Sexta-feira, Setembro 30, 2022
Sexta-feira, Setembro 30, 2022

Nenhuma santidade ultrapassa o seu tempo

Data:

Partilhar artigo:

Há muita coisa que nem toda a história nos consegue ensinar

A frase que dá título a este “artiguito” é uma paráfrase do célebre axioma filosófico segundo o qual “nenhuma filosofia ultrapassa o seu tempo” e foi-me sugerido por duas casualidades: a proximidade do dia 20 de agosto, em que se comemora a morte de S. Bernardo (1153) e a publicação recente de um livro de Amílcar Coelho, sobre as polémicas havidas entre o santo e o intelectual Pedro Abelardo.


Um dos factos que mais distorce a realidade é a intromissão do sentimento nos julgamentos da razão – quer seja para dizer bem de tudo (versão hagiográfica) quer seja para dizer mal de tudo (versão diabolizante). Ora, o que acontece é que a realidade não cabe dentro de um esquema maniqueísta, porque ela não é a preto e branco, mas sim composta por uma paleta infinita de cores e cambiantes.

Abelardo era um intelectual insubmisso, contemporâneo de Bernardo. Ligado à universidade e à discussão de ideias, tinha como missão submeter todo o saber ao exame da razão. E, para além daquilo que, hoje, nos parece evidente, ele acrescentava uma razão de peso: se o cristão não souber discutir com os gentios, nunca os poderá converter, a não ser pela força. Se não se aperceber das dificuldades para a razão que a aceitação de dogmas comporta, ficará humilhado numa discussão aberta com os não crentes. Como explicar a um gentio o dogma da Trindade, por exemplo?

Bernardo nada queria saber destas questiúnculas. Vivendo num tempo difícil, com um cisma a ameaçar a unidade da Igreja (algo que, como sabemos, não foi de todo evitado) e com Abelardo do “lado errado das opiniões”, mostrou-se implacável, tanto para ele como para todos aqueles que estivessem contra o papa “legítimo” de então (Inocêncio II). Para vencer esta cruzada, entre as várias que pregou, utilizou todo o tipo de argumentos falaciosos e de “maquinações”, para além de uma linguagem que não julgaríamos digna de um santo.

Há muita coisa que nem toda a história nos consegue ensinar. Contudo, bastaria olhar, ainda hoje, para certos exemplos que tão abundantemente ela nos dá para sabermos como é curta a distância entre o santo e o monstro, entre o bestial e a besta.

AD Footer
spot_img

Artigos Relacionados

Nove bombeiros da região participaram na prova “Escadórios da Humanidade”

Nove bombeiros das corporações da região participaram na prova “Escadórios da Humanidade”, realizada  este dia 24, no Bom...

Alunos da Nazaré participam em ação internacional de limpeza costeira

Alunos do 1.º ciclo participaram nas ações de limpeza costeira que decorreram na Praia do Norte e na...

Futebol: Leandro Santos chega aos 200 jogos na Honra

O jogo entre Ginásio e Mirense, agendado para o próximo domingo (15 horas), no Municipal de Alcobaça, vai...

Triatlo: Raquel Rocha arrecada bronze no Europeu de Bilbau

Raquel Rocha (Clube de Natação e Triatlo de Lisboa) esteve em plano de evidência ao conquistar a medalha...

Aceda ao conteúdo premium do Região de Cister!