Quarta-feira, Agosto 10, 2022
Quarta-feira, Agosto 10, 2022

De volta aos mercados para ouvir “a voz da terra ansiando pelo mar”

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Na semana passada li, com entusiasmo, um artigo assinado pela directora deste jornal, cujo título nos anunciava que ainda há vida no mercado!

E que bonito é o nosso mercado! Esse lugar de encontros, de partilha, esse lugar que nos aproxima da terra e onde podemos ouvir a voz do mar!

Onde, se não no mercado, podemos receber cenouras directamente das mãos quem as arrancou da terra nessa manhã ou comprar maçãs a quem as cultivou? Onde, se não no mercado, podemos ouvir o grito de frescura da pescada, e, ainda, receber de presente um cação seco para a menina, depois, provar?

Aliás, o mercado de Alcobaça foi, durante anos, o único compromisso que a menina tinha às segundas-feiras e era sempre com a boca aberta de espanto que ali entrava, agarrada à saia da mãe, para se não perder entre o labirinto das bancas.

Poucos locais me trazem tantas memórias como o mercado. Talvez por isso, ainda hoje, sempre que visito uma vila ou cidade, cá dentro ou noutro país qualquer, faço da visita ao mercado um momento tão solene como o da entrada num museu e tão fundamental como a ida ao monumento mais icónico. Só ali consigo, verdadeiramente, entender as gentes e imaginar as suas vidas e os seus desejos. Há mercados onde só o cheiro dos enchidos, dos queijos ou dos fumados domina o ambiente, como se tudo ali girasse em torno da arte de transformar, outros que se enchem da frescura dos vegetais acabados de colher e bradam pela urgência do consumo e outros ainda onde é só a carne ou só o peixe que parecem sobressair e ocupam os melhores lugares. Tenho a sensação que os da carne são quase sempre habitados por pessoas de cara dura e quadrada ao passo que os do peixe vêm acompanhados de uma certa toada no falar… Seja como for, os diferentes mercados dizem-nos quase tudo o que precisamos saber sobre cada terra.

Os nossos têm tradição de séculos. Em boa hora El Rei D. Dinis os estimulou. Por mim, este Rei não se chamaria O Lavrador mas O Poeta ou O Mercador. Além da agricultura, este nosso Rei percebeu, como ninguém até aí, que era nos mercados que as pessoas realmente se aproximavam da terra e se aproximavam entre si, percebeu também que nas trocas comerciais, se trocam muito mais do que cenouras ou laranjas, trocam-se visões de outros lugares, de outras paisagens. Trocam-se sonhos e ideias que vão além do mar. Nos mercados há uma certa poesia.

Agora, que estamos todos a pensar no país, ou assim nos dizem por estes dias que antecedem as eleições, vale a pena pensar em nós, no que somos, no que produzimos e também no que queremos e sonhamos. Um bom sítio para esta reflexão talvez seja, justamente, o mercado, porque, como no verso de D. Dinis, do poema da Mensagem de Pessoa, no nosso mercado, talvez possamos ouvir “a voz da terra ansiando pelo mar”.

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