Sexta-feira, Setembro 25, 2026
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Meritocracia, sim ou não?

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Muita coisa se passou desde o meu último comentário, fazendo jus à opinião, em forma de poema, de António Gedeão, segundo a qual “o mundo pula e avança/ como bola colorida / entre as mãos de uma criança”. Na verdade, 1) João Rendeiro suicidou-se, perante a quase indiferença geral; 2) a Ucrânia continua a fintar o gigante de pés de barro, ao mesmo tempo que ganha um Festival da Eurovisão que, episodicamente, assume alguma importância; 3) o pensador Michael J. Sandel, a propósito da tradução para português da sua obra A Tirania do Mérito, deu uma entrevista ao jornal “Público”, de 15 de maio de 2022, que deveria ser de leitura obrigatória em todas as aulas de filosofia, em vez dos fragmentos de autores gregos que já não podem dizer nada aos jovens de hoje
Em pleno século XXI, na Europa, uma guerra bárbara não distingue nada nem ninguém. Começada por razões irritantemente artificiais, volvidos quase três meses, continuam a morrer, aos milhares, crianças, mulheres, mas também soldados que não decretaram qualquer guerra e que não têm culpa alguma sobre esta insanidade que lhes rouba os sonhos e, muitas vezes, a vida. Porém isso, ainda que seja a expressão provocatória de um desejo, a vitória da Ucrânia (unicamente pelo voto popular), permite a formulação de um sonho: “Até para o ano, em Mariupol!”
Michael J. Sandel é um filósofo-estrela. Professor em Harvard, dá conferências presenciais para cerca de 15000 pessoas, como aconteceu em Seul, as suas aulas são acontecimentos mediáticos, ajudou decisivamente para a vitória de Olaf Scholz, na Alemanha. Ora, o que nos diz esta estrela? Que o mérito/a meritocracia tornou-se numa justificação de desigualdades iníquas. Além do mérito, que obviamente existe, há uma série de fatores (como o acaso, a sorte, a oportunidade…), que nada têm a ver com a qualidade das pessoas, e que, numa sociedade que deixa ao mercado toda a discricionariedade, distorcem a realidade, transformando pequenos acasos em vantagens descomunais. Para quem não quiser aventurar-se na compra do livro, procure a edição do jornal citado: talvez, depois disso, a aquisição de A Tirania do Mérito se torne inevitável.

 

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