Quinta-feira, Fevereiro 29, 2024
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A Rússia faz-nos falta (mas não a qualquer preço!)

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A Rússia faz-nos falta, até porque é parte de nós – como, de resto, a Ucrânia

Comecei a ouvir falar da Rússia, através da reza do Terço: no final, havia sempre uma invocação especial sobre a “Conversão da Rússia”. Mesmo que, na altura, não soubesse muito bem por que rezava, lá no fundo, havia uma certeza: era contra o comunismo e isso bastava. Naquela altura, havia outras razões para “rezar pela conversão da Rússia”: a Hungria, um país católico, havia sido alvo de uma brutal “operação militar especial”. Soube isso porque, como o meu pai era um “excursionista católico”, fui algumas vezes a Fátima, sendo obrigatória a visita ao “Calvário dos Húngaros”. Também fiquei a saber que os comunistas mataram muita gente, nomeadamente o “Presidente húngaro” que vim a saber, bastante mais tarde, tratar-se de Imre Nagy. Talvez seja por isso que falar de paz, em russo, faz gaguejar muita gente.

No entanto, sinto que a Rússia, com uma cultura fabulosa – que moldou, em muitos aspetos, a cultura universal, mas, sobretudo, a europeia – nos faz falta, para além dos óbvios petróleo e gás. Em termos científicos, a Rússia é uma potência. Deixo, porém, o reconhecimento dessa faceta a quem saiba mais do que eu.

Porém, na área das “humanidades”, tenho alguma coisa a dizer…

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O meu primeiro trabalho de filosofia, na Faculdade, foi sobre “O existencialismo de Nicolai Berdiaeff”. Foi há cerca de 50 anos, mas ainda me lembro da comparação com Chestov, Gabriel Marcel, Sartre e sei lá que mais.

Depois, um fantástico professor de Teoria da Literatura levou-me ao conhecimento de Tolstoi e Dostoievski. Li “Guerra e Paz”, retendo ainda qualquer coisa dos Bolkonski e dos Rostov, sobretudo de Natasha Rostov. Li o “Idiota”, de Dostoievski, bem como, do mesmo autor, “Os Irmãos Karamazov” e “Crime e Castigo”, ficando aturdido com a dimensão e profundidade de personagens como Muichkine, Kolia, Raskolnikov, Sonia Semionovna… Li muitos outros autores. Ouvi muitos compositores fabulosos cuja listagem seria, pela sua extensão, fastidiosa. Quem ainda não leu ou não ouviu, tire um pouco de tempo e vai sentir-se recompensado pela descoberta de mundos fantásticos. Na verdade, tudo no imaginário russo é desmesurado: o espaço, a riqueza, a miséria, a elevação, o pecado, o crime e o castigo… É um mundo de príncipes, de muitos príncipes, e de vilões, muitos e grandes. Pelo meio, como figurante anónimo, qual coro de tragédia grega, está o povo russo que, de renúncia em renúncia, de misticismo em misticismo, nunca conheceu a normalidade de uma democracia. Passou de uma situação czarista insustentável para uma situação comunista, sobretudo sob a presidência estalinista, ainda mais insustentável.

A Rússia faz-nos falta, até porque é parte de nós – como, de resto, a Ucrânia.

Mas não a(s) devemos ter a qualquer preço.

Gostava tanto de ir a São Petersburgo.

Mas não irei a qualquer preço.

Gostava muito de um inverno quentinho.

Mas não me aquecerei a qualquer preço.

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