Domingo, Junho 14, 2026
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Carapau seco!

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Quando era pequena, a minha mãe chamava-me assim, por ser muito magra. Mas não é desse tipo de carapau seco que vos falo hoje. Na verdade, o meu objectivo é o de fazer a apologia dos métodos tradicionais de conservação do peixe e de outros comeres. 

Acho que a energia eléctrica e a facilidade com que conservamos hoje os alimentos no frio, nos subtraiu a imaginação e o paladar. Em poucos anos, perdemos o saber acumulado ao longo de gerações e com ele se perderam centenas de texturas e de sabores. Mas nem todas as antigas técnicas de conservação foram esquecidas, embora muitas delas já só vivam na memória dos mais velhos. 

Lembro-me de muitas, sobretudo das usadas pela minha avó: conservavam-se as frutas em açúcar ou então secas (agora diz-se desidratadas). Com o que sobrava dos pomares fazíamos compotas, marmelada, enfiadas de rodelas de pêra e de maçã e assim se guardavam, em sacos de serapilheira ou penduradas no sótão, juntamente com os figos enfarinhados. A salgadeira era o destino da maioria das carnes, sobretudo daquelas que não tinham sido usadas para os enchidos de fumeiro, como o toucinho e os presuntos. As costeletas podiam ainda ser enfiadas em púcaras de banha e eram deliciosas quando voltavam ao tacho. No vinagre também se conservavam alguns legumes, embora, com o quintal ali ao lado, o álcool fosse mais requisitado para outros fins. 

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Já o peixe, esse, graças à louvável teimosia das mulheres da Nazaré, continua a ser, ainda hoje, uma festa para os sentidos. Sobretudo a secagem do carapau que, felizmente, ainda se faz à vista de todos lá na praia. Vale a pena a visita, nem que seja só para ver aquele assombro estético, equivalente à explosão do seu sabor. Depois de amanhados, escalados e passados em salmoura, os carapaus repousam dois ou 3 dias no areal, em extensos paneiros, feitos com madeira e rede de pesca e guardados por singulares e belas peixeiras de lenço e avental. 

Pois é, meus amigos, saborear um carapau seco grelhado, acompanhado de bom azeite e batata cozida pode ser, também, um exercício de responsabilidade social. 

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