Segunda-feira, Fevereiro 2, 2026
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O comércio também ajuda a construir a nossa identidade

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Durante a minha infância, a segunda-feira era o dia mais esperado. Era o dia em que íamos a Alcobaça. O dia das compras. Íamos às lojas, percorríamos a rua das montras, passávamos pelo Rossio e, como sempre, escapulia-me para dentro do Mosteiro, como ainda hoje faço, pelo simples prazer de inspirar aquela atmosfera limpa, de humidade calcária, que se sente mal entramos na nave principal.

De todos estes rituais das segundas, o que mais lembranças me deixou foi, contudo, o da ida à praça. Aquele local de comércio, por excelência, onde se exibem e se adquirem muito mais do que carapaus secos, peixes de todos os tamanhos e formas, ainda a saltar, couves e nabiças, coelhos e pintainhos vivos. Ovos, batatas e cenouras frescas, fruta de todas as cores.

Das segundas-feiras, ficaram os cheiros inconfundíveis das verduras, o acre dos salgados, da serapilheira molhada, da terra húmida. Ficaram os sons da algazarra, dos pregões, das gargalhadas desdentadas, das zaragatas entre vizinhos de banca. Ficaram também todas as cores do arco-íris, envoltas num bulício desordenado e bonito, que lembra frescura, trabalho, mãos calejadas e testas precocemente envelhecidas pelo sol.

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Recordo também os xailes das vendedeiras, as boinas dos caseiros e o fascínio com que procurava a senhora da bilha de barro, que vendia limonada adocicada com açúcar amarelo. Parece que ainda vejo o redemoinho do líquido a girar em torno da colher de galão com que ela mexia o preparado e o barulho do inox contra o vidro, com que me deliciava e antecipava o prazer de saciar a sede inventada. A sede de observar a senhora da bilha de barro. Ainda sinto aquele gosto revigorante e inimitável. Não sei se era o barro da bilha que lhe conferia frescura ou se era a sede antecipada da segunda-feira, mas nunca nada me soube tão bem…

Sim, o mercado, o comércio é muito mais do que troca de coisas. É a partilha de sensações, de emoções, ajuda a construir lembranças e a acrescentar memórias com que, mais tarde, edificamos a nossa própria identidade, a pessoal e a colectiva, enquanto lugar, cidade, região.

Em boa hora o nosso jornal decidiu homenagear casas comerciais com história, e, por responsabilidade social, acrescento as memórias do mercado de Alcobaça onde se continuam a trocar bens e muito mais e onde, à semelhança desses outros locais, mercearias, cafés e lojas de tecidos, ancoramos uma parte do que somos.

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