isso vai acontecer. 

RC > A realidade financeira do clube não é favorável. Em que condições serão contratados esses jogadores?
EP > A PBF vai suportar todos os encargos, então os jogadores vão ficar cá para fazer esse trabalho. Estarão aqui a trabalhar e para fazer uma passagem. Eles não vão querer ficar para sempre no Nazarenos, como é óbvio. Querem voos maiores. Mas para isso têm de começar por algum lado e vão poder fazer isso ao mesmo tempo que nos podem ajudar. Acaba por ser bom para os jogadores e para o clube, porque esses voos maiores só acontecem se fizerem um bom trabalho e isso vai ajudar a concretizar os objetivos coletivos.

“O Nazarenos está numa divisão baixa mas os jogadores têm de perceber que não é por isso que no futuro não poderão vir a jogar num clube grande em Portugal”

 

RC > Já estão a trabalhar em contratações de jogadores?
EP > Sim. Estamos em negociações com vários jovens, um deles joga no Leixões e foi sondado pelo Sporting e o outro é um médio-esquerdo ofensivo, de 17 anos, que marcou mais de 25 golos nesta época. Temos também um central que trabalha connosco lá no Brasil, 17 anos, 1,93 m e está pronto para vir ajudar o Nazarenos. E são jogadores que vêm para cá por nós para trabalhar para estar aptos para um desafio maior. E o nosso trabalho vai passar muito por isto de potenciar novos talentos.

RC > A sua experiência no Sporting e FC Porto podem ajudar nisso?
EP > Sim, com certeza. Com a minha experiência como jogador posso conseguir passar algumas coisas para os jogadores. A principal será que não é por se jogar nos escalões distritais que no futuro não se poderá chegar mais longe. Penso que isto é importante. A idade e a experiência são importantes e posso dar esse exemplo de que com trabalho é possível chegar, por exemplo, ao Sporting. Depois, a motivação é uma coisa muito importante. Porque os jogadores podem evoluir, mas precisam de ter motivação para desenvolver tecnicamente, psicologicamente e fisicamente para um grande desafio.

“Comecei por baixo na minha carreira e fui mostrando trabalho e subindo até poder representar o FC Porto e o Sporting. É esta mensagem que passo aos jogadores”

 

RC > Tendo em conta essa experiência, não faria sentido ser o Edmilson a assumir o comando técnico da equipa sénior do Nazarenos?
EP > Já fui treinador em alguns clubes no Brasil e ser treinador pode voltar a passar pelo meu futuro. Mas isso vai acontecendo a passo a passo. O míster [Francisco Mota] fez um bom trabalho esta época, não subiu por pouco, vamos deixá-lo continuar a fazer o trabalho dele. Já tem praticamente a espinha dorsal da equipa, os jogadores trabalham com ele e então vai continuar e tem tudo para fazer um bom trabalho. Estou cá há pouco tempo, ainda estou a conhecer o clube e a ambientar-me, vamos dar tempo para que todos possam desenvolver um bom trabalho.

RC > Está no clube há pouco mais de uma semana. Já teve oportunidade de conhecer a realidade do Nazarenos?
EP > Ainda estou a fazer isso, mas já deu para conhecer algumas coisas. Já deu para ver as excelentes condições de trabalho que o clube tem. Aliás, há clubes da Série A [principal campeonato de futebol no Brasil] que não têm infraestruturas com esta qualidade. Também já conheci as pessoas e também já deu para ver que são sérias e querem fazer um trabalho bom, transparente e coerente que levem o clube a subir de divisão. 

“Queremos voltar a aproximar os nazarenos ao Nazarenos“

RC > Na região são conhecidos vários casos de clubes que ficaram com problemas difíceis após parcerias deste género. O que diria a um sócio do Nazarenos que esteja reticente com o projeto apresentado pela PBF?
EP > Não iria dar a cara por um projeto, se não tivesse a confiança plena na empresa e nos seus parceiros, ou se não acreditasse que fosse correto e transparente. Tenho certeza que todos darão o máximo pelo clube e o Grupo Desportivo “Os Nazarenos” é a base de tudo. Não sei o que falhou nos outros projetos, mas sei que o mundo do futebol é igual ao da política: tem gente capaz de tudo, gente boa e má. Cada um terá as suas funções para que tudo corra bem. E penso que a parceria vai dar certo e vamos prolongá-la por mais do que um ano. Já estou a trabalhar desde que cheguei à Nazaré, fazendo também a divulgação da cidade, do clube e dos jogadores. Estive há dias no Porto e na Figueira da Foz e parece que todo o País já sabe que eu estou aqui na Nazaré. Desejam-me boa sorte e felicidades para o clube. Também aqui mesmo na Nazaré me perguntam como as coisas estão a correr e se vamos criar um grupo forte para subir de divisão. Passei pelo FC Porto e Sporting, fui campeão em ambos, e penso que como as pessoas me conhecem vão acompanhado a vida do clube. E queremos aproximar muito mais a Nazaré do Nazarenos. Temos várias coisas para fazer e estou a dar também a minha imagem para conseguir várias coisas para o clube.

RC > Jogou vários anos em Portugal mas sempre no escalão principal. Já conhece a realidade destas competições?
EP > No final da minha carreira também competi em escalões distritais [Guilhabreu na época 2006/07] e verifiquei que o nível competitivo é muito alto e evoluiu desde então. Já tive oportunidade de, nos últimos dias, ver um jogo da distrital de Aveiro, uma partida entre o Beira Mar e o Pampilhosa e vi muita qualidade. Há jogadores destas equipas que têm qualidade para estar em equipas muito maiores e fiquei até um pouco assustado [risos] e já falei com a Direção e os parceiros para fazermos uma equipa em condições, porque vamos encontrar desafios muito difíceis em campeonatos duros e muito físicos. Temos de estar mesmo muito bem preparados.

RC > Desde a reformulação do Campeonato de Portugal, nenhuma equipa do distrito de Leiria se conseguiu manter mais do que uma temporada. O que falta a estas equipas e como é que o Nazarenos pode mudar este “destino” dos clubes da região?
EP > Sim, já percebi que as equipas que sobem dos distritais para o nacional têm dificuldades em manter-se. Como disse, os campeonatos são muito competitivos e complexos. Há uma grande diferença de nível entre a Divisão de Honra e o atual Campeonato de Portugal Prio. Penso que a chave está, obviamente, na qualidade da equipa mas passa muito, também, pela construção de uma estrutura de apoio à volta dos jogadores. Não basta termos jogadores muito bons, é preciso um conjunto de outras tarefas que têm de ser asseguradas consistentemente e de forma profissional para garantir que tudo corre bem e que os jogadores só têm de se focar em apresentar-se em campo ao melhor nível possível. É importante contratar os jogadores certos, mas a estrutura também é essencial, e essa gestão vai passar por mim para criar todas as condições para se chegar onde queremos chegar. E manter-nos. Não vale de muito subir aos campeonatos nacionais e depois voltar a descer logo a seguir.

RC > Pensa que a sua visibilidade pode trazer benefícios para o Nazarenos?
EP > Claro que sim. Essas não são as minhas tarefas principais, mas acabo sempre por tentar ajudar onde posso e a visibilidade que felizmente tenho pode abrir algumas portas nesse sentido. Por exemplo, já estive reunido com uma marca de equipamentos desportivos que quer patrocinar o Nazarenos por minha causa. O negócio está praticamente fechado e vai traduzir-se numa redução dos gastos para o clube e isso é fantástico para a realidade do Nazarenos. Penso que também posso entrar nesse “departamento” e trazer as empresas e outras entidades para o clube. Não precisamos que nos deem muito mas se todos ajudarem um bocado já vai ajudar o clube a manter-se e cumprir os compromissos. Vou tentar, também, ajudar nesse sentido.